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Aldeias da Ilha do Bananal

A Ilha do Bananal que é considerada a maior ilha fluvial do mundo e é muito famosa por sua riqueza natural e por sua diversidade cultural.

Existem inúmeras histórias pitorescas e fascinantes de exploradores, políticos, ambientalistas, indigenistas e até de cidadãos comuns que visitaram a Ilha do Bananal e nunca mais esqueceram esse lugar incrível.

Cada pessoa que visita e conhece a Ilha do Bananal recebe uma série extraordinária de sensações e experiências que ajudam a reforçar essa aura mística entorno desse local único.

Assim, dependendo da percepção e dos conhecimentos prévios de quem visita a Ilha do Bananal há a formulação de diversificadas impressões e narrativas. Mas, de modo geral, é impossível falar da Ilha do Bananal sem mencionar os povos indígenas que ali habitam, especialmente os Karajá-Javaé.

Dessa forma, apresento brevemente algumas informações básicas sobre a Ilha do Bananal e das aldeias indígenas Karajá-Javaé.

O rio Araguaia corresponde ao limite noroeste da Ilha. O rio Javaés ou braço menor do Araguaia constitui-se no limite leste da Ilha, recebendo como afluentes pela sua margem esquerda os rios que nascem dentro da Ilha, tais como, o Diderô, Barreiro, Aruari e Riozinho que é formado pelo rio Randi-toró. Este tem suas nascentes na Mata do Mamão no centro da Ilha do Bananal.

Característica marcante da drenagem da Ilha do Bananal e seu entorno são as numerosas “ipucas” (formações vegetacionais características da região central da bacia do Araguaia), que na época das cheias fazem a ligação entre os vários rios e córregos. Nesta mesma época os rios deixam seu leito normal e provocam inundação por toda Ilha, sendo mesmo possível em alguns locais percorrê-la de barco no sentido transversal.

Os diversos lagos existentes no interior da Ilha do Bananal, pelas suas dimensões notáveis concentram fauna, constituindo-se de locais muito atrativos e de grande beleza cênica. Existem cerca de 200 lagos no interior do Parque Nacional do Araguaia e inúmeros outros no interior do Parque Indígena do Araguaia, que são todos muito cobiçados pela riqueza de pescado que contém.

Quanto à fauna e flora, nota-se uma vegetação de transição entre o Cerrado e a Amazônia, com muitos exemplares da fauna presentes nesses ecossistemas.

O ano na Ilha do Bananal pode ser dividido pelos períodos da seca e da chuva, sendo que o primeiro período tendo seu ápice nos meses de agosto e setembro, e, outro período, nos meses de janeiro e fevereiro, época das cheias no rio Araguaia. É importante destacar que a cultural dos povos indígenas Karajá-Javaé está intimamente ligada aos ciclos naturais da Ilha do Bananal.

Atualmente, a Ilha do Bananal está dividida administrativamente e juridicamente em duas áreas indígenas e uma Unidade de Conservação, que são: Parque Indígena do Araguaia, ao sul (criado em 1971), Terra Indígena Inawébohonã (criada em 2006) e o Parque Nacional do Araguaia, na porção norte (criado em 1959). Vale destacar que parte da área do Parque Nacional do Araguaia está sobreposta pela Terra Indígena Inawébohonã. Por isso, o Governo Federal está fortemente presente na gestão administrativa dessa área. Portanto, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) é o órgão federal ligado ao Parque Indígena do Araguaia e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) faz a gestão do Parque Nacional do Araguaia. Recentemente, está sendo construído o  processo de gestão compartilhada da área sobreposta do Parque Nacional do Araguaia e da Terra Indígena Inawébohonã com envolvimento das comunidades indígenas, FUNAI e ICMBIO.

Do ponto de vista da divisão político-territorial relacionada à municipalidade, a área da Ilha do Bananal está inserida em três municípios do Estado Tocantins, que são: Formoso do Araguaia, Lagoa da Confusão e Pium. Por causa disso, as Prefeituras municipais são beneficiadas pelo repasse de recursos específicos do Governo Estadual como uma forma de compensação pela Ilha do Bananal.

Historicamente, do ponto de vista da cultura indígena dos Karajá-Javaé, a Ilha do Bananal está dividida territorialmente de forma diferente à divisão político-administrativa. As aldeias da Ilha do Bananal atuais estão organizadas de tal forma que se pode diferenciar no espaço esses índios que compõem a família lingüística Karajá, classificada genericamente no tronco lingüístico Macro-Jê.

As aldeias Karajá estão localizadas às margens do rio Araguaia, na porção oeste da Ilha do Bananal. Os Javaé, tradicionalmente, ocupavam a parte oriental da Ilha do Bananal, em ambas as margens do rio Javaés (ou braço menor do Araguaia) e os rios e lagos das margens oeste e leste do rio Javaés. Mas, nos tempos atuais ocupam apenas aldeias interioranas da Ilha, dispostas ao longo do rio Javaés e do Riozinho.

