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D. QUIXOTE DE LA BOLIVIA - PARTE 1

D.QUIXOTE DE LA BOLIVIA
J.B.Xavier

Imagine a seguinte cena.: O Presidente da Bolívia Evo Morales, sentado à mesa de negociações com a Petrobrás, lhe diz:

- “Ok, senhores, vamos privatizar o gás boliviano. De amanhã em diante os senhores terão que pagar 82% do que faturam em solo boliviano, e não os atuais 50%”.

A cena seguinte é fácil de prever: A Petrobrás, acostumada com a corrupção desenfreada boliviana, com a sucessão de presidentes que chegam pobres e saem ricos do cargo, em meses apenas à frente do país; acostumada a resolver as coisas com o “jeitinho” brasileiro; acostumada, também ela, a conviver com a corrupção no Brasil, onde ela própria é moeda de barganha e vê seus mais altos cargos leiloados a cada pleito eleitoral; acostumada enfim, com a demagogia dos governos brasileiros que se sucedem, provavelmente reagiria de maneira lacônica, irônica, e sorriria condescendentemente para mais um presidente boliviano querendo saber quanto ganharia para não levar o plano de privatização adiante.

Então, dos 32% do ônus que a Petrobrás teria que arcar, caso a privatização fosse mesmo implantada, provavelmente lhe ofereceria uns 2% de aumento real, para que ele pudesse prestar conta aos eleitores e lhes dizer que “arrancou” dos brasileiros um aumento “significativo” nas taxas cobradas pelo seu gás. E para ter certeza de que ele aceitaria esses 2% apenas, de aumento real, provavelmente lhe ofereceria um pequeno percentual sobre o faturamento da empresa na Bolívia. Um percentual pequeno o bastante para não onerar suas operações em solo boliviano, e grande o bastante para tornar Evo Morales milionário em curtíssimo espaço de tempo.

Depois, as duas partes sentariam à mesa de um restaurante, provavelmente fumando charutos cubanos e tomando vinho do Medoq. Então iriam para suas casas, certos de que mais uma vez fizeram o que tinha que ser feito: Evo, provavelmente pensando que se até os países que se sentem prejudicados pela cocaína boliviana não fornecem ajuda para realmente melhorar seu país, por que ele iria lutar contra moinhos de vento? A Petrobrás, provavelmente, daria por encerrado o assunto e esperaria no canto do ringue pelo próximo presidente eleito.

Mas a cena descrita acima é ficção. E por ser ficção, num belo Dia do Trabalho de 2006, a Petrobrás amanheceu invadida por militares, e já não pertencia mais ao Brasil.

Como baratas tontas, os executivos da poderosa Petrobrás ficaram atônitos, por não estarem acostumados com um sujeito que simplesmente fez o que disse que ia fazer. Ele não fez ameaças, não deixou vazar nenhuma informação sobre a privatização, nem negociou nada. Absolutamente nada! Apenas tomou para si as milionárias instalações de 20 empresas – várias delas estando entre as mais poderosas companhias do ramo dos hidrocarbonetos do mundo!

Apenas o fato de não ter vazado a informação da privatização demonstra duas coisas. Primeiro: a desatenção com que se gerenciava os negócios bolivianos. Segundo: a adesão e lealdade à causa, dos bolivianos envolvidos no processo.

E ninguém, dos tantos executivos regiamente pagos para planejar a estratégia de uma gigantesca companhia como a Petrobrás, nem mesmo os escorregadios negociadores do Itamarati, parecem atentos ao fato de que pela primeira vez na história recente, o continente sul americano está cristalizando uma ideologia em torno de um discurso nacionalista, que pode se assemelhar muito ao do nosso presidente, mas dele difere em tudo – da ação às conseqüências.

Atordoados pela pancada no fígado que Evo Morales desferiu, levanta-se uma grita idiota, clamando por ação, e eu não estranharia se a caserna já estivesse com coceira no dedo do gatilho.

