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O DIA EM QUE VÍ DEUS

O DIA EM QUE UM BOM AMIGO E UM FILME NACIONALME FIZERAM VER DEUS

“Pois a primeira chave da sabedoria é chamada interrogação. (...) Pela dúvida, somos levados a investigação e pela investigação conhecemos a verdade”
Sic et Non – Pedro Abelardo (1079-1142)

Ontem à noite, segunda, 9 de maio 05. Eu, vi, deus. Talvez, influenciado, pelo personagem Lúcio, do filme “Redentor” - fiquei pensando muito sobre que leitura deveria ou poderia ter do filme e tanto quanto ele, vi, deus (aquele mesmo em que não acredito existir) – Talvez, ainda, pela forte impressão que me causara a conversa, que horas antes, havia tido com Milton – não o filósofo – mas, o miltinho, Milton Roque, amigo de infância, convertido, cristão evangélico light, dono de uma boa conversa, divertido, com boa estrutura e de quase perfeito poder de convencimento.
Na conversa que travamos, miltinho, afirmou categoricamente que a existência maravilhosa do universo, tinha um autor e que este, era deus. Ele, como quase todos os que me cercam, sabe bem, que eu, não acredito, nesta linha de pensamento e crença. Evocou ele, então, a presença desse mito, cultuado historicamente pela maioria dos mortais desde sua mais remota existência , na força da beleza da natureza e em todas as tramas verbais que são possíveis, quando se prega o evangelho com esta força pessoal non sense. Como místico e ligado à ciência, falei das leis da física, buscando não estar tão distante do discurso dele – eu não queria radicalizar, como costumo fazer – e traduzi nas leis  físicas, a vida e existência do deus que Milton, trazia a vida, como uma forma de “energia”. Essa, mesma que liga as casas em luz e que energiza e alimenta a indústria, rádio,. tv e é produzida pelo homem e aquela que é proveniente da natureza, as mensuráveis e as imensuráveis e grotescas forças universais que engolem asteróides e espécimes de vida espaciais, borboletas do universo, poeira cósmica e estrelas mortas.
Milton, realmente disposto a me fazer enxergar com seus olhos - falou   que preferia canalizar, a dita energia, para um ser, ente – deus (por seu discurso Deus).
Avançando a conversa, para os Cátaros, Templários e outras formações histórico-cristãs, pseudocristãs e até mesmo anticristãs, como parecem ter sido tais primórdios de “heresias”, divergências e/ou convergências, oriundas da portentosa revolução místico-religiosa de cunho esotérico, hermético e exotérico, que antecederam, contemponeizaram e atropelaram o homem de Nazareth, seja lá, quem quer que ele tenha sido, Cristo ou João, do povo ou da nobreza – ou uma grande e bem articulada mentira de Paulo, aprofundada pela patrística cristã, que baseados em Platão e Aristóteles, nasceram do esforço filosófico de Santo Agostinho e Boécio (homem interior), São Thomas de Aquino (Suma Teológica),  e outros, “santos” ou nem tão santos assim ou mesmo da ousadia capitalista de Luthero ou Calvino – Milton, me chamou de “burro”, de brincadeirinha, riu ele voltando atrás de uma quase ofensa. Falou ele, que nada é a Igreja ou a religião, diante da grandeza de deus (lembrei-me do filme Stigmata, quando trata do evangelho apócrifo de Thiago).
À volta, o retorno e a vinda de Cristo, a Terra, que ironizei, seria mal vinda e que destruiria as religiões cristãs, a Igreja católica e as Evangélicas, pentecostais, neopentecostais  e tudo mais, foi posto abaixo pelas palavras apaixonadas e contraditórias de miltinho, que me fez ver deus por seus olhos e coração, quando falou da presença deste no amamentar, no nascer do sol, no vento e no riso de minha mãe regando as plantas em seu jardim...
Eu, vi deus, forçado, pelas palavras de miltinho. Eu, vi, deus, num clipe mental subjetivo e denso. Não senti a força de sua presença, apenas vi – deus.
Lembrei, disso e escrevi, instigado pelo filme, iluminado pelo tema: Os desafios e os acordos do filme poderiam ser uma alusão a Fausto, dias de fogo do Rio de Janeiro ou a outra obra qualquer que eu não conheça ou tenha alcançado. Talvez, mais uma oportunidade de me curvar aos pés do senhor deus ou quem sabe de tirar meu amigo do deserto da fidelidade cristã?...
Vi deus, a contradição e a verdade. Não consigo me livrar do Deserto do Real...No filme havia o instinto coletivo a reinar, em Milton, a crença e a fé. Nada de mal nisso. O “Sacrifício do Intelecto”, tem salvado tantos amigos e outros tantos  ilustres desconhecidos que tratar da razão menosprezando os sentimentos verdadeiros é pensamento e sentimento frouxo.
Eu vi um filme contraditório e maluco. Eu estive envolvido em uma conversa contraditória e maluca, Eu vivo em um mundo contraditório e maluco. Há nele, reinando, um deus, contraditório, capital e maluco.
Para mim, farinhas do mesmo saco, somos a imagem e semelhança do projeto de religião, igreja e verdade cristã, que a poucos interessa. Está nas palavras, a prova e a dita salvação. A contradição está na verdade que se busca – a realização pessoal é a benção tão esperada, que se prega e pede – realiza-se no Self Made Man ou no American Way of Life, ações calvinistas e puritanas exportadas a ferro e fogo para o ocidente a custas do Espírito da Dádiva e da verdade.

Será que vi mesmo deus? Ou vi a imagem perfeita a que se correlaciona seu signo, para que o assim seja, seja, bonito como é uma conversa com miltinho ou o ato diário de regar as plantas realizado por minha mãe, visto numa espiadela pelo muro de minha casa?
Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 23/05/2005
Reeditado em 23/05/2005
Código do texto: T19159
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11981 leituras)
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Sylvio Neto