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DIÁLOGO ENTRE DOIS AMIGOS

Diálogo entre Carlos e Simão. Amigos de longa data e cúmplices durante os tempos difíceis da ditadura.

Carlos sentado na velha cadeira da varanda e observando a noite fria levanta-se e murmura:

Carlos __ Simão não parece que este ano o inverno chegou mais tarde que outrora? Também o modo com que tratamos o clima não se pode esperar uma regularidade...
Achas que isso pode agravar ainda mais com o passar dos anos?
Simão __ Meu caro Carlos como pode perguntar-me com tanta inocência? Haja visto que tudo se agrava com o tempo...
Lembra-te dos tempos da meninice, quando a neve ainda caia e jogávamos aos cabelos? Hoje não precisamos gastar nossos tostões com aquecimento. Acho eu que o desgaste das coisas deixa até o clima banal e sem grandes pretensões.
Carlos __ Lembro-me...
Simão __ Espere! Antes de julgar-me mal humorado e repetitivo, deixo claro que minha opinião moldou-se com o passar dos anos. Já não posso pensar como um jovem aventureiro que ainda acredita na mudança das coisas e na consciência das pessoas.
Simão __ Não ia julgá-lo. Queria apenas acrescentar que jogávamos neve não somente aos cabelos e que você era o começo e fim da brincadeira que nem um pouco me agradava. Ao certo sinto falta daquele tempo, mas sinto que evoluímos de alguma forma, digo, não ao reverso, mas na política, na arte e nos ideais.
Carlos __ Talvez um grande mal seja esta evolução. Esta consciência das coisas, este “preço de tudo”. O conhecimento torna o homem desumano e imoral. Lembra-se do delegado Xavier? Aquele que ficou famoso pelas medalhas e certificados. Pois bem, o mesmo foi preso esta semana por sonegação, estelionatário e afins. Agora lhe pergunto: não foi o conhecimento exagerado que o levou as raias da loucura? Antes de importunar-me com sua resposta conservadora digo-lhe: “o mundo esta enlouquecido por este mesmo conhecimento”.
Simão __ Meu amigo devo lhe dizer que se cuide com estes comentários, pois poderá fazer companhia ao Mr. Xavier. Ao pensamento que diz importuná-lo devo acrescentar apenas: “o conhecimento torna o homem sábio e a forma de expressar seu conhecimento o torna desumano”. Uso-lhe Mr. Oscar, o grande escritor como exemplo. O mesmo foi preso por expressar suas idéias, mas tampouco se redimiu diante dos insultos. Isso por que tinha convicção em suas palavras e sabia que precisava que conhecessem seus escritos para não enlouquecer a si mesmo. Nem todos expõem sua verdadeira forma de pensar e a concordância com tudo o que já esta dito torna essas pessoas imorais.

(Carlos balança a cabeça e admira seu velho amigo. Um dos poucos que ficou depois das prisões e mortes injustas. Bom, nem todas foram injustas.)

Carlos __ Mudando de assunto lembra-te de minhas experiências com o amor?
Simão __ Chamas também ao teu casamento de “experiência”?
Carlos __ É certo que sim. Dorothy foi exemplar, mas nunca me amou de verdade. Digo isso, pois dividimos lençóis por mais de trinta anos. Ela soube cuidar de nossos filhos e educá-los, mas seu beijo deixava incertezas e ainda as tenho em mim.
Simão __ Mas,...
Carlos __ Espere... sei que vai me perguntar por que ficamos juntos tantos anos. Digo-lhe com enorme prazer: é a mulher mais inteligente do qual compartilhei bons assuntos, vinhos e risos. Sempre soube mencionar títulos de bons livros e opinar sobre nossa política. Bem ao contrario de Suzana. Ela tirava-me o ar, mas mal sabia se expressar. Sabes... amei Suzana mais que Dorothy? Culpo-me às vezes por isso, mas é a verdade dos fatos.
Simão __ Ah, os olhos de Suzana ainda hoje me fazem escrever belas poesias. Sabes que não é segredo. Também a amei. Dorothy sempre me pareceu exata como esposa – como equações matemáticas – e sempre tão prestativa, mais parecia um robô.
Carlos __ Sinto falta de Juliette também, mas esta era por demais escandalosa. Teve uma vez que ficou nua para chamar minha atenção.

Simão rindo abertamente expressa:

Simão __ E isto é ruim meu amigo?
Carlos __ Até não seria se não estivéssemos jantando no Royal Garden. As loucuras dela me fascinavam, mas também me assustavam um pouco. Mulheres... sempre roubando o pouco de dignidade que adquirimos.
Simão __ Se a você roubaram apenas dignidade, saiba que a mim levaram tudo.

Os dois riem por longo e espaçado tempo.
Ao certo não se pode julgar as mulheres pela beleza nem o clima por declínios morais da humanidade.


Nota da autora: obra fictícia!



Crédito: cena do filme Operação Valquíria.
Carmen Locatelli
Enviado por Carmen Locatelli em 22/06/2009
Reeditado em 06/07/2011
Código do texto: T1661751

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Sobre a autora
Carmen Locatelli
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
129 textos (6348 leituras)
3 e-livros (305 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/14 06:43)
Carmen Locatelli



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