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Mendigos

“Sentado na cadeira da lanchonete de minha cidade, a 170 km da capital paulista, prestava atenção no noticiário, que comunicava sobre as mortes de mendigos na Praça da Sé, enquanto saboreava aquele gorduroso cheese salada bacon...”

Logo que retornei de um passeio a São Paulo, onde estive nos dias 21 e 22 de agosto deste ano, tomei conhecimento que começara, dois dias antes do dia 21, aquele que seria o primeiro de uma série de atentados a mendigos nas ruas de São Paulo. Mas os atos cruéis e selvagens, cheios de revolta, provavelmente protagonizados por burgueses de classe média, não se concentraram somente na capital. No dia 26, quase uma semana após o inícios das brutalidades em São Paulo, o “Diário de Pernambuco” também noticiava a morte de dois pedintes que dormiam na obra de uma estação do metrô, em Jaboatão. Os casos foram se repetindo, e assim como os demais assassinatos, roubos, seqüestros, foram invadindo o cotidiano do brasileiro, até que tive o desprazer de escutar a seguinte frase, há cerca de duas semanas: “Eu quero mesmo é que toda essa cambada de mendigos vão pro inferno, têm que morrer mesmo... vagabundos, bêbados, que só prestam para denegrir a imagem do nosso país...”.
Deus! Como pode? Tive vontade de chorar, de correr, de me desligar do mundo naquela maldita hora em que entrei no boteco e escutei essa frase. O autor da pérola citada estava mais bêbado que qualquer mendigo da cidade, eu garanto. Não parava de falar abobrinha um só minuto, e o japonês, dono do bar, limitava-se a balançar a cabeça, como se concordando com tudo, para não discordar do idiota.
Ontem pela manhã, tive novamente o desprazer de encontrar com aquele cidadão, bem sucedido na área de medicina ortomolecular, no mesmo local. Fazia cerca de cinco ou dez minutos que eu estava no balcão, e o homem-sério-e-inteligente entrou, com ar de cansado de quem trabalhou o dia anterior todo assinando receituários de suplementos vitamínicos, e agora teria que tomar seu posto novamente. Talvez ele estivesse mesmo tão cansado como o pobre pai de família, que há três horas já estava em meio a um canavial, com a foice na mão, cheio de blusas, com o chapéu encharcado de suor, trabalhando para que o açúcar que o doutorzinho acabara de pedir ao japonês, nunca faltasse em sua mesa.
Fiquei olhando o homem tomar seu café, namorando aquelas salsichas em conserva, com cebola e pimentão. Depois que saísse daquele bar, após saborear duas salsichas com pãozinho francês bem quentinho, ele teria novamente que dirigir seu carrinho, não muito popular, até o consultório em que atenderia o povão, durante todo o dia, cobrando cerca de setenta reais por cada assinatura e carimbo, em um papel cheio de garranchos.
Enquanto isso, em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sorocaba (SP), Belo Horizonte (MG) e em todo o território brasileiro, pra não dizer no mundo, centenas de milhões de excluídos, estariam sendo espancados, xingados, apedrejados, por pessoas como o Doutor.
Entristeço-me ao sentar-se à mesa, com o prato entupido de comida, sabendo que ali mesmo, na avenida de cima, existe alguém que há dias, semanas, ou até meses, sem saber o que é um prato de arroz, feijão e ovo frito.
Porém, entristeço-me mais ainda, ao escutar certas frases. Talvez, se ele não tivesse nascido em berço de ouro, como nasceu, se não tivesse tido a oportunidade de um estudo excelente, como teve, se não tivesse tido condições de ter essa vida que leva, quem sabe não teria essa brilhante opinião. Quem sabe se ele não tivesse aquele terno Calvin Klein, aquela gravata alinhadíssima, e as dezenas de roupas finas e agasalhos, talvez ele entenderia a lástima de um sem-teto, com fome, com frio, e não abriria a boca pra dizer asneiras como essas. Mas o que mais me deixa chateado, é o fato de saber que esse homem é apenas mais um a pensar dessa forma. Claro que, apesar de existirem albergues em grandes cidades, destinados justamente a acolher esses desabrigados, muitos deles, ou a maioria, não ficam alojados. Isso pode ter vários motivos. Talvez maus tratos, talvez brigas, talvez falta de vontade mesmo. Mas também há cidades lotadas de mendigos, onde não existem lugares como esses. Segundo as estatísticas, os principais motivos que levam um homem a morar nas ruas, são os vícios em álcool ou drogas, separações e divórcios, maus tratos por parte dos familiares, e desemprego, ou seja, falta de condição para manter um lar decente, por mais humilde que seja.
