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FILA DOS IDOSOS, A GRANDE CONQUISTA DO SEXAGENÁRIO

É maravilhoso percebermos que direitos e deveres começam a se interagir, proporcionando o tão reclamado respeito pelo cidadão.No rol das conquistas nunca podemos esquecer a chamada “ FILA DOS IDOSOS”, bendita a cabeça iluminada de quem, em raro momento de inspiração, bolou uma pequena, porém importante medida para facilitar os mais velhos.

Já se tornou cotidiano chegarmos nos bancos e vermos uma caixa exclusiva para os nossos queridos velhinhos.É realmente uma cena que comove aos mais insensíveis dos homens.Por exemplo, os cinco primeiros dias úteis de cada mês são destinados aos pagamentos dos benefícios do INSS.No dia quatro de abril de 2005, segundo dia útil, estive no banco Itaú para pegar o meu dindim.Claro,fiquei na fila dos sarados, jovens e saudáveis,onde havia cerca de cem pessoas aliás,que banco irritante.Na dos idosos, cerca de dez pessoas.

Que diferença...

Eu olhava e ficava com inveja.Refletia se era melhor ser jovem e demorar numa fila ou ser uma pessoa idosa merecendo tratamento diferenciado.Mal ou bem a minha fila ia andando, e quando demorava , o gerente dava um “empurrão”...Quando eu cheguei, naturalmente, fiquei no final.Posteriormente já estava no meio, até chegar ao caixa.

Eu fixei o olhar para a pequena e privilegiada fila, observando bem uma velhinha sendo atendida por uma mocinha.A velhinha, possivelmente bem mais velha do que o falecido e saudoso Papa, entregou o cartão magnético cuidadosamente embrulhado em um lencinho com bordados do Ceará.Começou então um rápido diálogo:

-Vovó, digita a senha...

-Moça, eu nunca fui e nem quero ser sua avó...

-Perdão, a senhora poderia por gentileza digitar a sua senha de seis números?

-Claro que posso, mas quais são os números?

-A senhora é que tem que saber...

-Lembrei agora, é a data de nascimento do meu décimo primeiro neto.Aliás, é o grande orgulho da família, saiu da prisão por bom comportamento.

-Então está resolvido, pode digitar.

-Espera aí, não me lembro se é o dia do nascimento do Bil ou do Severino.Espera um pouquinho que eu vou ligar para o meu filho.

Pegou o celular, olhou, olhou, olhou e não teclou.Entregou o aparelho à mocinha e pediu que ela fizesse a ligação, uma vez que ela estava sem os óculos.A mocinha gentilmente pegou o aparelho e perguntou o número.A velhinha disse que estava anotado em uma agenda perfumada que ganhara de presente do grande Ruy Barbosa, e começou a vasculhar a bolsa.Havia pedaço de papel higiênico, remédios para a pressão, uma caixa de Lexotan, algumas notas de um Real, níqueis, fotografia do Getúlio Vargas, foto autografada da Carmem Miranda, etc. A minha fila andava bem rapidinho, a dos idosos só aumentava.Os demais sexagenários não agüentaram e fizeram um coro:

-         Olha a hora, bota a vovó pra fora...

Como estava nervosa, errou na primeira e na segunda digitação, a moça da caixa entrou em pânico.Após muito tumulto a tal da senha foi digitada.A galera do cabelo branco não agüentou de emoção e cantou bem alto a música que foi a marca da vinda do Papa ao Brasil:

- Abenção João de Deus...

Bem, a paciente funcionária do banco entregou o dinheiro a vovó.Todos pensavam que o drama havia terminado.A dinâmica pensionista não saiu do lugar, começou a contar o dinheiro.Eram exatamente duzentos e trinta e nove e Reais e trinta e oito centavos.Acabou de contar e gritou com a moça do caixa:

-Eu sou um pouco idosa, mas não sou burra, faltam dois centavos.É assim que vocês ficam ricos, pode passar o meu dinheirinho...

Um sexagenário, pingucinho de carteira assinada, que estava na fila gritou:

-         Eu pago, manda ela ir embora que a minha cerveja está esquentando no bar do portuga ali em frente...

Mas não precisou, tudo foi resolvido da maneira mais pacífica.

A simpática idosa, então, já se preparava para sair quando lembrou de um detalhe super importante; Tinha que pagar a conta de luz.A AMPLA não perdoa, corta.Com a Ampla não tem nada de direitos e deveres, são só deveres para os consumidores.