A separação entre o território Karajá e Javaé, dentro da Ilha do Bananal, é feita pelos rios Jaburu e Riozinho, que cortam a Ilha pelo meio, em sentido longitudinal. À oeste de ambos os rios, situa-se o território Karajá; o território Javaé corresponde às terras localizadas à leste do Jaburu e Riozinho.

A maioria das aldeias Karajá-Javaé ainda mantém a disposição espacial tradicional, baseada em uma oposição assimétrica entre uma ou mais fileiras de casas ao longo do rio, associadas à organização social desse grupo – o mundo feminino e das famílias extensas, e a casa dos homens, associada ao mundo masculino e ritual.

De maneira mais detalhada podemos dizer que a disposição interna de uma aldeia Karajá-Javaé é resultado de dois fatores.

O primeiro procede das famílias extensas. Ou seja, a família extensa, unidade social e política básica e mínima dos Karajá-Javaé, articulada em facções (descendentes de um grupo de irmãos, primos e outros parentes interligados entre si pelo casamento), estabelece um jogo de alianças que promove a ocupação do território em casas próximas, umas das outras, o deslocamento periódico de parte da população de uma comunidade a outra e o estabelecimento de novas aldeias. Cada aldeia é assim formada por uma série de parentelas, dispersas em casas habitadas por uma ou mais famílias extensas, cujo número varia de 7 a 10 integrantes. Cabe aqui esclarecer que uma família extensa Karajá-Javaé é constituída por um casal, pelos pais da mulher, seus filhos solteiros, filhas casadas e genros. Vemos que o genro passa a morar na casa do sogro e a trabalhar para ele (sendo esta a regra de residência pós-matrimonial). Com o nascimento do primeiro filho, uma casa é construída para a nova família, ao lado da anterior, de modo que o genro continue a prestar assistência aos pais da esposa, principalmente no que se refere à alimentação como forma de retribuição pela esposa recebida.

O segundo fator é dado pela delimitação simbólica do espaço físico (espaço masculino e espaço feminino) e política do território da aldeia. O centro da vida política da aldeia Karaja-Javaé é o lugar onde se aglutina a população masculina e compreende a “Casa dos Homens”. Da “Casa dos Homens” saem caminhos radiais que conduzem à aldeia e que definem, portanto, um maior espaço de circulação do público masculino dentro da aldeia. Os Karajá-Javaé estabelecem assim uma grande divisão entre os gêneros (masculino/feminino), que opera rigorosamente na rotina diária e se estende ao espaço interno da aldeia.

No presente, existem nove aldeias do subgrupo Karajá estão dispostas às margens do rio Araguaia, e são: Santa Isabel do Morro, Fontoura, Macaúba, Mirindiba, Tytema, JK, Itxalá, Axiwé e Watau.

Já, das doze aldeias dos índios Javaé, onze aldeias (Waritaxi, São João, Wari-Wari, Canoanã, Cachoeirinha, Barreira Branca, Boa Esperança, Txiodé, Barra do Rio Verde, Txuiri e Boto Velho) estão posicionadas às margens do rio Javaés (braço menor do rio Araguaia) e apenas uma delas (aldeia Imotxi) fica posicionada às margens do Riozinho no interior da Ilha do Bananal. Somente as aldeias Boto Velho, Wari-Wari e Txiodé estão localizadas na Terra Indígena Inawébohonã, todas as demais localizam-se no Parque Indígena do Araguaia.

A aldeia Canoanã é a mais antiga de todas as aldeias recentes do subgrupo Javaé. Ela surgiu, na década de 1950, a partir de conflitos entre os índios e alguns proprietários rurais. Assim, integrantes do subgrupo Javaé agruparam-se à 2 Km, rio acima, da sede da fazenda da Fundação Bradesco, local que se estabeleceram a aldeia Canoanã. Vale lembrar que nesse local anteriormente existiu a extinta aldeia Kanoanõ. Em 2005, a aldeia Canoanã possuía 60 famílias com aproximadamente 308 habitantes, em sua maioria do subgrupo Javaé (cerca de 272 pessoas). Podendo ser encontrado também 2 residências, contendo 16 pessoas, de indígenas Avá-Canoeiro, do Tronco Lingüístico Tupi Guarani e 4 residências com aproximadamente 12 indígenas da etnia Tuxá, além de 8 indígenas do subgrupo Karajá em 2 residências. A aldeia Canoanã mantém aspectos da tradicional disposição das casas em fileiras paralelas ao rio Javaés. Dessa aldeia surgiram todas as demais aldeias Javaé da Ilha do Bananal.

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Gurupi - TO, Setembro de 2009.


Giovanni Salera Júnior
E-mail: salerajunior@yahoo.com.br

Curriculum Vitae: http://lattes.cnpq.br/9410800331827187

Maiores informações em: http://recantodasletras.com.br/autores/salerajunior
Giovanni Salera Júnior
Enviado por Giovanni Salera Júnior em 04/09/2009
Reeditado em 05/12/2011
Código do texto: T1792932
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Giovanni Salera Júnior
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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