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A mágoa

                       A mágoa



          Tal como a angústia, a insegurança e o medo estão na base de todas as neuroses, a mágoa, junto ao ciúme e à inveja formam o tripé da maioria dos comportamentos anômalos dos seres humanos. Sobre o ciúme, como já o dissemos, muito já se falou, mas quem melhor o definiu foi o poeta e cancioneiro Luiz Vieira: "É o medo de que o que é nosso possa ser de outros também". Aliás, definição mais clara do que qualquer tratado de psicologia. Quanto à inveja, o candomblé e os afros curam-na melhor que a psicanálise. Para nossos orixás, a inveja é causa de todos os males, dos maus-olhados, o olho gordo, uma terrível nódoa que paira sobre a humanidade como uma nuvem.
          Mas, e a mágoa? Quase ninguém fala dela. Trata-se de ressentimento de alguém que foi traído na sua ingenuidade de ser bom. Ou alguém que se equivocou com o mundo, com as pessoas, com a vida, com os sonhos. Por isso, dói como estiletada fina, penetrante, crônica no fundo do ser.
          Igual à inveja e ao ciúme, a mágoa impede o crescimento, porém difere deles por trazer dentro de si o gosto amargo, a amargura, o desencanto, quase o desespero. A mágoa perece-se com aquelas crônicas de Antônio Maria ao perder Danusa Leão para Samuel Wainer, misturando-se com a raiva do ciúme e da inveja "ver aquele homem passeando de chambre e com o cachimbo na boca”, ao lado de seu ex-amor. A mágoa de ter sido abandonado por Danusa, a irmã de Nara Leão, levou Antônio Maria, literalmente, à falência do coração, ao infarto. Esse sentimento é assim – corrosivo, lesivo, destruidor, desintegrativo.
         A mágoa é vivenciada como desgosto, tão profundo que torna o indivíduo incapaz ou pouco capaz de reencontrar-se consigo. Quantas pessoas não carregam dentro de si uma mágoa perpétua de alguém em quem muito confiou?
Quantas mulheres não desenvolvem Distúrbios de Pânico, na idade adulta, após terem guardado sigilo, durante anos, de abuso sexual na idade infantil? Quantas crianças não se tornam revoltadas, insatisfeitas, rancorosas, por possuírem a mágoa de se sentirem enganadas pelos pais por longos períodos?
        O magoado sente-se pisado, ferido, ofendido, carregando em si grande nódoa, enorme mancha, intensa ferida aberta. A mágoa é uma ferida que nunca cicatrizou.
Há mágoas objetivas e subjetivas. As primeiras são fruto da realidade: do amigo a quem se ajudou nas horas difíceis e depois não se recebeu o retorno; do homem ao qual se entregou de corpo e alma e foi abandonada; do irmão de quem se esperava um gesto magnânimo nas agruras financeiras; enfim, fatos concretos na história, na biografia cotidiana da desconsideração.
       A mágoa subjetiva é fantasmagórica, inventada, criada a partir de uma pessoa que não soube pautar bem sua vida e joga a culpa nos outros pelo fracasso. São os que se julgam irremediavelmente perdidos, incapazes de ir à luta e recomeçarem do zero. Nestes, a mágoa é a expressão de quem não tem a humildade de se enxergar no espelho, de encarar o próprio aspecto. Aqui, a mágoa está mais próxima da inveja do bem-sucedido.
       O grande problema da mágoa são as reminiscências, as lembranças traumáticas do passado estrangulando o caminho do futuro. Elas impedem o magoado de acreditar de novo na possibilidade de sorrir, sem correr, de novo, o risco de ser enganado, lesado, machucado.
       Nesse ponto, a mágoa se aproxima do ciúme pelas desconfianças perenes, contínuas,  da lealdade do outro. O ciumento tem receio de perder para o outro o que é seu. O magoado não se arrisca mais a amar de peito aberto, confiar integralmente, como se fizesse a profilaxia do desencanto.
      Ela é parenta próxima da incapacidade de perdoar. De 'passar uma borracha' no passado. De virar a página da história. E se amar é capacidade de perdoar e se não há amor sem perdão, como queria Vinícius de Morais, o magoado é um incapaz, um deficiente amoroso, um deficitário em futuras mudanças da vida.
      Incapacidade de amar, por se sentir magoado, é sinônimo de raiva misturada à culpa de si mesmo. Somos, nesses casos, como um carro enguiçado na estrada da vida. Se alguém passar a ajudar a desenguiçar o carro, vá com ele. E quem sabe, deve haver em você, além do lado ruim e sofrido, coisas boas. Garantimos que com duas ou três desilusões na vida atinge-se o que os americanos chamam de "steady-state" – o estado de equilíbrio.
      Do contrário, sua mágoa será um reservatório. Uma fonte que nunca secará. E você a destilará gota a gota em pessoas que nada têm a ver com o seu passado.





Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 12/01/2006
Código do texto: T97921
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
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