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            Uma crônica
                                             para Maristela

     Naquele sábado de inverno feroz, conheci Maristela, uma bela puta. Desabava sobre Salvador um violento pé-d´água. Relâmpagos e trovões escandalosos metiam medo até  no mais audacioso boêmio. 
     Fazia muito frio no cabaré da Crêuza. Lá encontrei Maristela. Estava gelado o  seu modesto quarto, onde, felizes, terminamos a farra, iniciada à boquinha da noite. Isso aconteceu há mais de quatro décadas.

     Sergipana de sotaque apurado, Maristela era assim quando a descobri, naquele sábado de inverno brabo: estatura mediana; corpinho frágil; pernas torneadas; coxas sem celulite; barriguinha sem estrias; seios fartos e atraentes; nádegas suplicantes. Seus olhos eram graúdos, castanhos, lânguidos e ligeiros. Tinha um rostinho de mulher sofrida, apesar de sua pouca idade: 21 anos.
     Dançava com perfeição e inesgotável dengo.
   Nos fins de noite, quando o crooner Silvinho cantava o último bolero, ela, exausta, reclinando a cabecinha perfumada no meu ombro, desabafava: -  "Oh! Que pena! Quando estou dançando, esqueço o meu passado..." Mas, do seu passado, a rigor, ela nunca me falou. Guardava-o com a irremovível convicção de que ele só a ela interessava.

     No salão colorido do acanhado cabaré da experiente cafetina Crêuza, escondido em uma rua estreita do Centro Histórico de Salvador, Maristela jurava que gostava de deus e o mundo.  Isso estava no script que recebera da dona do bordeu. Mas, baixinho,  ela me dizia: "Não. Não gosto mais de ninguém." 
     Eu a compreendia. As as meretrizes, com o correr do tempo, tornam-se  mulheres incrédulas;  céticas;  revoltadas.  Maristela não era diferente de suas companheiras de prostíbulo; por mais que eu desejasse...
     Ora desiludida, ora magoada, ainda assim ela cumpria, com dignidade e exemplar assiduidade, as "obrigações" que lhe eram impostas pela severa dona do Randevu que a acolhera.

     Acabo de saber, que Maristela morreu...
   Mas a notícia somente me chegou depois que suas colegas a haviam enterrado; e como indigente. 
 O caixão, soube, lhe fora doado pela funerária de um galego. Ele a conhecera no tempo em que ela era aplaudida (por todos nós) como a "rainha dos puteiros".
     "Morta, Maristela ainda esboçava aquele seu sorriso zombeteiro",  revelou-me, pelo telefone, um amigo que a levou ao cemitério. 
     Oh! Sorriso que eu conhecera demais nas minhas madrugadas de gloriosas patuscadas - já tão distantes! -, com ela nos meus braços... Mas, com o passar dos anos, a perdera de vista.
     Me doeu muito não ter ido nem ao velório nem ao sepultamento da amiga Maristela. Poderia tê-la homenageado recitando, no seu ouvido, estes versos de Cora Coralina: 

          "Mulher da Vida,
           Minha irmã.
           De todos os tempos.
           De todos os povos.
           De todas as latitudes.
           Ela vem do fundo imemorial das idades.
           E carrega a carga pesada
           Dos mais torpes sinônimos,
           Apelidos e apodos:
          Mulher da zona,
          Mulher da rua,
          Mulher perdida,
          Mulher à-toa,
          Mulher da Vida
          Minha irmã
          Pisadas,espezinhadas,ameaçadas,
          Desprotegidas e exploradas.
          Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito."


     Daqui a pouco, vou colocar esta crônica por entre os cravos - já ressequidos? - que ainda enfeitam o seu túmulo, uma cova rasa em um cantinho perdido do Cemitério da Quinta dos Lázaros, onde, em Salvador, são enterrados os excluídos. E logo esquecidos...


 
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 11/01/2006
Reeditado em 12/02/2014
Código do texto: T97536
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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