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               Brasil do amanhã

                     Rosa Pena


Minha filha sempre foi aquele tipo de aluna que adora ter o material todo arrumado.
É óbvio que ela aprendeu em casa, mas acredito que ela, por ela, gosta muito de suas coisas limpas, organizadas e bonitas. Desde pequenininha sempre foi assim.
Então, quando ela saiu do jardim de infância e foi para classe de alfabetização, quis uma mochila esperta, na época, a da moda, com motivos da Xuxa. Para acompanhar a mochila, pediu-me um estojo com os mesmos motivos, e por não ter à venda fizemos um em casa. Encapamos seus cadernos com contact transparente, colocando adesivos dos personagens da Xuxa na capa e nas folhas. Seus lápis, borrachas, lancheira e demais acessórios obedeciam ao tema. Ela foi feliz para o colégio nos primeiros dias.
Após uma semana, percebi que ela estava um pouco tristonha e perguntei o que havia acontecido. Sua borracha havia sumido. Disse-lhe que isto acontece e que compraria outra.
Dias depois, quando fui apanhá-la na escola, vi seus olhinhos tristes e novamente perguntei o que havia acontecido. Desta vez havia sumido a garrafa térmica.
Chamei a atenção dela com carinho, avisando-a que deveria cuidar melhor de seus pertences. Ela sempre deveria zelar muito bem suas coisas, por menor que fossem.
Uma semana depois, ligaram da escola pedindo-me que fosse apanhá-la pois ela estava vomitando. Sai ligeiro do trabalho e ao chegar lá encontrei-a de cabeça baixa na secretaria.
Abracei-a e perguntei o que havia. Respondeu-me que falaria
em casa.
Quando entramos no carro, ela me abraçou e começou a chorar copiosamente.
Beijei-a e insisti que me contasse o que estava acontecendo.
Disse-me, então, que seus lápis, seus adesivos sumiam todos os dias e ela via uma coleguinha de nome Viviane aparecer com o material idêntico ao que era dela.
Ponderei que a menina poderia ter comprado igual, visto que estava na moda.
Respondeu baixinho:
— Mãe, como ela pode comprar um estojo que nós pintamos juntas?
Diante da evidência, resolvi tomar uma atitude. Voltei à escola e narrei a diretora o acontecido. Resolvemos falar com a mãe da Viviane em particular, para não constranger as crianças. Eu e a minha mania de ética, de não ferir.
E no dia seguinte lá estávamos, as duas mães. Tentei conversar de forma franca, mas a mãe da Viviane se fez de ofendida e teimou que aqueles objetos eram de sua filha. Questionei que o desenho do estojo de madeira havia sido feito por mim e ainda tinha a minha assinatura.
Ela negou , dizendo que era impossível! Havia comprado!!!
Parei a briga ali. Senti-me extremamente constrangida por ela, por ver alguém fazer um papel tão ridículo. Bem, aquele ano foi difícil para minha Carolzinha. Na sala de aula, ela passou a tomar tanto cuidado com suas coisas que seus colegas passaram a vê-la como uma chata.
Viramos chatas quando resolvemos tomar atitudes. Se deixarmos passar, somos omissas; se começarmos a falar, viramos as “malas sem alças do mundo”.
Durante a vida pude perceber esta inversão de valores. Quem só atravessa no sinal é o pentelho. Quem avança o sinal é o arrojado. Depois ficamos a perguntar por que o mundo anda assim, tão sem valor.
Deixamos a Viviane conviver pacificamente com seus pequenos roubos. Será que foi certo?
No ano de dois mil e três, ambas completaram vinte anos.
Minha filha está cursando a faculdade de direito e faz estágio no escritório da UERJ. Continua organizada e desconfiada. Quer mudar o mundo. Quanto a Viviane, sempre a vejo comprando maconha numa boca-de-fumo que existe na entrada do morro do Turano. Continua vivendo ilicitamente e impunemente. Quer mais que o mundo se exploda. Qual é o melhor Brasil de amanhã?

 março de 2004

 foto:Formatura de minha filha em 2005
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 08/01/2006
Reeditado em 22/10/2008
Código do texto: T95953
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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