Mas, no ruído dessa gritaria inócua, ninguém parece perceber que um novo eixo ideológico nasceu na América do Sul, e dele o demagogo Brasil está fora: o eixo Cuba-Venezuela-Bolívia. No outro extremo do continente, o “eixo” estabelecido do frágil acordo do Merco-Sul, mal consegue se manter de pé. Explica-se: O primeiro é movido a ideologia, mesmo que ela vá um dia desembocar em extremismos e violência. O Segundo é movido a interesses comerciais, onde quem pode mais chora menos.

Que me perdoem aqueles que no Brasil estão gritando de indignação diante da ousadia desse índio cujo nome hoje é comentado no mundo inteiro. Com tanta lição de casa para fazer e ficamos gritando palavras de ordem a quem fez a sua!

Essa gritaria é, na verdade, um senso de brasilidade tardio e hipócrita.

Tardio, porque o Brasil, que tem uma empresa extratora de petróleo situada entre as melhores e maiores do planeta, não consegue pensar em termo estadistas. Suas decisões são sempre fruto de reações, raramente de ações, ou seja, o Brasil, salvo raras exceções, age sempre depois do fato.

A corrupção desenfreada que grassa no país; os governantes que não governam, porque estão sempre em campanha desde o primeiro dia em que assumem seus cargos; a conversa mole, seja em termos políticos, seja no anacronismo jurídico, seja nos desmandos do sistema financeiro; tudo isso produziu uma geração moralmente fraca, patrioticamente falha e socialmente individualista.

Se pensasse em termos estadistas, o Brasil compreenderia que vizinhos economicamente estáveis não exportam mão-de-obra desqualificada, não precisam plantar Coca para sobreviver, não criam FARCS, nem são centros de revoltas, revoluções e golpes de Estado que põe em risco a democracia do próprio continente sul americano, como o embrião dessa estatização parece confirmar.

Mas, sem fazer sua própria lição de casa, o Brasil não é referência para ninguém. Um país que trafica ambulâncias; que liberta assassinos confessos; que acredita que um homem, cujos amigos de décadas, roubaram a mais não poder e diz que nada sabia; que absolve corruptos bilionários; que dança para festejar mais um corrupto absolvido; que faz das doações oficiais - bolsas escola, bolsa família, Fome Zero, etc. etc. etc - o centro de sua política social, tem mesmo é que se surpreender quando encontra pela frente alguém cujo sonho não está à venda. Alguém que decidiu lutar contra os moinhos de vento, sim. Por que não?

Evo Morales nos deu um tapa na cara. Esta doendo, mas era absolutamente previsível, como são previsíveis as tormentas que se avizinham dentro do próprio Brasil caso os governos não parem de aprofundar o fosso que separa ricos e pobres, que hoje apenas se toleram, mas cuja intolerância já pode ser vista e sentida em vários níveis.

Como um vírus, uma toma da outra tudo o que ela tem, até que um dia acabará por tomar dela a própria dignidade humana.

Neste dia, o Paiol Brasil estará de portas abertas, à espera de um D. Quixote – outro Morales da vida – que por não negociar seu sonho, acabará entrando no paiol, repleto de pólvora espalhada de norte a sul, com uma tocha acesa na mão.

Os primeiros sinais já estão aí.

Evo Morales prometeu durante sua campanha eleitoral. Não foi levado a sério num continente demagogo, e fez o que prometeu. Por que a surpresa? Porque cumprir o que se promete está fora de moda entre os políticos sul americanos.

Evo Morales nos deu um tapa na cara ao abrir mão do enriquecimento rápido e ilícito. Pode ser que o poder extremo o corrompa. Seria esperado. Mas, pelo menos até a presente data, só temos a aprender com ele.

* * *
JB Xavier
Enviado por JB Xavier em 06/05/2006
Reeditado em 06/05/2006
Código do texto: T151265
Classificação de conteúdo: seguro
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JB Xavier
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