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O inventor de verdades

                    O   INVENTOR    DE   VERDADES

José Augusto Carvalho

As aventuras de Alice (no país da maravilhas e através do espelho) oferecem ao leitor mais atento algumas sugestões para a explicação de importantes problemas lingüísticos, psicológicos e até biológicos. Lewis Carroll não era um especialista da linguagem. Por isso mesmo, o que me chamou a atenção foram duas verdades inventadas por ele, ambas de interesse para o estudioso da lingüística ou da semiótica.
A primeira delas é a atribuição a uma questão “lingüística” do eterno desentendimento entre gatos e cachorros. O gato de Cheshire (aquele que fica invisível, deixando o sorriso no ar) explica a Alice por que ele era louco e um cachorro, não: o cachorro rosna quando está zangado, e abana a cauda quando está contente. Mas o gato rosna (ronrona) quando está contente, e abana a cauda quando está zangado. (CARROLL, L. Alice’s adventures in Wonderland and through the looking glass. Harmondsworth, Middlesex: Puffin Books, 1976, p. 88.)
 Em outras palavras, Lewis Carroll inventou uma belíssima explicação para a eterna briga entre cães e gatos: o “sim” em gatês equivale a um “não” em cachorrês, e vice-versa! Si non è vero...
Lewis Carroll – e aqui vai sua segunda invenção da verdade – também questiona, com sutileza, o conceito tradicional do pronome como substituto do nome. Quando o Mosquito dentro do espelho pergunta a Alice se ela não gostaria de perder o próprio nome, ela responde que não. E o Mosquito argumenta: se ela não tem nome, a governanta não poderia chamá-la para as lições da escola. Mas Alice responde que, embora não tivesse nome, a governanta a chamaria de “senhorita” (Miss) (Ibidem, p. 228-9)
Nessa passagem, há um questionamento a respeito do conceito de pronome. De início, Alice contradiz a definição tradicional de pronome como substituto do nome: se ela não tem nome, pode ser chamada pelo hiperônimo menina (Miss!). Isso significa que menina também é um substituto do nome, e não se constitui num pronome. Mais adiante, Alice, sozinha, esquece o nome das coisas e o seu próprio nome. E diz, enquanto anda: “(...) depois de tanto calor, ficar dentro de... dentro... dentro de quê?  (...) Eu quero dizer ficar debaixo de... debaixo de... debaixo disto, ora!” – E colocou a mão no tronco da árvore, surpresa por não saber que se tratava de uma árvore: “É possível que não tenha nome nenhum... vai ver, não tem mesmo.” (Ibidem, p. 230)
Se o pronome fosse substituto do nome, Alice não poderia usar os pronomes quê (dentro de quê) nem isto (debaixo disto, ora!) para substituir um nome que não existe! (É bem possível que não tenha nome nenhum.)
Isso significa que, intuitivamente, Lewis Carroll inventou a verdade de que o pronome deve ser historicamente anterior ao nome, já que se pode usar o pronome para coisas que ainda não têm nome ou para coisas cujo nome se ignora. Se não conheço uma pessoa, pergunto a quem a conhece: “Quem é essa pessoa?” Uso dois pronomes que se tornarão desnecessários no momento em que eu aprender o nome dessa pessoa.
Muitos outros escritores, além de Lewis Carroll, incursionando às escuras pelas áreas múltiplas de conhecimento, chegaram a conclusões espantosamente próximas da verdade, graças à intuição e ao gênio de sua pena mágica! Foi o que fez, por exemplo Ortega y Gasset, ao “inventar” o étimo de snob, como oriundo do acrônimo formado pela expressão latina sine nobilitate. (Ver ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas – trad. de Herrera Filho – Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1971, p. 26, nota 5, de rodapé: o autor diz que, na Inglaterra, as listas de residências indicavam junto a cada nome o ofício e a classe da pessoa. Por isso, junto ao nome dos simples burgueses aparecia a abreviatura s.nob., quer dizer, “sem nobreza”. Essa seria, segundo ele, a origem da palavra snob.)
A lição de moral, se é que alguma lição tenha moral, é que não basta o acaso de uma maçã para dar ao Homem o fogo de Prometeu, a descoberta da lei das atrações ou a felicidade da perda do paraíso da ignorância. O progresso da humanidade nasce mesmo é da intuição mágica das grandes sensibilidades, que faz a fama do gênio e a conquista das ciências.


José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 07/05/2006
Código do texto: T151694
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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 76 anos
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