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Escatus Logicus

Calem-se, vozes afoitas que atormentam meus pesadelos. Calem-se, já disse! Não preocupem-se. Estou aqui, serei a atração que tanto procuram. Zombem, pois! Zombem o quanto quiserem. Estou aqui. Para isso?

Então que gritem, vozes! Gritem o que suas gargantas preconceituosas não têm costume de falar na frente dos outros; o penico aqui lhes aguarda, acolherá seus discursos inflamados e idiotas. Suas cabeças vazias e idiotas. Seus olhos perfuradores e idiotas. Mostrem suas razões, seus valores! Seus preceitos, suas preces, suas filosofias! Digam, gritem, explodam, mostrem as cartas, joguem. Em caso de emergência, vasos sanitários se encontram à frente.

Nada? Tanta gargalhada por nada? Mudos, enfim? Obedecem, então, à vaca amarela? Ou seria vaca morena? Ruiva, listrada, que seja. O gado não é meu tópico; talvez penicos sejam meu tópico. Sim, certamente. Escrevo sobre penicos. Ou melhor, sobre penicos e sobre seu conteúdo, após um almoço indigesto.

Escatológico, pois não. Acontece que ninguém fala dos penicos. Penicos estão em desuso; muito melhor o vaso sanitário, moderno, tem botões, funções. Agora, penicos, esses são excluídos. Ri-se dos penicos. Ignora-se os penicos. Porém, o que passa pelos penicos, ah, isso é "legal", isso é moderno, isso é gíria. Quantos adolescentes nunca pronunciaram um sonoro "CONTEÚDO DE PENICO!!" depois de um jogo de futebol perdido ou um ficante que não liga depois de semanas?

Ah, adolescentes podres, fúteis. Há quem diga que o jovem não sabe a força que têm; eu, no entanto, no auge da minha pretensão adolescente, obviamente, contrario esta informação: Os jovens sabem a força que têm, mas a desvendam ainda mais eficientemente quando estão em grupos. Quantos animais não atacam em grupo? Poucos, os mais fortes, respondo a mim mesma.

Eu sou adolescente, mas não na frente de todo mundo. Me envergonho da força que tenho; nego, imediatamente, aquilo que conquisto. Pois a base da adolescência não é a aceitação, como dizem os mais positivos psicanalistas; é o sistema de escadaria, o pisar de cada degrau, de cada cabeça. E eu não quero pisar em cabeças; tampouco quero sofrer uma enxaqueca no fim do dia. O homem é só. O homem é si. O homem conquista aquilo que o outro perdeu; pois não há o que se ganha se ninguém perde.

Capitalismo à parte, volto aos penicos. Sim, voltemos aos penicos, que a esta altura já se mostram claros não-penicos; o penico é o homem. Mais uma vez, o homem, esse bendito e esdrúxulo homem. Porém, antes penico do que seu conteúdo; preciso, por acaso, explicar o porquê desta preferência? Claro que existem aqueles que não pensam assim, e fazem questão de serem verdadeiros "conteúdos de penico". Gosto não se comenta, se lamenta, já dizem os clichês.

Aliás, por que gastar linhas e dedos em verdades que já se provam verdadeiras? Por que expôr o que acho correto, se assim muitos pensam também? Por que escrever um texto quando mal compreendo-o? Ou, pior, compreendo sua intenção, mas somente eu. Ou não? Para que escrever sobre o nada? Mentira; escrevo sobre penicos, e assim vou continuar escrevendo. Por que eu deveria saber escrever sobre eles; eu quero fazer uma metáfora. Eu quero parecer dominar a escrita; eu quero digitar e falar o que penso sem pensar. Eu quero fazer comparações idiotas. Eu quero... já nem sei o que quero. Quero.

Não estou dando uma de Clarice; meus dedos não permitem. Só escreveria Clarice se fosse Zibia Gasparetto. E olhe lá.

Meu Deus, já falei até da Zibia Gasparetto. Deixa eu acabar isso.

E tudo começou, não de um "sim" para um outro "sim", porém do "?" para um "nunca". Eu acho (Agora, sim, estou imitando a Clarice; ou contrariando ela. Hahaha, pobre de mim, idiota revoltada com o mundo sem nem ao menos conhecê-lo; pobre de mim, que está longe de chegar perto [!!!] do penico da Clarice).

Estamos na era do nunca. É torcer para a era do "talvez" chegar em breve. Para sermos otimistas. Para não acertarmos nossa esperança com um fatal punhal, espada ou lança.

Mas revólver é mais prático. E rápido.

E danem-se os penicos. Já falei demais deles.

*Fecham-se as cortinas*
Clodí
Enviado por Clodí em 14/10/2005
Código do texto: T59621
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Sobre a autora
Clodí
São Paulo - São Paulo - Brasil
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