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El Patotero Compay Primero

Até quando vivi em Porto Alegre, a cidade onde nasci e que também a chamo, gauchescamente de torrão natal, usava-se a palavra patotero, assim sem o i, como um adjetivo qualificativo de gente desqualificada. Por lá, e naquela época, patotero significava fazer parte de uma patota; o que também merece explicação. Pois patota significa turma, grupo e bando que é o sentido a que me refiro agora. Patotero, então, e bandoleiro é a mesma coisa; patotero é um sujeito mau caráter sempre metido em negócios escusos, duvidosos, ilícitos até, e em ladroeiras. E pela proximidade, intimidade e pelejas de outrora com nuestros hermanos platinos, afirmava-se também sua existência por toda a pampa.
Quem conheceu Zeno, danado demais da conta, sabe bem o que é um patotero. Zeno em sua área de atuação fraudava o que podia e o que não devia; tudo sempre em seu benefício. Se tivesse que vender seu serviço para alguma instituição pública por 10 mil, digamos, subornava quem autorizava a compra com 20% do valor. Valia a pena, pois o subornado se tornava cativo de seus trambiques pro resto da vida da gestão; pelo menos por quatro anos.
Zeno, danado demais da conta, hoje afastado de seus trambiques, não foi a única espécie existente de patotero. E nem a espécie está em extinção, como bem sabemos todos nós. E é esse saber, quase uma aceitação, que temos sobre a existência desses vigaristas, e a obrigatória convivência com eles que nos impõe seus fãs e admiradores, que os salvam da extinção. Como são de várias espécies, digo, com várias especialidades, atuam com modalidades especiais em todas as áreas da administração pública. Outro dia um patotero, o Patotero Compay Primero, disse que a partir de agora todos os ministérios da república abrirão seus cofres. Corramos todos, pois não, e locupletemo-nos.
Mas a principal característica do patotero é mudar de opinião; é dizer de novo o que já tinha dito, só que de outra maneira. É refazer e rever, sempre alterando o que bem entende, para depois, com isso, confirmar o que tinha dito. Complicado, isso, não é? Pois é assim: no início do ano um “patotero compay” diz que a previsão de inflação será de 3,4%, por exemplo. Dois meses depois, com a inflação subindo mais rapidamente do que ele “previu”, ele apresenta, oficialmente, a “nova previsão de inflação para o ano”. Esta será agora de 3,6%. Como ninguém lembra do que o “patotero compay” previu antes - e ele também não diz mais - ficamos todos nós com essa cara de cachorro que lambeu osso, como gostava de dizer meu avô para dar exemplo de satisfação.
E assim, com a permissão do Patotero Compay Primero, vai alterando a previsão de acordo com a oscilação do índice e do seu interesse, de modo a que chegue ao fim do ano sempre conforme a tal previsão. E depois proclama: “nesse país a inflação está sob controle”. Ora, isso é o mesmo que prever o resultado do jogo em andamento, a cada 5 minutos, conforme os gols vão sendo feitos. No final da certo.
E ficamos todos nós, não só com a cara de cachorro que lambeu osso, mas com a certeza de que nosso mirrado dinheiro ainda vale à mesma coisa; que não perdemos nada, pelo contrário, e que devemos manter o Patotero Compay Primero narrando o próximo jogo e deixando-o fazer novas, precisas e honestas previsões.
CESAR CABRAL
Enviado por CESAR CABRAL em 29/12/2005
Código do texto: T91840
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
CESAR CABRAL
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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