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PEQUENO ENSAIO SOBRE O SILÊNCIO ( I )

Uma página em branco e nada me vem a cabeça a não ser o silêncio. Ausência completa de som, ruído. Nada. Um vazio tão grande, mas que parece preencher tudo o que existe a minha volta. Sem qualquer inspiração aparente; escrevo. Não tenho dores de amores mal vividos, não tenho grandes crises existenciais. Já escrevi sobre as saudades que sinto e sobre as idades do homem. Não escrevi ainda sobre o silêncio. A ausência de palavras que incomoda os mais inquietos, perturba os ansiosos. Mas será afinal, tão ruim o silêncio? Será tão desnecessário e aterrador?

O silêncio, diriam os músicos, é essencial. A pausa entre os sons, o intervalo entre as notas. O silêncio dita os ritmos, dá o tempo certo dos compassos. Sem o silêncio; mesmo que breve, as vezes imperceptível e tão menosprezado, a música não seria nada; não seria música e sim um turbilhão interminável de sons e mais sons; que sem parada, tirariam o sossego da gente. Uma vírgula na fala, uma pausa no raciocínio. Ausência de palavras, que as vezes necessária, evita dores, frases que machucam o coração de quem ouve. Quantas vezes dizemos coisas das quais nos arrependemos logo em seguida. No calor de brigas e discussões, guiados pelo desejo cego de provarmos nossos argumentos, deixamos o silêncio de lado e usamos todas as palavras que conhecemos, nos repetindo, desconexos, sem sentido.

Quantos momentos preciosos de nossas vidas não silenciamos na hora certa. Tantas vezes perdemos oportunidades únicas de preencher o vazio com um olhar, um sorriso e não palavras. O silêncio diante da arte. Silêncio preenchido por sensações, impressões, lágrimas e as vezes risos. O silêncio da alma, emanando paz, harmonia, amor. O silêncio de um beijo que sela uma união. O silenciar de dois lábios que se fundem, acalmando ânimos aflitos, raciocínios desnecessários. O silêncio de duas bocas que não querem palavras a esmo ou frases feitas, de letras de música, de velhos romances carcomidos pelo tempo. O silêncio dos amantes que só é rompido pelo som do prazer, pela música sublime do desejo.

 O silêncio faz parte de nosso mundo e não damos valor algum a ele. Estamos a todo momento interrompendo, quebrando, violentando o silêncio com nossos barulhos, nossos gritos, ordens, palavras de violência. Não paramos para ouvir, quiçá apreciar a sinfonia do silêncio, a beleza de estar calado, a delicadeza e importância do vácuo sonoro que se faz em nossas vidas algumas vezes.

Silenciar é saber ouvir, saber acalmar a mente e buscar equilíbrio. Silenciar é dar amor e receber afeto e carinho. Silenciar é dar espaço as palavras certas, em momentos certos. Silenciar é sentir e não traduzir, interpretar, racionalizar.

De uma página em branco fez-se um pequeno ensaio sobre o silêncio. De minha falta de inspiração surge uma pequena nascente límpida, um veio de água cristalina que corre e ganha corpo. Do silêncio de minhas palavras brotam reflexões, que pedem licença e ocupam espaço precioso no silêncio de quem me lê.


Mari Mérola
Enviado por Mari Mérola em 14/08/2006
Reeditado em 09/01/2007
Código do texto: T216557
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Sobre a autora
Mari Mérola
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Mari Mérola