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Ah, não...

Você já teve a sensação de que a bala, no finalzinho, é mais doce? Fico sempre indignada com isso: como os finais de sensações deliciosas podem ser igualmente deliciosos. Como é bom desprender-se de alguém querido após passar muito tempo abraçando-o. Como a última gota do copo tem um gostinho especial.

Se meu leitor é como eu, essa sensação de “doce no final” se faz sentir, sempre, no cinema, depois que o filme acaba. Terminada a exibição, os créditos finais ganham a tela em ascendência, como se falassem: ”hora de ir para casa”. Você se sente feliz. Lentamente, surgem conversas, as pessoas se movimentam, se levantam. E temos a maravilhosa iminência de voltar para casa com mais uma história na cabeça.

Mesmo que o filme não seja lá essas coisas, sempre fui adepta da filosofia: “ide ao cinema em todas as circunstâncias”. (ou quase todas... odeio terror e tudo que for produzido com a única intenção de faturar.). Porque o melhor de tudo não é somente a película em si, é o ritual. O comprar pipoca, o escolher um lugar, o contato social. E, depois, as luzes que se apagam, como se, naquele exato momento, o mundo parasse, somente para você, privilegiado, ouvir aquela história. Então, vêm os slogans e logotipos, tão irremediavelmente associados ao cinema. Nada mais convidativo que aquele leãozinho.

Daí para frente, prazer extremo. Seja entregando-se à pieguice de um água-com-açúcar ou à adrenalina de um filme de ação. Por um preço não tão caro assim, apesar de injusto, é possível esquecer todos os seus problemas por algumas horas e se transportar para praticamente onde você quiser. Por mais ou menos duas horas, viver uma vida cheia de umas lindas mulheres, de Samurais, de homens de preto, amores em vermelho. Viver um doce Novembro, em Chicago ou na cidade dos anjos. Ficar todo mundo em pânico (I love dead people!). E ter um amor para recordar.

Talvez o gostinho dos finais esteja justamente no clímax que oferecem. A iminência da separação, da ausência, quando ainda resta um pedacinho de bala na boca, quando os braços ainda estão próximos, as luzes ainda apagadas.

Eu sempre saio do cinema com uma leve intuição de que nasci de novo. Pronta pra outra, sabe como é? Talvez seja porque eu o amo, vivo buscando sua magia e sedução. Da magia de não saber quem matou X à sedução de saber que a moça termina com o rapaz e assistir mesmo assim. Da magia de perder-se no som e na imagem à sedução de desejar que nunca acendam as luzes. Ou que acendam logo. Vai entender o gostinho dos finais...
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 09/01/2006
Código do texto: T96476
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139771 leituras)
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Jéssica Callou