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A Saga de Maximiliano

                              "Ser criminalista é devoção,
                             arrebatamento, desprendimento"
                                  (Paulo José da Costa Jr.)



Quarta-feira, 04 de outubro de 2000. Camisa amarela, cabelo bem cortado, cor melanoderma (negro, em outras palavras), olhos perdidos em busca de um horizonte, vagando em meio a tantos questionamentos.

É Maximiliano, oriundo de uma família de classe média, residente, desde seu nascimento, numa cidade do interior da Bahia. Seus pais (ele, ligado ao comércio de madeira; ela, dona de casa, de forte formação religiosa) não lhe deixavam faltar nada, tanto no âmbito afetivo quanto no material, circunstâncias contidas nas palavras do próprio Maximiliano. Seus irmãos, 2 homens e 3 mulheres, o mais velho no auge da juventude e o caçula rompendo a adolescência (Maximiliano é o antepenúltimo filho na linha cronológica), de igual forma, mantinham um bom relacionamento familiar com ele.

Seu pai, indivíduo honesto e trabalhador, propiciava à família uma vida digna de classe média, com temporadas de veraneio, viagens ao longo do ano, etc. Sua mãe, respeitável senhora de cultura mediana e de religiosidade intensa, não deixou de lhes transmitir ensinamentos bíblicos, sempre a convidar seus filhos para participarem da congregação à qual fazia - e faz - parte. Maximiliano, entretanto, nunca foi muito afeito à idéia de freqüentar Igreja e manter compromisso religioso. Com seus pais sempre manteve uma convivência sem maiores problemas, como qualquer outro filho.

Nascido no final da década de 70, Maximiliano estudou até a 5ª série, interrompendo sua vida escolar, esta sempre em colégio privado, quando contava 17 anos de idade. "Só ia pra escola brincar. Não tinha planos pra o futuro", frisou. Nunca foi dado a assistir filmes, ler livros, quando muito lia jornais. Não vivenciou a experiência de votar, até porque não possui título de eleitor. Deixado o ambiente estudantil, trabalhar com o pai foi o caminho seguinte a ser percorrido diante da falta de interesse em permanecer trilhando pelos estudos.

Com dinheiro no bolso, viajar aos finais de semana com os amigos, os quais dispunham de carro próprio (eram classe média também), curtir festas, namorar bastante, tudo isso fazia parte do cotidiano de Maximiliano. Beber, tudo bem, mas usar drogas não. Este era o seu lema.

Por volta dos 20 anos, ao saber de uma tentativa de invasão em sua residência, comprou uma arma de fogo para defender a si mesmo e a sua família. Acredita não ter sido influenciado por nenhum amigo para vir a adquirir a arma, pois seu intuito era o de, apenas, proteger sua mãe que ficava muito em casa e, na maioria das vezes, sozinha. Salienta ele que, malgrado tenha comprado um revólver, até a presente data, jamais efetuou um disparo sequer.

Nesse sentido, segundo Maximiliano, foi pela primeira vez detido quando portava a referida arma, sendo liberado em seguida. "Acho que fui denunciado por alguém do bairro que devia ter inveja, porque eu tinha revólver e os outros não", disse. Muito embora tenha feito tal assertiva, asseverou não possuir inimigos, mas que deveria existir alguém que não gostasse dele. Já chegou, inclusive, a ir a algumas festas armado, não utilizando, porém, o revólver.

Ao completar 21 anos, recebeu do pai, como presente, devido à chegada da maioridade, uma moto zero quilômetro, um grande sonho para muitos, todavia, realizado por poucos. A moto lhe serviria como mais um trunfo em seus fins de semana de agitação.

Apaixonado pela namorada que mantinha há pouco mais de um ano, Maximiliano, então aos 22 anos, saiu de casa para morar com ela, que estava gestante, aguardando uma filha sua. Foi pai antes do fatídico dia que marcou, de forma ímpar, a sua existência.

Em certo dia do mês de agosto de 1999, fazendo valer os misticismos e superstições de mau presságio que pairam sobre o mencionado período, ao sair em companhia de quatro amigos, dois deles menores, foi convidado por estes, consoante entrevista, para ir a uma cidade próxima da que reside. Maximiliano, inopinadamente, aceitou. Conforme faz questão de ressaltar, não sabia que ao chegar nas cercanias de um hotel, localizado numa das principais avenidas da cidade, aconteceria o que passa a relatar, ipsis verbis:

"Dos meus quatro amigos, três tavam armados. Aí a gente, na frente do hotel, tomou o carro do rapaz que tava dirigindo. Eu não tava armado, então só fiz acompanhar, e entrei no carro. Fui sentar no banco de trás. Os que fizeram quase tudo eram de menor. Foi aí que a gente partiu pra outra cidade (S.), mas quando a gente foi de S. pra B., tinha uma blitz na estrada. O cara que tava dirigindo tentou fazer a volta, mas aí a policia mandou bala, matando um amigo nosso. Aí todo mundo se rendeu".

