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Perdas

   Somos abençoados pelos nossos sentidos: visão , olfato , tato, paladar e audição , apesar de passarem a maioria das vezes sendo apenas usados mecanicamente e somente lhes darmos importância quando algum deles falha , mesmo que momentaneamente , um cisco no olho , um resfriado , um corte ou queimadura na mão bastam para nos alertar sobre a importância de cada um deles , mas isso dura pouco pois rapidamente voltamos ao estado original de despreza-los. Claro que não fazemos isso de propósito , é inconsciente , mas como tudo na vida , somente ganha valor quando se perde.
   Existe um exercício fantástico para valorização de sentidos , parece até uma brincadeira , mas o resultado é  magnífico. Convide alguns amigos para um jantar ás cegas , isto é  totalmente no escuro.
    Criado em 1999 em Zurich pela fundação Blind-Liecht como uma forma de conscientizar o público das condições que a falta de visão traz, logo a iniciativa começou a ser realizada em outras cidades, como Paris e Londres no restaurante Dans Le Noir e em Nova York, em São Paulo já existem alguns locais onde se pode participar , um deles é O Gil Bistrot no Itaim.
    Além da visão , os outros sentidos também são trabalhados , como o cardápio é uma surpresa pois  não é escolhido pelo convidado acaba representando um desafio ao paladar , uma trilha  musical previamente escolhida , intercalada com períodos de silencio faz com que as pessoas naturalmente agucem a audição  , alem disso existe a possibilidade da  aromatização do ambiente com chás , incensos ou flores , a pessoas também pode ser convidadas a ficarem descalças , passando por diversos pisos e texturas , fazendo-as assim a aumentar ainda mais o leque de sentidos .Ao final do jantar a pessoa é convidada a participar de uma conversa informal para discutir a experiência e suas sensações.
     Deveríamos participar de mais jantares ás cegas na vida para aguçar nossos sentidos.

     

"Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira." Leon Tolstoi


Perdas


O que você olharia se tivesse apenas  três dias de visão?

Às vezes o meu coração anseia por ver tudo aquilo que só conheço pelo tato.

Se eu consigo tanto prazer com um simples toque, quanta beleza poderia ser revelada pela visão!

E imaginei o que mais gostaria de ver se pudesse enxergar, digamos, por apenas três dias.

O primeiro dia seria muito ocupado.

Eu reuniria todos os meus amigos queridos e olharia seus rostos por muito tempo, imprimindo em minha mente as provas exteriores da beleza que existe dentro deles.

Também fixaria os olhos no rosto de um bebê, para poder ter a visão da beleza ansiosa, inocente e gostaria de olhar nos olhos fiéis e confiantes de meus dois cães.

À tarde daria um longo passeio pela floresta, contagiando meus olhos com as belezas da natureza e rezaria pela glória de um pôr de sol colorido.

Creio que nessa noite não conseguiria dormir.

No dia seguinte eu me levantaria ao amanhecer para assistir ao empolgante milagre da noite se transformando em dia.

Contemplaria, assombrada, o magnífico panorama de luz com que o sol desperta a terra adormecida.

Como gostaria de ver o desfile do progresso do homem, visitaria os museus.

Tentaria sondar a alma do homem por meio de sua arte.

Veria então o que conheci pelo tato.

Todo o magnífico mundo da pintura me seria apresentado.

À noite de meu segundo dia seria passada no teatro ou no cinema.

No terceiro dia, a cidade seria meu destino.

Iria aos bairros pobres, às fábricas, aos parques onde as crianças brincam.

Viajaria pelo mundo visitando os bairros estrangeiros.

E meus olhos estariam sempre abertos tanto para as cenas de felicidade quanto para as de tristeza, de modo que eu pudesse descobrir como as pessoas vivem e trabalham, e compreendê-las melhor.

À meia-noite, uma escuridão permanente outra vez se cerraria sobre mim.

Claro, nesses três curtos dias eu não teria visto tudo que queria ver.

Só quando as trevas descessem de novo é que me daria conta do quanto eu deixara de apreciar.

Usem seus olhos como se amanhã fossem perder a visão. e o mesmo se aplica aos outros sentidos.

Ouçam a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos.

Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tato.

Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos.

Usem ao máximo todos os sentidos.

Apreciem todas as variedades da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contato fornecidos pela natureza...vivam!



Helen Keller, cega e surda desde bebê, há setenta anos, escreveu este ensaio publicado na revista Seleções Reader's Digest .

Roberto Recinella
Enviado por Roberto Recinella em 05/04/2006
Código do texto: T134018

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Sobre o autor
Roberto Recinella
Campo Mourão - Paraná - Brasil, 50 anos
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Roberto Recinella