-Mocinha simpática, me lembrei que tenho que pagar a luz.

-Apagar por que,vai cantar parabéns?

-Eu disse pagar,infeliz, não disse apagar...

-Desculpe,mas senhora, a fila já esta com quase cinqüenta pessoas, já ouvi até referências à minha querida mãezinha...

-E a culpa é minha?Vai procurar um homem, o seu caso é falta de marido.

-Realmente, minha senhora, a culpa é minha, eu é que sou lenta, muito lenta, por isso o gerente me colocou aqui, eu já fui demitida de uns cinco bancos e já entrei na justiça do trabalho umas onze vezes.Poderia me passar a conta?

-Espera aí, está lá no fundo da bolsa.E me respeita porque hoje o estatuto do idoso me garante.Boto você em cana igual a Nazaret Tedesco,aquela que seqüestrou a Isabel, filha da Do Carmo...

Quinze minutos depois a conta é encontrada.Ela a entrega e dá o dinheiro, o valor era de dezoito Reais e vinte e nove centavos.Ela começou a contar o dinheiro e o segundo da fila, com uma surrada camisa do Fluminense, que estava esperando há uma hora e quarenta minutos, gritou:

 -Deixa que eu pago, essa conta é comigo, vai com Deus gloriosa pensionista...

A simpática idosa logo retrucou:

-Por que, para todo mundo achar que você está me pegando? Olha, seu velho tarado, depois que fiquei viúva nunca mais tive qualquer tipo de relação carnal, se sentir necessidade vou procurar é um garotão, quem dá boa vida para velhinho é o Sérgio Cabral.Vê se se enxerga, não me troco por nenhuma mocinha de 21 anos.Eu sou a Margot, fonte de inspiração para homenagens de muitos adolescentes na década de 30.

Eu já era a segunda pessoa da fila dos mais jovens, quando vi que finalmente a idosa, amada e gloriosa vovozinha terminara, sob calorosos aplausos, todas as suas operações bancárias.

Nesse exato momento, um caixa grita:- O próximo. Eu, então, entreguei o que tinha para pagar, dei o dinheiro, recebi o troco e quando ia embora vi uma imensa confusão no banco.Jogavam cadeiras para o alto, chutavam bundas, quebravam cartões magnéticos, empurraram o vigilante contra a maldita porta giratória, arrancaram meu óculos escuro que paguei dez Reais, um senhor estava tão nervoso que não parava de soltar uns punzinhos, etc. No desespero, corri para dentro da sala da gerência.Ora se era um assalto, primeiro eu.Na minha concepção o banco estava completamente dominado.Mas não era.Graças ao bom Deus, não era um assalto.Pelo circuito interno de TV vi que os 156 idosos que mofavam na fila há mais de três horas, caíram de porrada na velhinha quando ela disse que ainda faltava pagar a conta do telefone.

Ah,só para concluir, na outra fila- a maior que existe em qualquer banco,todos já haviam sido atendidos e já tinham ido embora  e somente saberão desta ocorrência se você  que leu, contar.

REFLEXÃO:

POR QUE UMA FILA BEM MAIOR ANDA MUITO MAIS RÁPIDA?

Procurei de uma maneira mais alegre contar o drama dos sexagenários que sofrem nas filas dos bancos – todos os bancos.Claro que não aconteceu essa comédia,mas que alguma coisa deve ser feita, deve.A verdade é que a fila dos idosos é super demorada e extremamente sacrificante para pessoas que já passaram dos 65 anos de idade.Parece que colocam no caixa o empregado que menos produz, como se fosse um castigo.Quando o gerente se limita simplesmente a colocar uma caixa específica para o idoso,está apenas cumprindo a lei por cumprir,cumprindo-a da maneira mais fria e insensível.

Idosos devem ser respeitados.Falo com bastante propriedade porque tenho meu pai que completa 80 anos em maio e minha mãe que já se aproxima dos 75 anos.

Criar fila para idosos sem um acompanhamento de atendimento e cronometragem,sem interesse real de oferecer condições de respeito é , no mínimo esquecer que um dia , esses que estão gerindo,chegarão a mesma condição.

Será?
Enorê Rodrigues
Enviado por Enorê Rodrigues em 17/01/2006
Código do texto: T99876
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Sobre o autor
Enorê Rodrigues
Maricá - Rio de Janeiro - Brasil, 67 anos
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Enorê Rodrigues