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Coerência Ética entre o Discurso e a Ação

"Faça o que digo, não faça o que faço". Você já deve ter ouvido essa frase em algum lugar, geralmente dita em tom de deboche. Ela é geralmente associada ao comportamento de personalidades autoritárias, que a emitem cìnicamente quando se vêem apanhadas em contradição. Podemos associá-la, por exemplo, ao que diz um político em público e o que faz nos bastidores (não estou generalizando, mas os atuais acontecimentos políticos, com seus "mensalões" e "caixas dois", tornam a lembrança irresistível). Mas ela tem conotações comportamentais mais profundas do que parece à primeira vista. Nem sempre esse comportamento é percebido pela própria pessoa, porque geralmente atribuimos os defeitos aos outros, nunca a nós mesmos. A prática da auto-crítica não é um comportamento usual no ser humano.

Num programa de televisão chamado "Café Filosófico" (TV Cultura de São Paulo, domingo, 22 horas), o filósofo Renato Janine Ribeiro contou-nos um caso exemplar acontecido com ele mesmo, onde se viu, involuntariamente, como um dos protagonistas dessa situação. Ele foi convidado a participar de um seminário sobre Direitos Humanos, onde se reuniriam personalidades ligadas a esse assunto, que discutiriam e sobre o qual fariam palestras. A reunião foi marcada para iniciar às 8 horas e nesse horário o público já estava presente esperando o seu início. Mas o evento foi se atrasando e só começou depois de 40 minutos. Depois das apresentações e das palestras, onde se falou muito de direitos e respeito humanos, o evento abriu-se para a participação do público. Uma moça negra levantou-se, apresentou-se e disse que passara algum tempo nos Estados Unidos, país cuja cultura leva muito a sério as questões relativas a direitos humanos, respeito e coerência ética. Disse então que eles, ali na mesa, haviam falado muito de respeito humano. Porém, onde estava o respeito por seu público quando fizeram esse público esperá-los por 40 minutos ? Disse também que não vira ninguém agradecer aos prestativos servidores que lhes traziam cafezinho na mesa. Parece que essa intervenção serviu como um tapa nas consciências daqueles senhores sisudos e respeitáveis que, até então, haviam encarnado a verdade e a ética. Se eram honestos consigo mesmos, nessa noite devem ter tido muito o que conversar com seus travesseiros.

Esse é um exemplo notável de que nem sempre percebemos quando existe uma incoerência entre o que falamos e o que fazemos. Só quando uma pessoa de coragem (como a moça negra do evento) nos adverte é que percebemos essa incoerência.

Volto novamente aos fatos lamentáveis que estão ocorrendo no cenário político atual, no Brasil. É possível ver coerência ética num cidadão que esbraveja diante dos telejornais contra os políticos que recebem recursos escusos para apoiar o governo, mas que no dia seguinte, ao se ver parado por um guarda no trânsito, oferece-lhe propina para escapar da multa ? Ou compra uma nota fiscal do médico para reduzir seu imposto de renda ? Ou pede para o restaurante emitir a nota fiscal acima do valor gasto para surripiar alguns trocados da empresa onde trabalha ? Ou registra no cartório uma escritura de imóvel com valor inferior ao efetivamente pago para lucrar na taxa cartorária (comprador) ou no imposto de renda (vendedor)? Ou faz cola para as provas da escola ? Ou compra um produto contrabandeado ou pirateado ?

Não se mede a corrupção pelos valores envolvidos. O germe que a produz é o mesmo que induz um ladrão a roubar um alfinete e outro a roubar um carro.

Como vemos, podemos, no nosso dia a dia, sem perceber,  realizar em particular muitas coisas incoerentes com nosso discurso de ética em público. E essas coisas incoerentes  estão sendo observadas por outras pessoas, e geralmente são pessoas próximas a nós. O que um pai deve achar que se passa na cabeça de seu filho, que o tem como paradigma de comportamento, se observar tais incoerências nele ? Terá motivo para ficar surpreso se esse filho  começar a tirar-lhe o dinheiro da carteira para cometer atos inconfessáveis? Esse pai pode achar que comprar um CD pirata não tem nada demais, mas talvez mude de idéia se analisar que seu ato, além de péssimo exemplo, alimenta a indústria nefasta da pirataria da mesma forma que o ato de seu filho, ao adquirir drogas, alimenta a indústria nefasta das drogas.

