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O cochilo da tarde



Enquanto a tardinha guardava um cochilo na rede eu segui em frente...alheios aos segredos cochichados a mim pela brisa gelada, passavam os transeuntes...
Meus passos quase tão cadenciados quanto os ponteiros avançavam firmes...nada a me separar do céu que quase podia tocar com as pontas dos dedos...o sibilo dos ventos suaves lambiam meu rosto e faziam cócegas nos meus lábios...
O espelho das águas...brilhantes e calmas refletiam teu sorriso sereno...num misto de ternura e carícia...quase ouvia-lhe o murmúrio dos lábios levemente dançando pelo toque de uma ou outra folha soprada das árvores centenárias que ornam a margem da lagoa...
Enquanto devorava o percurso exercitando meus
 braços para o sangue circular por todo corpo
e manter as mãos aquecidas e irrigadas...
pude assistir a noite desenhando seus
 contornos na tarde que pendia no canto
do quarto de hora...
Os passantes corriam aos pares e notava-lhes a
preocupação com o respirar correto...alguns
 como eu caminhavam solitários...uns
 entregues ao fones de ouvido...outros preferiam
a companhia fiel do cão que ia resfolegante
sendo contido com esforço pela guia...
A distância a ser vencida novamente era longa...de que valia caminhar míseros trechos se os pensamentos requeriam tempo e esse silêncio falso que trazia ruídos de carros e sons de gentes...
A minha cabeça rodava e meus olhos vez em quando eram atraídos pra o mundo ao meu redor...um piloto solitário de aeromodelismo fazia manobras...o bondinho passou por mim tantas e tantas vezes...estava quase vazio hoje, acho que o frio espantou os passageiros...mas não tirou o ânimo dos que gostam de passear de pedalinho...pedalar na lagoa é desestressante além de ser um gostoso exercício paras as pernas é bom adentrar a lagoa...dá a sensação de ouvir os mistérios das águas...e gozar da cumplicidade da sua mansidão...
O céu se cingia de marinho e as primeiras estrelas despontavam ainda tímidas quando eu botei os meus passos no caminho de volta...já não haviam pensamentos a agitar minha cabeça...uma enorme
paz assentou-se no meu peito...embora meus olhos
 continuassem nublados...e a nuvem de tristeza
passeasse serena na minha retina...
já não sentia mais o gosto de sal das lágrimas...
Aqui sentada novamente, frente a essa
 tela iluminada pelas letras piscantes...
poucas que caem na minha caixa hoje...
pelo meu afastamento temporário...acaricio as
 teclas...já com os pensamentos ruidosos...
tentando imprimir alguma emoção que não
 seja desagradável a quem se dispuser à leitura...
Quando atravessei a soleira hoje para caminhada...uma parte de mim se diluiu em sombras e outra se fragmentou numa explosão atômica...não me modifiquei...mas exorcizei meus medos...e adentrei meus mundos cheios de entranhas escondidas que não me permitem violar os teus mundos...
Minhas lutas titânicas revelam freqüentemente minhas chagas expostas...mas faço das minhas dores uma escada de aprendizado e abençôo a minha caminhada na vida porque rego de amor todos os gestos em todos os momentos...
Assim retorno ao mesmo chão... não vazia...mas reabastecida do amor que em mim jorra como fonte inesgotável...

Angélica Teresa Almstadter
Enviado por Angélica Teresa Almstadter em 02/05/2005
Código do texto: T14238

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Sobre a autora
Angélica Teresa Almstadter
Campinas - São Paulo - Brasil, 62 anos
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25 áudios (3274 audições)
1 e-livros (247 leituras)
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Angélica Teresa Almstadter