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Análise do romance “Senhora” de José de Alencar

Análise do romance “Senhora” de José de Alencar

Por: Ana Angelica de Souza Pinto

O seguinte trabalho tem como finalidade a análise do romance Senhora de José de Alencar, ressaltando alguns pontos que para mim foram importantes. Começo com esta pequena introdução, contando sobre Alencar e dando continuidade com alguns trechos do romance com mais alguns comentários.

O autor é a força redentora do romance que é capaz de recuperar o caráter de um homem dominado pelo capitalismo. A sua protagonista, Aurélia, é o sujeito de todo o decorrer do romance, é ela quem dá as ordens, travando uma batalha – embora tenha sido duro para ela – contra o casamento por interesse, resultado de uma sociedade machista e materialista, o que no decorrer do trabalho será comprovado.

Espero que o leitor possa ler e compreender os pontos levantados neste trabalho.

José de Alencar

José de Alencar é um dos nossos mais importantes ficcionistas, pertencente ao romantismo, época de valorização do que é nacional. Cria romances influenciados nos exemplos europeus, mas com conteúdo brasileiro.

Embora não tenha desenvolvido a técnica de criar romances urbanos aprimora-os em suas obras, destacando-se na literatura com este gênero. Ele descreve a nossa vida brasileira do segundo reinado, os “quadros da sociedade” e os “perfis femininos”, o vocabulário e o cotidiano burguês (teatros, saraus, valsas, etc.), reafirmando o ideário do mesmo. Por ter na sua maioria leitores femininos e pertencer à época romântica, era de suma importância que os romances tivessem um “happy end”.

Devido a insatisfação de Alencar para com sua sociedade ele vai através de suas obras demonstrar isso, desmascarando certos costumes da época. No caso do romance, Senhora, a compra de um marido e o casamento por interesse, por isso há em suas obras um relato da vida brasileira.

A obra

O romance conta a história de Aurélia, uma menina pobre que se enamora por Fernando Seixas que também não tinha muitos bens. Vê-se abandonada, ou melhor, trocada por um dote de certa mulher, Adelaide do Amaral, que Fernando se dipôs a casar unicamente pelo dinheiro. Para sua surpresa e bem, Aurélia herda uma fortuna que seu avô deixara tornando-se rica e muito poderosa. Dispondo deste poder oferece uma quantia maior e “leva” Fernando, sendo que, este desconhecia a futura noiva. Quando soube da identidade dela fica contente por ter sido ele o escolhido por tão cobiçada mulher, porém desconhecia as reais intenções de Aurélia.

Neste romance Aurélia é quem conduz a história, ora atraindo o leitor para o seu lado ora instigando neste um repúdio para com suas ações. O narrador de Senhora faz com que nós, leitores, fiquemos a par de todos os acontecimentos antes mesmos dos personagens, o que permite um julgamento prévio e talvez justo com ambas as partes. Os personagens por sua vez, só descobrem os motivos e razões do comportamento do outro na hora da ação.

Acredito que a forma com que é narrado o romance, já é uma marca que diferencia Alencar dos seus colegas. Ele começa com o meio da história quando fala do lançamento de Aurélia na corte até a proposta de um dote superior proposto por ela a Fernando, depois volta ao início da história quando é narrada a vida difícil de Aurélia até a herança recebida do avô que a torna rica e por último o fim da história.

O romance começa destacando um dos costumes da época: aparecer e brilhar diante da alta sociedade quando em idade de casar:

             “Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade, não conheciam e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande novidade do dia”. (S. p.155)

Esse tipo de costume tinha o propósito de fazer com as jovens fizessem exposição de suas figuras para que ficassem conhecidas, no entanto, isso só era possível para as moças que fossem ricas e, lógico, que possuíssem “dotes” que chamassem a atenção.  Além do dinheiro, Aurélia possuía autonomia, indignação e inteligência, o que fazia com que a sua figura fosse interessante aos olhos da sociedade.

