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“A Prostituta Respeitosa”

         
                         

                                                                              Maurilton Morais(*)


A primeira profissão do mundo andou perambulando pelos jornais, pelas “senzalas” e “ilhas da fantasia” em Natal. Recordei de um encontro. E entre tantos, havia um íntimo amigo catedrático, vários livros publicados, tão grandioso em seu saber quanto no seu senso de humor. Aconchegou-se, vejam só, por rotas do destino, ao mestre, linda morena ,com lentes de contato verde. Esgueirou-se de tal forma que só no momento em que pediu um cigarro ao professor, sua silhueta encantou a todos.
O psiquiatra disse não fumar, mas lhe arranjaria um. Não satisfeita solicitou um isqueiro e de novo foi atendida. Relatou só estar naquela vida por necessidade de concluir seu curso de História na Universidade de Brasília. O mestre, num lampejo, onde se misturavam o profano e o sagrado, lamentou não poder satisfazer seu desejo de fazer um “programa” naquela maravilhosa noite, pois pertencia a “PASTORAL DA IGREJA DE COMBATE A PROSTITUIÇÃO” como padre coordenador. Foi quando as primeiras lágrimas escorram pelos cantos dos olhos, como se estivessem pedindo perdão.
Meu amigo tratou de consolá-la. Disse-lhe que desde a antiga Mesopotânia, só havia prostitutas porque havia procura. Que a prostituição existia até na Bíblia como um mal menor (São Paulo) e S. Tomaz de Aquino a via “como a cloaca de um palácio, a fim de evitar o adultério”.Mas as lágrimas ainda jorravam de seus olhos. Relatou a peça teatral de Sartre “La Putain Respectueuse”, quando Lizzie, a prostituta, por questões raciais se comportou da forma mais digna possível. Falou-lhe das conselheiras cortesãs francesas que se casavam com nobres e também da benção concedida a Imperia Cognata, a mais célebre cortesã renascentista, pelo papa Júlio II, em seu leito de morte. Como estudante de História, tudo isto já bastava para estancar as lágrimas de Lúcia e volver-lhe a dignidade da “Prostituta Respeitosa”. Mas que nada, pediu até para rezar o Padre Nosso e as três Ave-Marias iniciais do terço que o psiquiatra-falso-padre, agnóstico,  obviamente nunca o  teria.
Pelo início da madrugada, perguntou a Lúcia qual a maior amiga de Jesus na Galiléia. De pronto respondeu; “Maria Madalena”. O enciclopédico psiquiatra arrematou: ”Pois ela foi a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitar e ao perguntar a  Cristo se poderia abraçá-lo, este respondeu que ainda não era a hora”. O nobre colega pagou os goles de vinho tinto que haviam bebido, segurou-a delicadamente pelo braço e num ato de caridade cristã, levou-a no primeiro táxi ao seu apartamento. Foi quando Lúcia sorriu e sentiu-se sem pecado e sem culpa. As lágrimas de crocodilo secaram.Afinal, as prostitutas constituem-se no maior depositário de segredos masculinos. Guardam mais segredos que os psiquiatras e os padres.  
 
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Maurilton Morais
Enviado por Maurilton Morais em 15/01/2006
Código do texto: T99102
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Sobre o autor
Maurilton Morais
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 69 anos
34 textos (32112 leituras)
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Maurilton Morais