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STELA MARIS, A MANDRÁGORA!

ESTRELA DO MAR é um livro autobiográfico do alter ego.

Talvez a autora nem saiba disto no plano da consciência. O eu-poético deflagra um estado de consciência que a faz feliz. Trata-se de um corajoso e pungente depoimento de mulher. Da fêmea na ânsia da possessão.

Em tudo está a lavratura das marcas de sua concepção do amar e suas seqüelas. Nestes ingentes esforços de permanência da figura do amado, a autora se desnuda de todos os preconceitos.

Escreve a sua alma desejosa. Inscreve e perpassa para o leitor a possessão que poderá fazê-la feliz. Em “Limite de meus desejos ou a poesia do ódio” pretende até a compra do (objeto) masculino, do afeto que percebe necessário à vida. Joga na mega sena e se vê milionária: “Com grana agora pra comprar... Você.../ Se é que ainda vale a pena./ Seu merda. Você não merece nem ao menos ser comprado! (pág.....)

Torna verdade, ao seu plano e conta, a seu modo, o que Fernando Pessoa, o genial português, retrata sobre o amar: “Ninguém ama, senão o que de si há no outro, ou é suposto.”. Mas este narcisismo não é meramente expectante, é ação relatada no intimismo desbragado de quem sabe que é preciso confessar a sua fúria possessa. Objetiva-se em nomes e sobrenomes. Navega sobre o real, o seu real nada transcendente, mas é o mundo de suas circunstâncias aflitivas, pesarosas, gratificantes.

A saga de conviver com tapas e beijos, fora de seu universo, recompõe-se no lirismo doce e terno, a eterna compensação: “Se você der alguns abraços apertados ou bem ternos/ Em mim, que em espírito já me sinto tua mulher,/ todas as minhas dores físicas e psíquicas/ Irão para o infinito/ irão pro espaço... Irão pro beleléu! Aperta-me um pouquinho/ sou bem macia como um marshmallow...”. (pág.....)

Pedro, o seu amado, o objeto de sua sanidade amorosa, ora é másculo e viril, ora é um menino que necessita proteção. Aqui ele é o Pedrinho. E a fêmea exercita a sua maternidade: “O nariz está tapado,/ O ar não entra nem por um triz,/ está sofrendo adoidado,/ Com uma obstrução nasal que ninguém quis./ Está respirando pela boca... Porque minha consciência censura,/Não posso ir lhe buscar... (pág....)

O livro apresenta momentos de poesia rarefeita, tecnicamente, nos moldes sintéticos da contemporaneidade, mas é de uma comunhão imensa com a coloquialidade do verso prosaico amoroso. É o confessionário íntimo que vai para a posteridade. A doçura e os desejos da mulher de todo o sempre estão aqui presentes. Também a mulher atual com o seu faro de caçadora, não somente a historicidade de “caça”. Aqui me parece residir o novo nesta obra que não se ajusta a nenhum estilo em particular. É o canto desesperado dos amantes de todas as idades.

Em “Pedrinho” (pág.....) e em “Mandrágora”, (pág.....) a linguagem está mais cifrada, menos pessoalizada. Em ambos transparece mais a poesia com sua partitura musical, rítmica. O eu-poético da autora observa de fora o seu objeto de afeição: “Dois peixinhos brancos/ Cercados por cílios imensos,/ Dentro, duas contas azuis./ Com um círculo preto no centro./ entre elas um nariz, que eu não podia enxergar./... Há sempre a visão lúdica, picaresca: “Interrompi tua adorável folia./ De viravoltas e cambalhotas,/...”. Para tanto, e por tudo, sempre haverá o “show particular.” (final, pág....)

Em “Masturbação”, há um lirismo que sacraliza e justifica o gozo: “Quero tocá-lo, abraçá-lo, Pedro,/ Com o tesão e o desejo que há no mundo./ Sinto o útero mexer... Pois o gozo já desce./... E eu pertenço a ti, amor, em mais esta explosão. (pág....)

E este onanismo é freqüente no decorrer da proposta prosaico-poética: “Ficar tão perto de mim sem amar-me/ Antes que eu chegue aos noventa?” Transmissão de Pensamento (pág.....)

O eu-poético, em sua saga recorrente, cristianiza o desejo e tudo o mais. Joga o homem e a mulher, suas diatribes mais escondidas e até a psicanálise é visitada:

“O pai se foi, o filho ainda é uma incógnita.
Poderei novamente amá-lo como se ama a um Deus?
Na verdade já é uma possibilidade
De ser tão bom quanto o antigo homem foi.
Mas eu adorava o cavalheiro das estepes.
Um pouco Jesus Cristo... Um pouco Dr. Freud.” (pág....)

Recatada, e “voltando ao velho e surrado assunto”, a caçadora relata a sua impotência, como sempre acontece no amar:

“Talvez no inverno, talvez no outono
Teu coração eu venha a controlar
Todo e pra sempre serás meu homem
Todas tuas almas irei conquistar.

No fundo uma vozinha me diz:
Menos, Stela, menos... (p.....)

E em “Mandrágora”, p....., ao final do livro, há a nítida noção do fetiche, do encantamento nem sempre fálico, mas temerosamente incomportado:

“Bruxaria moderna, bruxaria encantadora.
Inocentemente amiga, inocentemente pura,
De quem já abriu a caixa de Pandora,
Mas fechou de novo e salvou o mundo
Da maldade fria, mas sempre tentadora.”.

Esta é a comprovação da transcendência. Em meio ao ambiente criado pela sugestionalidade, surrealista, quase onírico, por vezes, viver não é um dado apenas nominal e numérico para algumas pessoas.

A arte, a transfiguração da matéria da vida aponta o caminho pra ser feliz:

“E é por isso que eu digo
Que sei e ainda não sei como ele é
Mas fantasio e o guardo sempre no coração,
Como guardaria um doce, doce, muito doce amigo,
Ou como um calmo, calmo, muito calmo abrigo.”
Poema “Como Pedro é realmente?” (p....)

Venha até o universo de Stela, que sabe, como poucas, que o Amado faz parte de seu corpo, de sua cuca plena de sonhos, de fantasias.
E que também pode ser abrigo.

E você, leitor(a), ainda pensa em ser feliz?


(1) Advogado. Poeta. Ativista Cultural. Coordenador Nacional das Casas de Poetas do Brasil - POEBRAS, com 61 sedes municipais em 17 Estados-membros da Federação Brasileira. www.recantodasletras.com.br/autores/moncks
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 30/05/2006
Reeditado em 30/05/2006
Código do texto: T166133
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709742 leituras)
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Joaquim Moncks