No programa citado, Renato Janine Ribeiro citara a moça negra porque defendia a tese de que no estágio atual da humanidade a sociedade não será mais mudada por revoluções de massa, como ocorria no passado, mas o será pelo comportamento individual. A moça agiu por um instinto pessoal, reagindo solitariamente contra uma injustiça que via diante de si, não tendo nenhuma intenção de provocar uma revolução. Mas sua ação influenciou aqueles senhores sisudos a tal ponto que um deles, generosamente, relatou o fato num programa de televisão, um telespectador assistiu e está relatando-o neste modesto ensaio. Antes disso, esse telespectador teve a oportunidade de relatar o caso em duas reuniões de que participou. Imagine agora cada telespectador tomando essa atitude, e você perceberá uma progressão geométrica na quantidade de pessoas que vão tomando conhecimento desse fato, e a ação da moça terá tido uma repercussão que ela jamais poderia ter imaginado. E, provàvelmente, terá com isso influenciado no comportamento de muitas pessoas.

Portanto, a tese defendida por Renato Janine Ribeiro é a de que não devemos ficar nos lamentando dizendo que não podemos fazer nada sozinhos, que a sociedade é corrupta por natureza, que os políticos são assim mesmo, que o ser humano é egoísta, que "todo mundo faz", etc. A sua tese é a de que a sociedade mudará se houver uma mudança em você, se você adotar atitudes firmes diante dos fatos injustos ou tentadores que acontecerem à sua frente no seu cotidiano. Nem sempre poderemos perceber, mas uma atitude ética diante de uma situação corriqueira de nosso dia a dia poderá ter repercussões positivas inimagináveis em nossa vida e possivelmente nas vidas de muitas pessoas, inclusive as próximas a nós. E essa atitude ética pode se constituir simplesmente em evitarmos atitudes antiéticas. Já é um grande passo.

E o caminho para a tomada de atitudes éticas passa pela coerência entre nosso discurso e nossa ação, que será adquirida pela nossa auto-observação. Não devemos ficar nos preocupando com os erros já cometidos. Não nascemos santos. Somos sujeitos a cometer erros dos quais nos arrependemos. Nosso caráter vai-se moldando ao longo de nossa vida, através de erros e acertos. Procurarmos manter a coerência entre nosso discurso e nossa ação fará com que conheçamos e evitemos cometer os erros e nos concentremos nos acertos. E fará com que mudemos a sociedade em que estamos inseridos.

É possível que a tese da ação individual como fomentadora de mudanças sociais seja contestável ou utópica, que aquela atitude da moça no seminário seja um caso atípico, mas,  mesmo assim, se as nossas atitudes são coerentes com nossos princípios éticos diante das opções simples que a vida nos apresenta, elas trarão, pelo menos, um benefício indiscutível, que é o de reforçar nosso caráter, preparando-nos para tomarmos as atitudes corretas diante de situações mais complexas e difíceis.

É preciso estarmos cientes de que nem sempre as opções de conduta que a vida nos apresenta se resumirão, simplesmente, em decidir sobre que atitude tomaremos diante da multa que um guarda de trânsito nos apresenta. Enquanto escrevia este ensaio, um telejornal informou que dois jovens de classe média alta, numa cidade grande, atropelaram um sem-teto, fugiram sem prestar socorro (o sem-teto morreu), abandonaram o carro longe dali e foram até a uma delegacia, a pé, contar uma história mirabolante de que haviam sido assaltados e os assaltantes haviam levado o carro. Após investigações, a história não se sustentou, os dois confessaram a verdade e respondem agora a inquérito. Por que, em situações-limite, as pessoas agem irracionalmente ? Atropelamentos com carros não acontecem intencionalmente, são fatalidades que ocorrem por imperícia do motorista ou imprudência do pedestre. Prestar auxílio à vítima não só isenta o atropelador de uma trasgressão à lei, mas também o coloca numa posição favorável diante de um possível julgamento de sua responsabilidade no caso. Fugir do acidente e inventar uma história para livrar-se do problema denota apenas que o caráter da pessoa já está corrompido em seu cerne pela imoralidade. Talvez aqueles dois jovens, diante de qualquer situação que a vida lhes apresentar, seja simples ou complexa, tomarão sempre a decisão errada. E, provàvelmente, estarão amanhã numa passeata de estudantes cobrando moralidade do governo de plantão.
     
No momento derradeiro que todos nós enfrentaremos, quando enfim estivermos de frente com o grande desconhecido, independente das convicções religiosas que tivermos adotado, se tivermos um tempo para analisar se nossa vida teve algum sentido, nos lembraremos não dos momentos em que agimos de forma indigna, mas da decência com que nos comportamos todas as vezes em que nos vimos desafiados diante das opções morais que as circunstâncias da vida nos ofereceram.    
Paulo Tadao Nagata
Enviado por Paulo Tadao Nagata em 07/02/2006
Reeditado em 28/05/2009
Código do texto: T109100
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Sobre o autor
Paulo Tadao Nagata
Marília - São Paulo - Brasil
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