                     “(...) a moça não declinava um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse”. (S. p. 155)


Aurélia rompe as tradições onde as mulheres não têm vez e nem voz e mostra-se dona de suas opiniões e vontades com muita firmeza e certeza do que queria. A indignação de Aurélia para com a sociedade seria um reflexo da de Alencar, as desilusões, as suscetibilidades, o orgulho ferido, a superioridade de inteligência amesquinhada pelo meio que levam à atitude de arrogância e desprezo, patentes no processo de desmascaramento da sociedade que não lhe tributou as homenagens e reverências de que se julgava merecedor. As suscetibilidades de Aurélia era contra-espelho das suas,   como fala José Carlos Garbuglio, que fica claro nessas passagens:

      “As revoltas impetuosas de Aurélia eram justamente contra a riqueza que lhe servira de trono e sem a qual nunca por certo apesar de suas prendas receberia como rainha desdenhosa a vassalagem que lhe rendiam”.  (S. p.156)

Revoltada com a sociedade machista a que pertencia primeiro porque esta a excluiu quando pobre e agora a exaltava por causa da sua herança, Aurélia mostra seu desprezo pela mesma:

  “Esquece que desses dezenove anos, dezoito os vivi na extrema pobreza e um no seio da riqueza para onde fui transportada de repente. Tenho duas grandes lições do mundo: o da miséria e o da opulência conheci outrora o dinheiro como um tirano, hoje o conheço como um cativo submisso”. (S. p. 165)

Essa mulher que existia em uma simples garota de dezenove anos, apenas pode-se explicar pela difícil vida que teve e por isso, o amadurecimento precoce. E como ela fala dezoito anos de sua vida são vividos com muita dificuldade e pouco dinheiro, sendo que por este motivo ganhara apenas as costas da sociedade e um ano vivido na opulência, o que permitiu os mais audaciosos desejos. Sua condição de rica, portanto, não mudou o caráter nem os sentimentos, mas suas ações que eram friamente raciocinadas:

        “A riqueza que lhe veio inesperada, erguendo-a subitamente da indigência as fastígio, operou em Aurélia rápida transformação não foi, porém, no caráter, nem nos sentimentos que se deu a revolução: estes eram inalteráveis, tinham a fina fendera de seu coração. A mudança consumara-se apenas na atitude, se assim nós podemos imprimir, dessa sua alma perante a sociedade”. (S. p. 222)

Por isso avaliava todos os seus pretendentes dando-lhes não qualidades, mas valores monetários. Quanto mais alta a quantia, possivelmente, se teria a chance de um “bom” casamento:

“É um moço muito distinto, respondeu Aurélia sorrindo; vale bem como cem contos de réis, mas eu tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia não me contento com este”. (S. p. 242)

Neste trecho do romance é comprovado que Aurélia era uma mulher aquém de sua época. Aspirara-se das mulheres do século XIX a fragilidade, o recato e a prevalência do emocional sobre o racional, enfim um estado de completa submissão. Contrapondo-se a todas essas características, Alencar cria um personagem atípico com forças para lutar por seus objetivos. Dotada de uma grande inteligência, Aurélia tinha o perfil diferente do esperado para uma mulher do seu tempo:

“Era realmente para causar pasmo estranhos e susto a um tutor a perspicácia com que essa moça de dezoito anos apreciava as questões mais complicadas e perfeito conhecimento que mostrava dos negócios e a facilidade com que fazia muitas vezes de memória, qualquer operação aritmética por mais difícil e intricada que fosse”. (S. p. 164)

Inteligente como era, Aurélia causava inveja a quem fosse, característica difícil de ver naquela época em uma figura feminina. Não que as mulheres fossem desprovidas de inteligência, mas sua cultura não lhes permitia o aprimoramento de seu intelecto.

Hoje as mulheres já conquistaram muito espaço no mercado de trabalho, o que antes era impossível, pois o lugar das mulheres era em casa tomando conta dos filhos e maridos. As mais ousadas assim podemos dizer, as que iam a luta para garantirem o seu alimento, moradia, vestimenta e outros eram mal interpretadas por quererem igualar-se aos homens.

 A Aurélia de Alencar, de certa forma, igualou-se a um homem por ter a habilidade para os negócios e contas, o que fez dela uma mulher especial, distinta e invejável perante as outras.

