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DIÁLOGO ENTRE LITERATURA E ENSINO


Compreender a estrutura de funcionamento da Educação e a inter-relação existente entre os diversos elementos que a compõe, com destaque para a literatura, é dar um passo adiante em nosso processo evolutivo, desenvolvendo potencialidades e apropriando-se de uma importante ferramenta, algo extremamente útil em tempos de um processo educacional e cultural tão conturbado e cheio de possibilidades, muitas delas equivocadas.

Resgatamos aqui a proposição de que o ser humano é um sujeito histórico, emocional e racional dotado de saberes que antecedem e extrapolam a sua entrada e vivência no processo formal de ensino, promovendo constantes trocas de conhecimento com o mundo que o cerca.

A literatura por sua vez é costumeiramente relegada a planos inferiores e conta com raros abnegados que são apaixonados e conseguem transmitir essa paixão para os seus discentes, pois o excesso de formalidade e teorização rouba espaço do que deve ser a primeira cena no ato do aprendizado literário, o despertar da curiosidade, o encantamento, a capacidade de embriagar as emoções na comunicação, aqui tomada em seu sentido mais amplo, o semiótico, onde a linguagem e a leitura não são apenas da escrita, mas do desenho corporal em uma declamação, da entonação vocal, dos elementos cênicos em uma peça de teatro, etc.

Como em um namoro é necessário estabelecer o flerte com os nossos espectadores, tatuando em cada um pontos de interrogação e exclamação. Algumas instituições e colegas têm despertado para essa necessidade e com sacrifício tem conseguido um pouco de espaço. É necessário que lutemos para conquistar esse espaço e colaborar de forma profícua no processo de transformação cultural e educacional, é preciso que sejamos duros (tenazes) e constantes no nosso aprendizado e na transmissão dos conhecimentos. Como diria Guevara “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”.

Em ambos os casos, tanto quem se coloca na posição de aluno quanto quem ocupa a posição de professor, deve se estar apto a colaborar, cada um com sua parcela para que as expectativas e as necessidades possam ser supridas, através de uma construção que liberte o ser humano para ampliar as suas possibilidades, assumindo-se como maestro de sua história, de seu tempo (onde inúmeras responsabilidades e caminhos possíveis lhes são apresentados) os quais exigem um ser crítico, curioso e de posse de uma metodologia que propicie aplicar o conhecimento adquirido sobre a sua realidade de vida e daqueles que o cercam, caso totalmente aplicável quando tratamos de oficinas de literatura, cursos de declamação e interpretação textual.

A esta altura cabe-nos uma indagação acerca do quanto foi lido por gênios e grandes nomes da literatura mundial e nacional, tais como: Fernando Pessoa, Castro Alves, Martins Pena, Nelson Rodrigues, Manuel Bandeira, Malarmé, Roumbout, etc...

Nas palavras de Freire, “ensinar é algo tão profundo e dinâmico onde a questão da identidade cultural atinge a dimensão individual e a classe dos educandos, sendo essencial para a prática educativa progressista, exigindo uma solidariedade social e política que evita um ensino elitista e autoritário como o que tem caráter exclusivo do saber articulado”. Ora, basta ler a história para ver as grandes contribuições sociais e de ensino nas revoluções e transformações que o mundo sofreu, onde paira também um ar de romantismo para nós ao recordarmos ou imaginarmos as reuniões e discussões nos bares durante as madrugadas. Todavia, não nos enganemos quanto ao aparente distanciamento das leituras e falta de tempo para a dedicação ao aprendizado; além do indispensável espírito de solidariedade e luta por uma causa.

Somente com respeito à disciplina e liberdade criativa podemos reinventar formas aprendizagem que tragam prazer e espaço para a formação de novos leitores, escritores e declamadores. Não exigimos um novo João Cabral de Mello Neto, Um novo Manoel de Barros, mas uma nova safra e um novo espaço para os que aí estão, muitos com competência estética e capacidade produtiva, mas sem a garra e flutuação lingüística que lhe possibilite a aproximação com outras camadas e categorias sociais. A formação de um público leitor passa por um processo de apropriação do texto por parte do outro e difusão do mesmo para outras pessoas, comentando com gosto, com olhos marejados ou um sorriso no rosto que leve quem o veja a indagar o motivo e receber a resposta de que foi a apresentação X ou o texto Y.

Logo, não deve existir uma separação entre prática e teoria, entre saber e ignorância, entre respeito ao professor e respeito aos alunos, imprimindo verdadeiras mudanças na sociedade, por intermédio da execução de uma ética cidadã. Mas é necessário que além do respeito aos diversos saberes, que possamos estudar e escolher o caminho a ser trilhado e não viver um caminho por obrigação.

Buscando facilitar o processo, elencamos algumas colocações de Paulo Freire que talvez possam ser úteis.

v Rigor na aplicação de um método e de pesquisas;
v Aplicação ética dos conceitos estéticos, resgatando a esperança do ser humano frente às possibilidades que se lhe aparecem;
v O reconhecimento de um saber prévio e que deve ser considerado na busca de construção de um novo saber;
v A reflexão crítica da prática pedagógica, excluindo desse processo toda e qualquer forma de discriminação ou rejeição;
v Alimentar a esperança e alegria, elementos exclusivos do ser humano no processo de ensino aprendizagem;
v Saber dosar, equilibrar, o uso da liberdade e da autoridade, tendo a consciência de que somos seres inacabados e em constante evolução;
v Necessidade de saber distinguir o treinar, o ensinar e o educar;
v Necessidade de efetivar uma troca com liberdade de questionamentos; formando agentes de mudança e não um reprodutor de informações, exteriorizadas mecanicamente;
v O educador deve ser generoso e competente, o que requer esforço e moralidade.
O pensar exige exercício, não só de fórmulas matemáticas ou regras gramaticais. Improvise, promova discussões, aproveite situações simples para desenvolver o raciocínio e a reflexão, para promover a literatura.

Por falar em refletir , deixo-lhes minha vírgula em forma de pensamento.


QUANDO UM PÁSSARO FAZ CURVAS NO CÉU
ELE ENCURTA AS ESQUINAS DA TERRA.
QUANDO UM POETA FAZ CURVA NAS PALAVRAS
REINVENTA O CONHECIMENTO.
Ruberval Cunha
Enviado por Ruberval Cunha em 26/01/2006
Código do texto: T104121
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Sobre o autor
Ruberval Cunha
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 43 anos
76 textos (6653 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 11:43)
Ruberval Cunha