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PRECOGNIÇÃO

Conto...
Vou acabar o ano e começar novo ano, como todos nós, seguindo o tempo. Sentindo-o como um fluir fluido onde a palavra surge da matéria que a faço, realidade que me realiza e faz ser, sujeito capaz de aspirar à Liberdade! Mas nunca serei livre, desde que me conheço, conheço os homens. Somos uma praga, estamos a dar cabo do mundo e sinto isso desde sempre: devo ter nascido precogno. Antes ainda de saber ler e escrever, senti uma dor enorme, depois de dar uma grande canelada ao subir a um banco de pedra e tentar olhar por sobre um muro que era as costas do banco. Lembro-me de ter tido esta ideia transparente de nitidez: isto é estar vivo, sentir pro_funda_mente! O que aconteceu contemplando um enorme campo florido polvilhado de rubras papoilas e de pequenas flores muito variadas no seu colorido, pequenos malmequeres silvestres de folhas brancas e azuis e centro amarelo sempre sobrevoados por borboletas grandes e pequenas, mas sobretudo as pequenas, de corres muito variadas. Onde existiam bandos de pintassilgos em cantos alegres, sendo a Felicidade respirar o instante*. Não sei o que me surge como mais importante, quando me entrego a este rememorar onde volto à memória como se nela pudesse morar. Quase deixa de ser importante pensar, volto à sensação de que viver é sentir profundamente..., emociono-me e isso parece ser tudo. Não fora o facto de escrever ser um acto onde me realizo como quem faz teatro, sem deixar que ninguém saiba o que é verdade na Verdade. Isto por uma razão simples, a Verdade não existe, é como a Liberdade. Eu seria capaz de viver preso, tornei-me um intelectual..., sem liberdade física. Falar de Liberdade ou Verdade, é entrar na Metafísica. São causas físicas as que me determinam, quando falo de Amor, penso, vivo, sinto a necessidade de amar. Amo a natureza, desde sempre... A violência com os animais e com os vegetais, sempre me fez sentir o Homem como um perigo. Isto por todos os motivos, por aquilo que somos. Enganamo-nos a nós próprios, enganamos os outros e somos inocentes! É impossível dizer isto às outras pessoas e querer que elas acreditem em nós, o que coloca isto tão próximo do exagero que não é exagero, é um exagero: como saber que o mundo onde vivo já não é o mundo onde nasci e corre o risco de deixar de ser um mundo habitável... Nós e o deuses veremos a escrita desvanecer-se, as obras ruírem e o apocalipse não ser absurdo nem surpreendente e acabar por ser quase um “desejo de massas”. É dar tempo ao tempo, quem morre agora morre melhor que quem morrer depois. Se o “depois” der tempo para isso, viveremos com implantes, seremos meio máquinas e teremos orgasmos cibernéticos e prazeres de praias ao luar a qualquer hora do dia e com a temperatura dos sonhos. Quando já não se souber o que é viver, talvez deixemos de temer a dor. Mas, como até a sabedoria poderá passar a ser conhecimento, quem sabe não nos tornaremos estóicos quando nos apetecer e a dor um património preservado? Desejo à humanidade muitas felicidades, digamos que fui céptico e anti-séptico!... Desinfectei o conhecimento, sem estar a escarafunchar mais nas causas. Se a descrença fosse dúvida, até estava cheio de certezas e bem servido de paradoxos!
Isto não é texto que se escreva para desejar FELIZ ANO NOVO a ninguém, mas neste Diário... não pretendo fazer a realidade, antes sou feito por ela. Sendo ela a minha bela, partilha comigo os momentos bons e menos bons e este não é dos piores, a lucidez pode ser lancinante e apenas me sinto diletante a fazer um discurso como quem escreve um conto com uma história que não interessa nem ao próprio, não se desse o caso de ninguém conseguir fugir de si. Prometo começar bem o Ano Novo, beijos e abraços a quem não temer sentir-se povo (os criadores da ideia de que terá havido um primeiro ovo, uma primeira estrela e a galinha que a pôs)! A verdade é que a transformação é a única forma de vida que não muda, nem é forma de vida, é a forma da vida; por aqui me mudo: Feliz Ano Novo!!!

{* A Felicidade é um esplendor, proponho uma mão cheia de haykais que escrevi à três dias, será o meu modo de começar o Ano Novo.}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 31/12/2005
Reeditado em 31/12/2005
Código do texto: T92748
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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