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Sobre o que se quer no novo ano*

A mais calada das criaturas é como eu fico quando falam do que ou de quem eu nem sei. Foi assim que um senhor, mais vivido do que eu umas quatro vezes, me deixou. Ele acompanhava a cunhada ao dentista, e eu esperava.

– Os filhos... nem aí pra ela. Quando morrer, vão querer terras estragadas que tem pras bandas do Eusébio...

Eu disse um “acontece”, e ele continuou, mas antes deu uma risada, como quem prepara a graça seguinte:

– Tem medo de dentista. Tem medo de sentir dor. Nem sei como, quando o marido morreu, sentiu tanta dor...

– E dor acaba?

A gente não se acompanhou, e a conversa acabou.

Mas falando de dor e conversa, noutro dia, numa parada pra diminuir a dor na perna da caminhada alongada pelo tanto de praia, puxei conversa com um pescador. Comecei pelo que ele saberia, pra não o deixar sem ter o que dizer:

– Com quantos paus se faz uma canoa?

– Sei não. Só pesco aqui, na beira.

– Pescador de beira.

Ele sorriu grande da bobagem da minha constatação. Sentiu-se à vontade e continuou:

– Quis canoa não, moça. Quero peixe que venha pra mim. É dos bons peixes do mar longe, mas nunca se sabe quando vai ter peixe bom assim. Não gosto de viagem perdida. É no pé de casa a viagem até aqui, até aqui na beira.

– Você quer sossego, né?

– É não, moça... Sabe o que eu queria mesmo? Eu queria fazer uma festa lá em casa. Levar um monte de peixe, dos peixes bons, levar caixa de cerveja pros vizinhos, e fazer minha mulher reclamar de tanta alegria no lugar de reclamar de nunca ter o que sobre. Queria ver meus meninos brincando na calçada, e nós lá, se divertindo, dia todo, e minha mulher satisfeita, queria uma festa assim, de papoco, sabe?

– Sei, eu sei como é querer assim.

– A moça não tem uma coisa assim que queira não? Uma coisa que faça gente reclamar de tão bom?

Eu sentei, enquanto peixe na rede dele não caia, e contei do que eu queria.

– Eu queria, eu queria num bar meia-boca, do jeito que eu gosto, sabe? Lá ia ter duas árvores, uma em cada calçada, que era pra fazer sombra grande. E devia ser num tempo que nem era tempo, não dava pra dizer o horário, mas era sempre final de tarde, e eu e meus amigos conversávamos e ouvíamos músicas, e ríamos e éramos felizes. Aí, numa hora, começava a tocar uma música, e logo no começo da música, um amor me chamava pra dançar, e a gente dançava, dançava, dançava, enquanto todo mundo conversava, e a gente continuava dançando, dançando, dançando num mundo que nem era o mundo...

– Quando foi isso?

– Em 2006.

*crônica originalmente publicada no site Crônica do Dia - www.patio.com.br/cronica
Cristina Carneiro
Enviado por Cristina Carneiro em 30/12/2005
Código do texto: T92415
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Sobre a autora
Cristina Carneiro
Fortaleza - Ceará - Brasil, 34 anos
56 textos (2431 leituras)
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Cristina Carneiro