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SONHAR NO BRASIL PODE DAR EM PESADELO

Todo mundo teve 18 anos um dia (ou terá) e sonhou futuro. Eu também sonhei e o fiz junto com muita gente. O pior: naquela época diziam que sonhar junto já era realidade...

Eu queria coisas que achava possíveis: Respirar ar puro, mesmo morando em São Paulo; se auto-gerir, ser autônomo, sem patrão; comer pão sem bromato e verdura sem agrotóxico; beber água pura, ver o Tietê despoluído e o Brasil evoluído politicamente, civilizado; ter lazer e arte em abundância; menos domínio estrangeiro e cultura enlatada, padronizada, filtrada pela Rede Globo... entre outras coisas “simples”.

Mas, como atravessar o abismo da ignorância e do “emburrecimento” da época, se havia somente uma mera corda estendida entre os extremos?
- A luta política era o caminho possível. Lutar já para garantir o futuro.

Malabarista da vida, juro que tentei a travessia. De profissão esperança, como todo brasileiro de então, fui à luta do meu jeito: Engajei-me politicamente, fiz manifestos, li muito, escrevi poesia; fui às ruas, à periferia; vesti bandeiras e dei bobeira. Acreditei na política de esquerda e em líderes messiânicos - e hoje sei todos os enganos possíveis que isso acarreta. Cai na esparrela, na busca de concretizar ideais que muitos brasileiros acreditaram, enfim.

Mas tudo era raso, pequeno, nada que atravessasse o pântano político deste Brasil de políticos sem dó do povo, que pisa no novo, abraça sempre o arcaico e ressuscita o insepulto, a velha política dos coronéis e dos cartéis.

Hoje, 9 de julho de 2006, pouco depois de completar 52 anos de idade, me toquei: Acho que não soube sonhar, que sonhei o sonho errado. Ou melhor: Acho que fui enganado. Sonhavam eles diferentes coisas e nem me avisaram.

Eu sei que todo mundo têm um sonho recorrente: Chegar do lado da maré-mansa e então se encher de calma, livre da condição de assalariado/ desempregado, de capataz diplomado ou de empresário aterrorizado com a taxa de juros e a volta da inflação. E mais: sem governo corrupto, de juiz ladrão e até poder torcer por uma seleção de futebol guerreira... Mas, qual o quê. Aí já é querer demais.

Hoje só me restou atitude: Zerar a esperança e não embarcara mais em sonhos alheios.
Célio Pires de Araujo
Enviado por Célio Pires de Araujo em 14/07/2006
Reeditado em 17/07/2006
Código do texto: T193845

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Sobre o autor
Célio Pires de Araujo
São Paulo - São Paulo - Brasil
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