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O RIO QUE SOBREVIVE


Chego à cidade natal com medo de bala perdida, arrastão e ônibus incendiado. Penso em me refugiar nas cercanias da casa paterna, mas o convite do escritor Luiz Guerra para um almoço no centro da cidade me faz esquecer as fobias e cruzar os bairros cariocas. Resgato o nome de alguns logradouros revestidos com as obras das sucessivas gestões.

A saída do metrô do Largo da Carioca é marcada por estranhamento. Uma multidão caminha apressada e algumas pessoas se encostam à informalidade e permanecem clandestinas em plena luz do dia. Sinto-me turista em minha cidade. Fico surpresa com a grandiosidade do Mosteiro de Santo Antônio. Encontro Luiz Guerra em frente à livraria Camões com um pesado embrulho de um texto revisado a ser entregue na editora.

A primeira parada é um local previsível para o deleite de dois escritores, uma moderna livraria na Travessa do Ouvidor perto da estátua do Pixinguinha. Os livros expostos fascinam. Saio com três exemplares novos e a indicação de muitos outros. Novas livrarias e sebos nas ruas estreitas de um Rio histórico. A lembrança de um lugar mágico, resguardado na memória como um santuário da leitura, leva-nos à rua Luís de Camões.

Ainda em frente ao edifício do Real Gabinete de Leitura Português, o coração dispara com a lembrança da pesquisa realizada pela jovem enfeitiçada com a beleza da arquitetura manuelina do prédio e com o rico interior preenchido por incontáveis livros. Um universo de saber preservado da ação do esquecimento. O tempo embalsamado no conhecimento de gerações. Regras rígidas delimitam o comportamento dos visitantes: é proibido andar por entre as mesas, mexer nas estantes e entrar com bolsas e celulares.

Sento numa escrivaninha no centro do salão de leitura e liberto o olhar para os três andares de estantes; o olfato para o doce cheiro dos livros antigos... A memória é refletida nos tantos cantos das vivências e consigo perceber as mãos ao manusearem os livros ainda adolescentes, ler as primeiras buscas ao porto do conhecimento, compreender o conteúdo do amor pelos livros. Sob o encantamento das recordações, sinto tudo girar num caleidoscópio divino exposto nos vitrais que iluminam o grande acervo literário e aterrisso no Teatro Municipal na Cinelândia.

Uma visita guiada no grande teatro junto com uma centena de turistas. Dois cronistas resgatando as recordações num instante mágico. A história da construção do templo artístico no início do século XX é a memória necessária para a compreensão de uma época, de uma geografia remodelada pela modernidade, da história da cidade do Rio de Janeiro...

A entrada na platéia abre uma nova cortina: o teatro não é tão grande como eu lembrava, mas o palco é infinito. As últimas imagens estavam no olhar da adolescente que também não conseguia filtrar os belos detalhes das esculturas e pinturas. Novamente a luz dos vitrais: música, arte dramática e dança. Quase vejo a menina pendurada na galeria, deslumbrada com a apresentação do seu primeiro balé, mas ela se esconde na sombra adolescente deslizando no balcão nobre enfeitiçada pela ópera La Bohéme e perde-se na platéia, junto ao público de um teatro lotado, aplaudindo a apresentação de um concerto para violinos.

Música e poesia. As escadas do teatro ainda são marcadas pelo brilho dos pequenos sapatos de verniz. Memórias de um Rio que permanece vivo e que sobrevive às empobrecidas representações da alienação e da violência. Memórias que despertam lágrimas e sorrisos em uma carioca distante.
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 04/01/2006
Código do texto: T94542
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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