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O poder do pênis

                     O poder do pênis

O deputado e amigo Leonardo Arruda cobra-me o assunto. Reedito, aqui, uma velha tese nunca publicada em jornal ante o conservadorismo social: de onde vem o poder do pênis e qual a sua importância mágica no contexto psicológico da humanidade?
Ensina-nos a história que, nas procissões em homenagem ao deus do vinho – Baco, um grupo de homens portava lanças como símbolo do pênis, do “Phalo”. Nessas festas, onde se iniciou a dramaturgia grega, com a representação popular, o final era sempre a orgia e a entrega livre ao amor. Outras vezes, em vários cerimoniais religiosos do shintoísmo japonês (que se fundiu com o budismo), em alguns grupos budistas, no vedismo ou mesmo na Roma antiga, o pênis era carregado, adorado, beijado por mulheres que queriam engravidar. Mas de onde vem esse poder?
Na psicanálise clássica “Interpretação dos Sonhos” (Freud, 1899) é símbolo masculino todo objeto pontiagudo: varas, guarda-chuva, postes, árvores, lanças, espadas, revólveres, lápis; enfim, tudo que corte, agrida, perfure, domine. E isso tem sido uma característica masculina. Num mundo dominado por homens, fizeram muito mais a guerra que a preservação da natureza.
Dizemos isso com certa propriedade. A morte de crianças do sexo feminino, o infanticídio feminino, era prática comum entre os povos guerreiros primitivos. Se o homem pensasse em preservar a prole, a natureza, o mais lógico seria matar crianças do sexo masculino, já que um só homem é capaz de engravidar várias mulheres. Para a guerra, no entanto, o macho era indispensável.
Daí a associação do pênis com a lança, com a agressividade, com a força, com algo que domina a natureza, inclusive se antepondo à lei da gravidade. A mulher, no dizer de Simone de Beauvoir, está mais próxima da natureza pela sua gravidez, seu climatério, sua menstruação. Na grande maioria das civilizações é à mulher que compete dominar o homem.
Assim, o pênis tem poder porque numa cultura onde se valoriza a força, como era mais evidente na barbárie, ele perfura, agride e domina o órgão sexual feminino. O pênis, como as armas, tem poder de penetração. É com o bastão, na Lenda Grega, que Édipo fere e mata seu pai Laio, para depois se casar com sua própria mãe (Complexo de Édipo, na Teoria Psicanalítica).
Os que defendem o machismo pela simplista explicação da natureza biológica, dizem que mulher tem menos glóbulos vermelhos, menos força muscular, menos velocidade. E como o óvulo (célula sexual feminina) armazena pacientemente em seu núcleo substância para nutrir os espermatozóides ou o espermatozóide que lhe perfura, diz-se que mulher deve ser paciente e passiva, protegendo o macho em seu regaço e albergando o filho em seu ventre. Não seria em vão que na mitologia nagô, Oxum – a deusa da fertilidade – gosta de oferendas como gema de ovo e mel de abelha, símbolos da procriação. Também não seria em vão que todos deuses femininos, como Instar e Cibelle, na Mesopotâmia, estarem associadas à fertilidade da terra e da agricultura. Já os deuses masculinos, como o nosso Javé ou Jeová, do antigo testamento, é vingativo e enérgico.
Só as mulheres indomáveis como Iansã ou bruxas más usam lanças, cabos de vassoura e outros símbolos pontiagudos, fálicos, penianos.
Não resta dúvida que a entrada da mulher no mercado de trabalho, mesmo como mão-de-obra mais barata, trouxe modificações no domínio do macho. A sociedade pós-industrial não exige mais tanta força física como na era do fax e do computador e o pênis perdeu seu poder mágico como instrumento de força. Cresce, no século XXI, o poder genital, político, social e acadêmico da vagina.
Mas a guerra continua a ser feita de forma sofisticada e tecnológica. A sociedade torna-se mais competitiva, agressiva e enquanto persistir a guerra, mesmo sofisticada, persistem os resquícios arcaicos de uma mulher inferior.
O culto do pênis, diriam certos neodawarvinistas, está como os “memes” (*) ou seja, vírus mentais que se transmitem de geração a geração na história da humanidade. Destruir a excessiva valorização do pênis é destruir o poder masculino. É diminuir o próprio poder. O Pênis, o Poder e a Guerra são uma trilogia fálica, uma trilogia simbólica da agressividade humana.




(*)Segundo Aaholas Fearn (“Aprendendo Filosofia”, Ed.Zahar, pgs l70 e l71, Rio 2001), a comparação deles com os genes(...) é uma analogia e não se sustenta. ”Memes” podem se misturar uns aos outros, ao passo que os genes são particulados e não o podem. ”Memes” também se adaptam à existência de seu hospedeiro e depois se transmitem à sua progênie. Os genes não podem ser transformados pelas atividades do hospedeiro; meramente sobrevivem ou não até a geração seguinte.

Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 30/12/2005
Código do texto: T92560
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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Maurilton Morais