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NÃO FOI ESSE O BRASIL PROMETIDO

Subi morros, atravessei quebradas, andei pelas ruas de terra batida, pisei no asfalto do Centro, caminhei sempre contra o vento, com documento na mão e a polícia no pé.

Atravessei a idade bruta de trevas, silêncio, amarras, mortes e torturas nos porões. Na Brasilândia dormia e zoava nos fins semana e pouca sabia do que acontecia no Brasil.

O lance era baile nos finais de semana é só, depois vieram outras ondas: acampar, drogas e sexo - praias, estradas, caronas e toda a zueira off-road atrasada em décadas.

Na perifa braba onde vivia quase sempre tinha cadáver nas esquinas e tiros na noite e muito fumo e bola e nos campinhos de terra onde se misturavam malucos e malandros.

Vivia de salário de boy, matando troco de condução, pulando por trás, passando por baixo da roleta. Defendia o do final de semana, do cinema, baile e namoro no portão.

Arrimo de família e com pretensão de estudo, tomei gosto pela subversão. Ser do contra, governo e patrão. Estar nas passeatas foi um pulo só na luta anti-repressão.

Abaixo a ditadura! Pela Anistia! Tudo era farra, alegria juvenil e, sem saber, também atos de coragem, adrenalina pura e rebeldia. Queria tudo mudar, já, naquela exata hora.

Tempo bom futuro. Achava eu que mudar era só vontade. Acreditava na possibilidade de melhorar o mundo para os “debaixo”, num Brasil diferente do de ontem pra logo.

E veio abertura, indiretas, Tancredo e Sarney, diretas, Collor e Itamar, FHC e espera. Por fim a esperança primeira Lula! Era a sua vez. Sonho juvenil. Hora do novo Brasil.

Mas qual o quê. O que sei viu nem sei, tudo igual como sempre foi, compra de voto agora por mês, viagens, gosto burguês. A políticanalha e as velhas sacanagens de novo.

Sonho do operário como agente da mudança, velha herança do esquerdismo juvenil mostrou-se inócuo. Engano. Brasil é sempre assim: tudo muda pra ser sempre desigual.

E tome propaganda, avalanche de auto-elogios. O País é o tal, pagou tudo ao FMI. Que reforma agrária que nada, que qualidade na educação. Agora é superávit primário e só.

Pra quem acredita nesse resultado, que é esse o Brasil que merecemos, tudo bem. Pra mim não: Esse não é mais “aquele” que me fez chorar num comício, anos 70, início de tudo.

Não sou mudo, não sou cego. Nego-me a entregar os pontos, Não creio nesse Brasil de hoje, na política do possível; que errou só o partido. Nesse papo gaiato não caio não.

O meu sangue se esvai na rua do desengano e do ceticismo com tanto cinismo, injúria e desculpa esfarrapada, com o silêncio nos meios estudantil e operário. Que raio acontece?
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 01/03/2006
Reeditado em 02/03/2006
Código do texto: T117404

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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