A mulher no Brasil colônia, em especial aquelas dotadas de riquezas, eram vistas como uma possibilidade de ascensão social para o homem que fosse pobre, mas inteligente, se fizesse com que a dama não resistisse a sua corte, de manutenção dos bens nas mãos da burguesia ou para dar continuidade ao nome do marido através dos filhos. A classe feminina pobre era vista como um objeto de exploração sexual quando eram usadas para satisfazer o desejo sexual e o prazer dos homens e de exploração braçal na realização de trabalhos domésticos.

Assim, temos na figura de Lemos, tio de Aurélia, a representação dessa classe masculina que abusava das mulheres, quando este se aproveitando da possível condição de menor “abandonada” de Aurélia, pelo fato de sua mãe estar acamada e com fim de sua vida, põe-se a disposição para tornar seu cafetão quando esta se encontrasse sozinha no mundo com um irmão mais novo que ela.

“O velho acreditou que a sobrinha, como tantas infelizes arrebatadas pelo turbilhão, estava a espera do primeiro desabusado, que tivesse a coragem de arrancá-la da obscuridade onde consumiam os desejos e transportá-la ao seio do luxo e do escândalo apresentou-se pois francamente, como empresário desta metamorfose, lucrativa para ambos e acreditou que Aurélia tinha bastante juízo para compreendê-lo.” (S. p. 207)

Aurélia dignamente não revela as intenções do tio e nem a sua aproximação para sua mãe, como se pudesse adivinhar sua virada, guarda a carta para uma possível necessidade de “chantagear” ou simplesmente de exigir desculpas de seu tio pelas suas más intenções. Um tipo de chantagem é notado quando Aurélia revela ao tio sua vontade de casar e este lhe nega a permissão, que por ser menor de idade precisava de sua autorização por ser seu tutor.

“Senhor Lemos, disse a moça pausadamente transpassando com um olhar frio, mostrando que tenho capacidade para reger minha pessoa e bens; com maioria de razão obterei do juiz de órfãos apesar de sua oposição, um alvará de licença para casar-me com quem eu quiser. Se estes argumentos jurídicos não lhe satisfazem apresentar-me hei a um que me é pessoal.” (S. p. 165)

Uma qualidade ou defeito de Aurélia, ficando a critério de leitor, é a frieza com que tratava de certos assuntos, dentre esses, o seu casamento, momento pelo qual é esperado pelas mulheres, ainda nos dias de hoje, inevitavelmente com muita expectativa:

“Tomei a liberdade de incomodá-lo, meu tio, para falar-lhe de objeto muito importante pra mim (...) de meu casamento! Disse Aurélia com maior frieza e serenidade”. (S. p. 164)

O que seria um momento desejado fervorosamente por qualquer mulher, a realização de um sonho, ela considera o mesmo como um negócio e ao fechar o contrato impõe algumas condições que deveriam, impreterivelmente, serem seguidas sem questionamentos:

“Os termos da proposta devem ser estes, atenda bem. A família da tal moça misteriosa deseja casa-la com separação de bens, dando ao noivo a quantia de um conto de réis de dote”. (S. p. 167)

Voltemos agora para Fernando Seixas. Apesar de não ser rico, Seixas vivia na sociedade utilizando de todos os prazeres que esta podia lhe proporcionar, possuindo bens que só ricos poderiam ter.

“Sobre um dos aparadores tinham posto uma caixa de charutos de Havana, na marca mais estimada que então havia no mercado. Eram regalias como talvez só saboreavam nesse tempo os dez mais puros fumistas do império. (S. p. 169)

A educação, a elegância e a nobreza eram características internas e externas de Fernando Seixas que não condiziam com sua real condição, pois o mesmo vivia em dificuldades e apertos, que para ele eram inevitáveis, para estar a par dos acontecimentos sociais de mais prestígio da época:

“Se o edifício e os móveis estacionários e de uso particular denotavam escassez de meios, se não extrema pobreza, a roupa e os objetos de apresentação anunciavam um trato de sociedade como só tinham cavaleiros dos mais ricos e francos da corte”. (S. p. 169)

Fernando Seixas ao ficar noivo de Aurélia, isso ocorre antes da virada que houve na vida de Aurélia, ou seja, quando ela ainda era uma moça desprovida de posses, pensa na dificuldade que seria para sustentar a si e a Aurélia no luxo exigido pela sociedade, já que morando só suportava os problemas, mas ao lado de Aurélia já não tinha tanta certeza:

“Calculou-se os encargos materiais a que ia sujeitar-se para montar a casa e mantê-la com decência. Lembrou-se de quanto avulta a despesa com vestuário de uma senhora que freqüenta a sociedade e reconheceu que suas posses não lhe permitiam por enquanto o casamento com uma moça bonita e elegante, naturalmente inclinada ao luxo que é a flor dessa borboleta de asas de seda e fule”. (S. p. 212)

Por ter semelhantes pensamentos, Fernando era um homem bom e tinha princípios, indignara-se consigo por não “poder” abandonar seus luxos para casar-se com Aurélia, que certamente sofreria pelo fato citado:

“Quando Fernando convenceu-se que poderia casar com Aurélia, revoltou-se contra a si próprio. Não perdoava a imprudência de apaixonar-se por uma moça pobre e quase órfã, imprudência que pusera remoto o pedido de casamento”. (S. p. 213)

Fernando, ao contrário de Aurélia, não estava disposto a casar-se e enfrentar todas as dificuldades que a vida certamente lhes proporcionaria por falta de bens de ambas as partes. Ele não via nesse casamento a possibilidade de ascensão e consequentemente, a melhoria de vida desejada:

“O casamento desde que não lhe trouxesse posição brilhante e riqueza era para ele nada menos que um desastre”. (S. p. 217)

Por isso ele nega e rejeita o amor de Aurélia por um outro tipo de amor, o amor pelo dinheiro, o dinheiro do dote que receberia pelo casamento com uma outra mulher, que seria sua salvação e de sua família.

Alencar foi muito audacioso e feliz ao criar um personagem que fica órfã e milionária. Isso dá a Aurélia liberdade para agir conforme sua vontade dentro do romance. Uma mulher que desdenha a sociedade contrapondo-se à velha e tradicional educação brasileira, onde a mulher era educada para dizer “sim senhor” e “não senhor”, como afirmam alguns críticos quando falam que Aurélia, em certo momento, foi vítima da sociedade quando despossuída de bens e em um outro o sujeito que vitima a sociedade quando possuidora do capital que tanto era valorizado na época.

Aurélia através de Lemos, seu tio, propõe a Fernando, além de determinadas condições, um dote superior àquele que o fez abandoná-la, e novamente pensando no seu bem estar, Fernando aceita o convite tendo uma única preocupação: os dotes físicos da futura noiva:

“Seixas dirigiu-se ao velho uma serie de interrogativas acerca da idade, educação, nascimento e outras circunstâncias que lhe interessavam”. (S. p. 181)


Quando Fernando descobre quem é a noiva, pobre Fernando não sabia o que o esperava, fica contente por ter sido ele o escolhido por aquela que da noite para o dia tornara-se objeto de adoração por todos. Ela queria mostrar a Fernando que o dinheiro pode elevar ou diminuir uma pessoa de ser um humano a apenas um objeto e vice-versa. No dia do casamento, Aurélia estava ainda mais bela do que nunca, e todos, inclusive Fernando notaram isso. Alegaram toda essa beleza à força do amor, sentimento que transforma as pessoas:

“Os convidados que antes lhe admiravam a graça peregrina, essa noite a achavam deslumbrante e compreendiam que o amor tinha colorido com tinta de sua palheta intimável da já tão feiticeira beleza envolvendo-a de irreversível fascinação.” (S. p. 194)

Na noite de núpcias supunha-se que o casal se amaria, eis a grande surpresa, pois é quando Aurélia revela a Fernando o real intuito de seu casamento: ensinar-lhe uma grande lição, falando da condição de cada um deles nesse pseudo-matrimônio:

“(...) Entremos na realidade por mais triste que seja , e resigne cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.” (S. p. 199)

Reafirmando, no trecho a seguir, o seu lugar de compradora e o de Fernando de objeto comprado no mercado matrimonial, Aurélia sem cerimônias profere duras palavras:

“(...) Vendido sim: não tem outro nome, sou rica muito rica, sou milionária precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado, comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato, não se fez vale. Eu daria o dobro, o triplo toda a minha riqueza por este momento.” (S. p. 199)