Detido em S., Maximiliano e seus amigos, exceto os menores, de acordo com suas palavras, foram denunciados como incursos nas penas dos arts. 157, § 2.º, incs. I e II, e 288, parágrafo único, do Código Penal. Em setembro de 1999, foi transferido para uma penitenciária, tendo sido condenado a 5 anos e 4 meses de reclusão em regime semi-aberto.

Após um ano, um mês e dois dias recluso (contagem feita por ele próprio, ressaltando os dias), Maximiliano define a prisão como um inferno. Diz ser hoje leitor da Bíblia, além de freqüentar cultos religiosos (há, no próprio estabelecimento prisional, uma capela mantida pela Igreja Universal do Reino de Deus). "O mundo é enganador", diz ele. Ratifica isso quando se recorda que há pouco tempo tinha tudo: mulher, casa, moto, amigos, uma família, uma vida. Hoje, depois de ter "caído" - expressão que se habituou a utilizar - a mulher o deixou, sua casa tem sido a cela que divide com outro interno, e amigos, lá dentro não existem.

Espantados. Assim ficaram os familiares de Maximiliano, ao saber do crime. Diziam eles que não havia necessidade. Por quê? Era essa a pergunta que lhes vinha à mente e ecoava ao longe. De igual forma, essa é uma de nossas perguntas.

Ao ser indagado pelos seus pais por que fez isso, ficou emocionado, não conseguindo conter as lágrimas, embargando a voz que teimava em não sair.

Maximiliano afirma já ter pendurado as chuteiras. De maneira interessante, crê que tudo ocorreu dessa maneira por nunca ter passado por dificuldades na vida, por sempre ter conseguido aquilo que queria. Dinheiro, mulheres, moto. "Vivia só na vida boa. Por isso que tô nessa", salienta. No tocante aos seus amigos, poucos enveredaram para o mundo do crime.

Desmistificando o que se propugna por aí, mesmo possuindo somente o 1º grau completo, Maximiliano fala com muita propriedade acerca da discriminação existente contra os pobres, dos privilégios concedidos aos ricos, mais precisamente os vulgarmente conhecidos como "filhinhos-de-papai", que cometem atrocidades, se drogam, comercializam ilegalmente carros, traficam drogas e entorpecentes, mas, ao chegarem na penitenciária ou na delegacia (quando chegam), são liberados imediatamente. Isso sem se falar nos criminosos de colarinho branco que assolam o País sem que nada lhes aconteça. Altamente lúcido você, Maximiliano.

Na sua forma de entender, a prisão não recupera ninguém. Olhando ao redor da sala em que era realizada a entrevista, obrigando-me a percorrer com os olhos e sentimentos cada canto daquele recinto, o qual nos separava por uma grade, destacando, por conseguinte, os nossos mundos, indagou-me, secamente: "você acha que isso aqui conserta alguém?". Segundo Maximiliano a prisão piora o indivíduo, pois se aprende mais lá dentro, transformando-se, assim, numa verdadeira escola. Com muita convicção, asseverou:

"Quem tem família se arrepende, pensa em mudar. Quem não tem fica mais revoltado só maquinando o que vai fazer quando sair daqui, e aí continua".

Diferentemente de outrora, Maximiliano pensa no futuro. Quer trabalhar quando sair da prisão (já tem emprego certo numa empresa, oferecido por um parente), cuidar de sua filha impúbere (sonha em vê-la exercendo a medicina) e reconstruir a vida. Acredita que em breve sairá da instituição prisional, em face de boa conduta mantida, almejando, dessa forma, o livramento condicional.

Observar que todos que lá se encontram recolhidos contam o passar dos dias com ansiedade não é figura inédita. A contagem dos dias serve como alento, como paliativo para diminuir, em doses homeopáticas, o tempo de permanência naquele lugar. Fatalmente a frase do escritor Roberto Shinyashiki deve ajustar-se-lhe como uma luva: "a vida é uma seqüência de dias vazios que precisamos preencher".

Com a prisão, Maximiliano percebeu quão importante é a liberdade, essa que nós muitas vezes não conferimos o devido valor. Análise basilar para ele é a diferença existente entre as pessoas, "umas aprendem rápido, outras não", e, em virtude disso, as chances devem continuar sendo oferecidas.

Maximiliano afirma que seu coração clama por uma nova vida. Uma vida em que possa ganhar dos homens algo que Deus lhe concedeu e os homens, por seu turno, lhe privaram: A LIBERDADE.



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(*) Maximiliano é nome fictício.

Texto elaborado a partir de entrevista concedida por Maximiliano ao autor, em decorrência de atividade de extensão da disciplina Criminologia, ministrada pela docente Marília Lomanto Veloso.
Danilo Andreato
Enviado por Danilo Andreato em 19/01/2005
Código do texto: T1944
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Sobre o autor
Danilo Andreato
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
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