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VODKA COM GELO

Durante o caminho até o shopping, em um bairro de classe média da cidade grande, o pneu do Mercedez blindado furou. Sem muitas alternativas a não ser trocar ou mandar trocar o pneu, o motorista uniformizado encostou o carro de luxo no meio-fio e olhou em volta, buscando auxílio. Logo encontrou. Frentistas de um posto próximo não hesitaram em ajudar. A madame, que achou melhor tomar um ar e beber um drinque frente à situação, saiu do carro em busca de, digamos, abrigo. Avistou uma lancheria na esquina. “Será que servem Bloody Mary?” Pouco provável. Uma lancheria com o nome de Chope do Alemão, dificilmente serviria bebidas finas. De qualquer maneira, resolveu sentar-se em uma mesinha do lado de fora do estabelecimento, enquanto seu carro era consertado. Não tinha compromissos ou horários, então, resignada, aguardaria. “Espero que o conserto não demore.”

- Um chopinho, senhora?
- Perdão?
- A senhora gostaria de um chopinho?
- Não obrigada. Você tem algo destilado?
- Uma caninha?
- Caninha?
- Cachaça... Pinga... Tenho vodka também.
- Uma vodka com gelo, por favor. Você pode trazer a garrafa?
- Sim, senhora.

O Alemão achou estranho, mas ficou entusiasmado. Poderia cobrar caro, já que deixaria na mesa, a garrafa.

- Aqui senhora. Mais alguma coisa? Uma empadinha, um petisco?
- Não, obrigada.

E a madame começou a beber. Aos transeuntes que observavam a cena, a madame revirava os olhos, pensando o quanto eram inferiores. Bebeu o primeiro copo com facilidade. “Vodka de baixa qualidade, mas vodka.” Serviu-se do segundo (coisa inusitada, já que sempre era servida por todos), que foi bebido com mais facilidade ainda. Já ensaiava um sorriso para si mesma. Terceiro copo. Ensaiava agora, um sorriso para os transeuntes. Quarto copo. “Será que o conserto demora?” Quinto copo. Pensou em chamar o Alemão e pedir se haveria mais daquela vodka maravilhosa na adega da lancheria. Sexto copo. Esqueceu o pensamento quando avistou Dejonir, o mecânico da oficina em frente. Sétimo copo. "Que homem lindo. Como é que ainda não o conheço?" Oitavo copo. Tentou chamar o Alemão para descobrir quem era aquele deus grego. Desistiu. Foi tomada por um cansaço irresistível. Nono copo. Resolveu apenas se acomodar na cadeira e apreciar, com os olhos semicerrados, aquela dádiva da natureza em forma de homem com macacão azul marinho e manchas pretas. “Espero que o conserto demore.” Décimo copo. “Vou jogar beijos e esperar a resposta.” Teve apenas a intenção, pois lhe faltavam forças para executar tal façanha.

- Senhora? O carro está pronto.
- Será que dá?

Foi o que a madame conseguiu responder. Acordou para a realidade com uma bruta dor de cabeça, já em sua mansão na zona sul. Lembranças do mecânico? Nenhuma. Guardava apenas a impressão de ter mastigado uma maçaneta e sentia em seu íntimo, saudades do Alemão.
Rafael Zanette
Enviado por Rafael Zanette em 30/12/2005
Código do texto: T92422

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Sobre o autor
Rafael Zanette
Florianópolis - Santa Catarina - Brasil
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Rafael Zanette