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Nós

       Às vezes paro para reparar no modo como as pessoas vivem. As vejo passar pelas ruas todos os dias, todas tão apressadas, perdidas em seus problemas e tribulações... Tenho pena do modo como vivem e se deixam manipular. Todas tão fascinadas pelas transformações do mundo, pelo que vêem na tv. O objeto e o material tomam o lugar que um dia pertenceu a seres humanos de carne, osso e sentimentos. Virar o rosto pro menor melequento que vende balas no sinal ou faz uns malabarismos meio sem jeito pedindo “uma ajudinha, por favor” é muito fácil e cômodo, mas mexer seus traseiros preguiçosos para sair da frente da televisão e fazer algo por ele não dá. “Não tenho tempo”, você diz.
        É realmente muito cômodo não fazer nada. Estar aqui sentada na frente do meu computador falando mal de você é muito cômodo. Não pense que eu sou uma ativista social, defensora de menores abandonados ou algo assim. Sou bancada pelo meu pai, tenho 18 anos e nunca trabalhei na vida. Faço parte de uma nova geração que acha que trabalho é para bancar balada. “Estamos no mundo a passeio”. Não nos envolvemos com política, não defendemos causas sociais, não perdemos tempo nos metendo com os que morrem de fome na África ou com os desabrigados pelos furacões. “Azar o deles”. Não nos importamos com os outros. Somos vazios, somos mesquinhos, somos vaidosos demais para olhar além de nossos umbigos. Temos tudo aquilo que o salário de nossos pais pode nos oferecer, e eles ficam chocados com nossa falta de interesse pelo mundo, com nossa apatia perante a vida. Estamos cagando para tudo, mas queremos tudo: dinheiro, amor, felicidade.“Nos deixem quietos em nossa mesquinhez”.
        Se um dia tivermos que trabalhar, estaremos todos fudidos, pois não sabemos o valor do dinheiro e nem como é difícil consegui-lo, apenas sabemos que é uma porra estar sem ele, porque, nos dias de hoje, quem tem dinheiro tem tudo. Com dinheiro você compra uma casa, compra educação, carros, roupas, amigos, mulheres, saúde e até mesmo amor. Falso, mas amor. As relações de hoje são tão ocas quanto nossos corações. Fingimos o tempo todo, até para nós mesmos. A realidade tem um gosto amargo para nós, e por trás de nossos óculos escuros e das fumaças de nossos cigarros todo o mundo parece mais bonito.
Fingimos porque tentamos ocultar nossas próprias dores. Viver de verdade dói, mas somos tão fracos que nem isso agüentamos encarar, e daí fingir e ocultar de torna essencial para sobrevivermos. Nossa espécie continua sobrevivendo, e se multiplica, cada vez mais requintada e cruel.
Na verdade possuímos um grande vazio em nosso interior. Tentamos preenchê-lo com futilidades,com roupas, com moda,com passeios, filmes,livros,teatro; com bebida, diversão e festas,mas nada disso aplaca o Vazio.
        Somos podres,essa é bem a verdade.
        Às vezes, às dez da manhã já estamos à toa,gastando o suado salário de nossos pais para encher a cara e ver se assim “a coisa melhora”, mas o efeito do álcool não é eterno, de modo que deveríamos encher a cara todo santo dia para esquecer todos os nossos fúteis problemas. Fúteis sim, pois não nos preocupamos com as grandes questões humanas, pra onde vamos, qual o objetivo da vida, se Deus existe ou não. Por que para nós, se Deus existe ele é bem babaca, pois nos faz sofrer todo dia com umas merdas que nós enlouquecem. Sim, somos todos ocos e doidos. Se fosse o amor, ah, o amor, estaríamos bem. Sofrer por amor soa bonito, mas já fomos tão machucados, abandonados e preteridos em nome do Amor que nos tornamos imunes ao sentimento. Daí nos tormanos meros merdinhas, que transam sem amor, que beijam sem sentimento, que fodem por foder.Máquinas.
         O mesmo vale para os outros, que às vezes se tornam tão ocos quanto nós, mas guiados por outros motivos. Ficam tão abobalhados que o mundo ao redor que se deixam levar por seus atrativos. Às vezes desejamos possuir sua inocência, porque o que nos mata é que sabemos de tudo. Somos fodões: lemos, nos informamos, temos acesso a todo tipo de informação, lícita ou não. As pessoas ao nosso redor são completamente alienadas pela tv, pelo rádio, pela propaganda. Ficam bestificados pelos comerciais, pelos clipes, pelo novo aparelho multi uso, "nova versão mais rápida", tudo mais veloz.
         Depois de ler isso você deve estar chocado, com medo que suas crias virem criaturas como nós. Acredite, fomos crianças normais. A questão é que chega uma hora em que vemos que fingir é mais cômodo, e que fazer o papel de bobinho é divertido. Rimos pelas costas dos outros, para nós isso é hilário. Mas voltando ao assunto, fomos crianças hiper normais. Comuns. Banais até. Não há como evitar que seus filhos descubram a Verdade, ela está em todo lugar, em toda parte. Não adianta escondê-los da Verdade, porque ela sempre os alcança. Eu mesma nunca precisei dar a cara à tapa para descobrir como tudo funciona, e acredite, quando se é escolhido, não há como fugir. Nunca precisei de madrugadas e vícios para ficar assim. Sou a querida da casa, orgulho dos pais, mas mesmo assim ajo dessa forma.Finjo, engano, disfarço.
         Manter seus filhos numa bolha não funciona. Gera o efeito inverso do esperado: eles podem ficar revoltados por serem super protegidos e por você ser um babaca. Sim, porque por mais legal que você seja, sempre vai haver uma hora em que vamos te achar um babaca. Um pré-requisito para ser um de nós é achar os outros babacas. No fim das contas, quase todos os outros são babacas, porque nós, ah, nós sim somos os fodões. Temos mais conhecimento, não somos tão mesquinhos, não somos alienados, não somos banais. O resto, o resto que se lasque, nós somos os que realmente importam, a grande classe de excluídos de luxo, os grandes mestres desvalorizados, o lixo social abençoado. Nós temos a Verdade e o Vazio. O resto é o resto.
JaquelineS
Enviado por JaquelineS em 25/01/2006
Reeditado em 04/07/2006
Código do texto: T103853
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Sobre a autora
JaquelineS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 29 anos
31 textos (2577 leituras)
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