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Investindo em mortes

As mortes, quando feitas em nome de uma causa nobre, deixam de ser um custo e  se convertem em investimento a dar frutos no futuro, são como ações de companhias bem sucedidas, especialmente se ocorrem durante uma guerra pretensamente libertária.

Pois as guerras, assim como os homens, têm um caráter bem definido. Para os soviéticos, a segunda guerra mundial era conhecida como a grande guerra patriótica, e os ideólogos do comunismo gastaram muita tinta e papel para defini-la como guerra de libertação nacional.

Foi, no entanto, uma guerra de partilha do mundo, uma verdadeira guerra imperialista, e a divisão foi feita em função dos sacrifícios, contabilizados em perdas materiais e de vidas de soldados que cada lado investiu no conflito, a morte aparecendo como um capital a render frutos no pós-guerra.

Mas também pode ser vista como o fato gerador da ONU, um movimento de organização das forças racionais da humanidade, de uma humanidade que teima em se fazer, em meio aos conflitos e aos desentendimentos étnicos e culturais.

Assim, o caráter de uma guerra, apesar de bem definido, pode ser múltiplo, dependendo do ponto de vista de quem a está vendo ou sentindo.

Há quem goste de matar. O senhor G. W. Bush, foi o governador que mais mandou executar condenados à morte, não aceitando apelações ou pedidos de clemência, durante o seu reinado no Texas, cerca de quinhentos. Aparentemente, ele preza muito a lei, e mata em nome da lei e dos bons costumes, com muita facilidade, sem que isso seja capaz de atrapalhar o seu sono, exerce a sua autoridade em nome do povo que o elegeu, sem titubear, pois deve achar que uma morte feita por uma causa nobre é plenamente justificável. A causa nobre, no caso, é a manutenção da lei e da ordem pública. Quantos de nós, brasileiros, ao verificar a crescente desordem social e aumento da criminalidade em nosso país, não nos perguntamos se não seria essa a solução para os nossos males? Será? E quantos de nós, já não resolvemos tal questão com um peremptório não à pena de morte, pois temos convicção de que ela não resolveria os nossos problemas, que tem raiz em outra parte?

É hoje lugar comum afirmar que as motivações americanas para a guerra são o petróleo e as armas, muito mais do que a sua segurança interna, e, de fato, W. Bush e o vice-presidente, Chenney, são personagens extremamente comprometidas com as indústrias da energia e dos armamentos, e que, efetivamente, W. Bush não acatou o Protocolo de Kioto, de limitação das emanações dos gases do efeito estufa, essa sim, uma tremenda arma de destruição em massa que ameaça o planeta, no futuro, o que implica na redução da queima de combustíveis fósseis, e portanto, na redução do consumo do petróleo, e que todos esses mísseis e foguetes inteligentes que foram e estão sendo queimados no Oriente Médio, representam um enorme custo social para o povo americano e para o povo do mundo, foguetes esses que já estão fabricados e pagos pelo governo americano, com dólares que eles podem fabricar à vontade, inundando o mundo de papel moeda em excesso, o que coloca em risco todo o sistema econômico-financeiro mundial. Observar que a queima dos estoques de armamentos propiciará a colocação de novos pedidos e contratos de bombas cada vez mais inteligentes e de muitos lucros para a indústria de armamentos, e encomendando a guerra do futuro.

Se toda essa despesa com bombas e equipamentos fosse despejada na sociedade mundial na forma de recursos para o desenvolvimento, talvez não houvesse necessidade de guerra. Mas aí, os lucros não iriam para a indústria de armamentos.

Será que é inteligente continuar a queimar mísseis e petróleo?

Do outro lado, temos um grupo, também, extremamente belicoso, que, igualmente, encontra causas nobres para matar e morrer, e que está investindo em mortes.

E, em conseqüência, desenha-se como resultado das guerras: o fim da ONU e da idéia da criação de uma humanidade solidária, o fim da idéia de globalização, a desvalorização do dólar como moeda de reserva, a recriação dos blocos econômicos e políticos rivais, a continuação do modelo energético baseado em combustíveis fósseis, o incremento do efeito estufa, o incremento das ações de terrorismo e das ações de repressão ao mesmo, um admirabilíssimo mundo velho!


Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 12/09/2006
Reeditado em 12/09/2006
Código do texto: T238353

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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