Existem também casos de pessoas portadores de doenças mentais e / ou físicos que  muitas vezes vão parar nas ruas devido a preconceitos ou violência sofridos em casa, ou em abrigos. Costumamos nos desviar de pessoas nas calçadas, jogadas aos ratos, debaixo de chuva e sol, e muitas vezes negamos aqueles poucos centavos, que tanto incomodam no bolso de nossas roupas confortáveis. Depois, muitas vezes, jogamos esses centavos em qualquer lugar de nosso aconchegante lar.
Mendigos - Continuação
CONTINUAÇÃO...: (...) Tudo bem! Eu mesmo já me neguei a dar dinheiro a mendigos, deduzindo que eles iriam beber ou se drogar. Hoje costumo agir de forma diferente. Se algum pobre me pede uma esmola, olho em volta e busco por alguma lanchonete ou bar. Se tiver, compro algum salgado ou lanche e dou ao pedinte. Se não tiver nenhum estabelecimento do gênero por perto, dou mesmo assim. Aí fica a critério dele. Minha parte eu fiz.
Um bom momento pra refletir sobre a situação dessas pessoas é quando estamos em casa, com nossa família. Pense nas famílias que moram embaixo de viadutos, em barracos na beira de estrada ou rio, sujeitos a todos tipos de perigo e humilhações. Ou senhores e senhoras, que dormem em marquises, vielas, ruas escuras, portas de comércios, onde pela manhã são chutados, como se fossem animais peçonhentos. Isso se durante o sono, não acordam (quando dá tempo de acordar), com tiros, pauladas ou chutes na cabeça. Ou então, serem queimados vivos, como no caso do Índio Pataxó, que foi “confundido” com um mendigo, em Brasília, por jovens filhinhos de papais. Isso pra não falar das crianças, que não têm alternativas a não ser bater nos vidros dos carros parados nos semáforos, ou virar trombadinhas, para mais tarde, se não morrer antes, ser mais um seqüestrador, assassino ou traficante.
Realmente nós, cidadãos, não podemos mudar essa triste realidade de nosso país. Mas ao menos podemos colaborar. Nem que seja com um agasalho, um trocado, ou até mesmo, um simples abraço ou prosa, como eu fiz com um mendigo de minha cidade, que ao ser abraçado, chorou como criança e teve a humildade de pedir desculpas por me causar vergonha perante as demais pessoas.
A poeira abaixou e o caso dos mendigos espancados até a morte parece ter sido abafado, o que já é de praxe no Brasil. Mesmo depois, pasmem, da prisão de dois policiais militares e um segurança particular, como principais suspeitos de alguns dos casos. Feliz Natal a todos os “excluídos da Linda e Medíocre Sociedade Brasileira”.

F. Pinéccio
06/12/2004

Jornais
Nenhum de Nós

Quantos filhos esperaram a chegada de seus pais
Tantos deles não vieram Não chegaram nunca
A calçada não é casa, não é lar Não é nada
Nada mais do que um caminho que se passa
Tão estranho pra quem fica... pra quem fica
As palavras no asfalto, nessa vida são tão duras
O carinho não consola mas apenas alivia
A calçada não é cama Não é berço Não é nada
Nada mais nos faz humanos sem afeto
E o medo é um abraço tão distante de quem fica


Onde vai? Nós estamos de passagem
Onde vai? Onde a rua nos abriga
Onde vai? Estamos sempre de partida
Onde vai? Onde a rua nos abriga desse frio

As pessoas que se enrolam nos jornais não são mais notícia
Elas não esperam de um papel de duas cores mais que um pouco de calor
A calçada não é pai Não é mãe Não é nada
Nada mais do que um abrigo, um refúgio
Tão estranho pra quem passa... Pra quem passa

Pinnas
Enviado por Pinnas em 15/01/2006
Código do texto: T99199

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Sobre o autor
Pinnas
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