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Pau que nasce torto...[AlexMarq]

Pau que nasce torto...
[ Alex Marq ]

Sempre fui assim na minha essência... Aliás... Só venho "piorando" a cada dia.

Nasci numa madrugada fria de sábado pra domingo, dias antes do previsto... Passei nove meses deitado e bem folgado no útero materno; já era abusado antes de nascer... Tanto, que até hoje minha mãe reclama das dores na costela decorrentes de minha gestação. Somente na hora do parto que entrei na posição certa... E digo a ela: Pra quê que eu ia ficar que nem tonto plantando bananeira se só era preciso na hora de sair? Mas o parto, foi cesariana... Ninguém esperava pela minha reação. Todos da minha família esperavam uma menina; e tiveram que "engolir" este moleque que já chegou contrariando..

Fui uma criança anormal; calado e solitário, introspecto e deprimido, malcriado e atrevido... Aprendi a agredir e chocar desde cedo; fui chato e arrogante desde pequeno... Em muitas vezes na vida fui ridicularizado, excluído, desprezado e até odiado.

Os conselhos dos mais velhos orientavam-me que eu só teria sofrimentos na vida em ser assim... Contrariei a mim mesmo, me reprimi e sufoquei meu próprio ser para me adequar a esse mundo ignóbil; que só serviu para apontar meus erros e reconhecer os meus defeitos...

Fui um adolescente pacato, certinho, não bebia nem fumava; estudava e desde os 16 anos já trabalhava. Mas continuei sendo "ovelha negra"... Perdi três anos da minha vida trabalhando que nem máquina. De segunda a segunda, sem fim de semana, nem domingo, nem feriado... Sem sair, sem passear, sem namorar, sem viajar... E ainda tinha que suportar ser chamado de vagabundo pela família.

Comecei a fumar assim que comecei a ter meu dinheiro. Mesmo sendo de uma família de fumantes fui duramente atacado pelo mesmo vício que tinham.

Inovei; construi e fiz, sozinho, meus projetos... Enquanto a "torcida" à minha volta só me criticava e me davam ordens... pegando pra si os "meus" méritos... Me dando ordens, como se fossem meu patrões, aonde eu fazia tudo sozinho.. Engoli calado; as cruéis ironias de meu progenitor em seus últimos dias de vida... Ele partiu como santo; e eu, continuei sendo o marginal...

Busquei novos caminhos, embrenhei-me numa nova filosofia... Virei rapaz sério, comecei a namorar com uma "moça de família"; cumprindo o ritual semanal de estar sempre presente nos horários por ela estipulados... Suportei de uma família que nem era minha, os ataques e ironias de quem por mim nada fazia...

Cheguei aos quase trinta dando-me conta que havia perdido meu ímpeto... Aquela vontade que trazia em meu coração de fazer e acontecer... Estava alienado e "amoldado" ao mundo... Sentia-me como um cadáver vivo... Apenas sobrevivia, porque há muito tempo já havia deixado de viver... Suportava calado; as piores invasões e desrespeitos à minha intimidade e individualidade... Como sempre na vida, eu nunca estava certo.... Já havia me conformado de ter nascido para ser errado... Já encontrava-me contando os anos e esperando o dia da minha morte...

Por vezes chorava calado, em silêncio fúnebre; quando lembrava do moleque atrevido que não tinha medo de nada... O moleque maloqueiro que batia boca com a avó intransigente e chamava os tios pra porrada... O moleque que ficava noites sem dormir pra cumprir prazos de seu trabalho... Nada, nem ninguém no mundo; me agradava...

Resumi minha vida em grana... Era só o que valia e era só o que deveria "Ter" para poder "Ser" alguma coisa entre as pessoas com quem convivia... Nada do que pensava ou sentia tinha valor, meu valor era apenas mensurado em números, em cédulas e dígitos... Era valorizado ou desprezado em proporção a meu faturamento, era tachado de acordo com o quanto poderia pagar...

Mas: Chega um dia em que tudo termina...

E... Felizmente tudo terminou. Terminou minha relação, terminou meu dinheiro, terminou a minha paciência, terminou a minha falsa atenção para com os falsos que eu era obrigado a agradar... Mandei tudo à merda...

Joguei longe minha máscara e escancarei a todos meus maus hábitos: As bebidas que bebo, os palavrões que falo, as visões que tenho, as mulheres que desejo, as opiniões que penso, os cigarros que fumo... Tornei-me severo, cruel, sádico, pervertido e egoísta... Coloquei a mim mesmo como principal prioridade no mundo. Gritei até perder a voz, fumei e bebi de tudo até cair... Chorei até secar meus olhos... Corri até cansar...Adormeci embriagado nas duras trevas que plantei para mim mesmo e sofri as duras consequências de minha insanidade...

Acordei numa manhã iluminada, com uma suave brisa a me desejar bom dia... Sorri sem nenhum motivo, porque estava feliz sem saber o porquê... Senti meu coração batendo; como a muitos anos não sentia mais... Chorei novamente, mas de emoção... Contagiei-me de felicidade por ter me descoberto... Ressuscitei aquele menino que há anos havia morrido... Vi brilhar em meus olhos e bater em meu peito o ímpeto que imaginava perdido... Renasci das cinzas tal qual a Phenix...

Hoje esse menino está muito bem protegido... Por ele arrisco minha vida, por ele brigo e agrido a quem se atrever a feri-lo... Por ele eu tiro o sangue de qualquer um que quiser novamente enterrá-lo... Por ele eu recrio o mundo, para que ele possa sempre viver da maneira que merece...

Hoje me fiz homem... Mas trago comigo, o menino folgado que passou sua gestação, deitado no útero materno. O menino ingênuo que sonhou ganhar o mundo... Hoje eu destruo os cruéis que queiram atingi-lo... Ameaço os incrédulos que queiram corrompê-lo. Ataco aqueles que queiram sufocá-lo... Vingo-me dos preconceituosos que o fazem chorar... Desafio os arrogantes que querem humilhá-lo... Espanco os hipócritas que queiram adestrá-lo... Mato os cruéis que queiram matá-lo...

Hoje eu ganho o mundo por esse menino. Para que ele possa sempre sorrir. Para que ele possa sempre criar. Para que ele possa sempre amar e ter todas as boas coisas que sua radiosa alma merece... Sem esse menino, minha vida não tem sentido.

Amor e alegria em nossos corações... Sempre!

( Alex Marq, 18 de abril de 2005)
Alex Marq
Enviado por Alex Marq em 19/04/2005
Reeditado em 21/07/2005
Código do texto: T12089

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Sobre o autor
Alex Marq
São Paulo - São Paulo - Brasil, 43 anos
79 textos (78233 leituras)
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Alex Marq