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Ovelhas alvas



  Na última noite de 2005, fui agraciada com uma surpresa. Era tarde do dia 31, e as crianças corriam pela casa cheia, os homens bebiam, todo mundo descontraído e se preparando para a virada. Eu conversava com uma dessas tias ou primas que a gente só encontra nas 4 festas do ano, quando toquei no assunto “Roberto”*, meu primo. Comentei com minha interlocutora que não o achava muito simpático e ouvi, de fonte segura, que a recíproca era verdadeira: o rapaz, mais que isso, me achava um porre.
Trocando em miúdos, me disseram que eu tenho um primo que não me suporta. Uma pessoa que carrega alguns genes iguais aos meus, mas se desagrada com minha presença. Alguém que é meu parente, mas preferia não ser.
Bem, isso é normal. (Se não, pelo menos freqüente). Afinal, existem famílias unidas e felizes, mas ninguém disse que existem famílias sem complicações. Toda convivência gera atritos. E às vezes, mesmo quando não há convivência, um disse-me-disse de tias, um chocolate roubado na infância ou besteiras que o valham fazem a gente criar ódios ridículos e alimentá-los vida afora, tornando os momentos familiares um saco.
E tome sorriso amarelo, comentário maldoso feito pelas costas, a presença ausente e forçada. Tome encontros aos quais ninguém quer comparecer, regados àquela vontade incontrolável de podar um dos ramos “podres” da sagrada árvore genealógica da família.(A privacidade da minha mente é o que me salva em festas familiares chatas. Já metralhei muitos parentes no interior mais secreto de mim).
E eu poderia mandar meu primo a um lugar não muito limpo e esquecer o assunto. Mas há algo nisso tudo que me perturba. Não consigo parar de pensar onde terei errado.  Será que é porque estudo muito, como salada, não bebo, não fumo e obedeço mamãe? Será que o Roberto é homossexual reprimido e tem inveja das minhas madeixas? Ou será que me odeia porque, na verdade, me ama?
Sei lá. Sei que a antipatia que tenho por meu primo me faz, não sei por que, questionar o conceito de família. Dizem que é um conjunto de pessoas que partilham sangue. Mas tenho parentes adotados e uma opinião formada sobre adoção: filho de sangue ou não, tanto faz.
Dizem também ser um conjunto de pessoas que partilham laços afetivos. Não mesmo.Com aquele rapaz lá, nem o laço do tênis. Além, disso, amo pessoas que a vida me trouxe e que não trazem meu nome ou minhas bases nitrogenadas. Nem por isso nossos elos são mais fracos. Às vezes, são infinitamente mais fortes e belos, porque derivam de escolha e amor recíproco.
Talvez família seja um conjunto de pessoas que, por certo motivo, são obrigadas a se agüentar para sempre. O motivo geralmente é sangue que força a convivência. E, dela, surge uma forma de amor especial, com menos educação, mais brigas, menos adornos, mais momentos ruins. Bem, é assim que deve ser e que devemos cultivar. Mesmo com pessoas como Roberto andando por aí e nossa antipatia mútua.
“Família” traz consigo a certeza plena de que estaremos juntos enquanto vivermos e, talvez além. Diante disso, a gente dá um jeitinho de se entender com quem é de casa, porque, já que é para a vida toda, não custa nada ser legal com as ovelhas negras. Com um pouco de compreensão, talvez você as veja mais alvas, exatamente da cor da bandeira da paz, ou da trégua até o próximo encontro familiar.




* Nome modificado para proteger a pele da autora.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 05/01/2006
Código do texto: T94815
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139783 leituras)
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Jéssica Callou