O momento aguardado por todo e qualquer homem, o de possuir sua esposa tornara-se para Fernando o pior de todos. Foi neste instante que ele descobriu as reais intenções de Aurélia que deixa clara sua nova posição de homem: um objeto comprado. A principal revolta de Aurélia contra Fernando foi por causa da troca que ele fizera do seu amor por um simples dote:

“Mas o senhor não me abandonou pelo amor de Adelaide e sim pelo seu dote, um mesquinho dote de trinta contos”. (S. p. 225)

Entregando a Seixas o montante do dinheiro que ainda faltava, Aurélia finaliza o ato da compra:

“É o tempo de concluir o mercado. Dos cem contos de réis em que o senhor avaliou-se, já recebeu vinte, aqui tem os oitenta que faltavam. Estamos quites, eu posso chamá-lo meu marido, pois é este o nome de convenção”.(S. p. 225)

Seixas diante de todos aqueles acontecimentos esmaga, naquele instante, toda a estima que sentia por Aurélia, pois apesar de sua personalidade capitalista ele nutria um verdadeiro sentimento por ela, só não foi capaz e nem teve a coragem de honrá-lo, deixando de lado as coisas materiais.

“É verdade que a amei, mas a senhora acaba de esmagar a seus pés esse amor, que aí fica para sempre sepultado. (S. p.226)

Diante de tal humilhação, Seixas nega o amor que sentia por Aurélia, que é restabelecido ao final, como qualquer obra romântica. Daí por diante, Fernando, como é relatado por críticos, se reeduca e reavalia os seus conceitos e pode redefinir seus objetivos como o de comprar sua liberdade de volta.

“A mudança que se havia operado na pessoa de Seixas depois de seu casamento, fez-se igualmente sentir sua elegância.” (S. p. 224)

A vida deles foi uma contínua atuação teatral perante a sociedade que lhes conduziram a tal situação. A convivência e a recusa de Aurélia por Fernando o moldaram como um artista molda a argila de acordo com sua vontade, e Aurélia via ressurgir a figura que primeiramente tinha amado:

“Como acera branda, o homem de coração e de honra se formara aos toques da mão de Aurélia. Se o artista que singela o mármore, enche-se de entusiasmo ao ver sua concepção que surgiu-lhe do buril, imagine-se quais seriam os júbilos da moça, sentindo plasmar-se de sua alma, a estátua de seu ideal, a encarnação de seu amor.” (S. p. 299)

Um outro aspecto muito importante na obra de Alencar é a idéia do corpo como “perturbador”. Em Lucíola, por exemplo, para a redenção de sua alma é necessária a morte do corpo e em Senhora é com o contato dos corpos, durante a valsa, que as almas se encontram e percebem o quanto se amam. A valsa era um tipo de jogo amoroso que o casal lançava-se, e é nesse encontro que Aurélia e Fernando sentem o amor que ainda nutrem um pelo outro:

“Era a primeira vez que dançavam e já tinham seis meses de casados; era a primeira vez que o braço de Seixas enlaçava a cintura de Aurélia. Explica-se, pois o estremecimento que ambos sofreram ao mútuo contato, quando esta cadeia viva os prendeu.” (S. p. 280)

Era nesta dança que os amores eram revelados e ambos, homem e mulher, sentiam o prazer por estarem envolvidos em um mundo só deles.

“As senhoras não gostam da valsa senão pelo prazer de sentirem-se arrebatadas no turbilhão. Há uma delícia , uma embriaguez da velocidade. Aos volteios rápidos a mulher sente nascer-lhe as asas, e pensa que voa , rompe o casulo de seda; desfralda-se a borboleta.” (S. p. 281)

O recatamento a que homens e mulheres viviam obrigados, por causa de costumes e da boa educação da época, fizeram com que se afastassem de alguma maneira, a valsa foi um meio de aproximar, de fazer com que os corpos se “unissem” e sentissem um ao outro, se não da forma usual, mas de forma que sentissem aprazeiorosos pelo toque:

“Era uma verdadeira transfusão operada pelo toque da mão da moça no ombro do marido, e da mão deste na cintura dela, mas, sobretudo, pelos olhos que se imergiam, e pelas respirações que se tocavam.” (S. p. 282)

Se não fossem as circunstâncias que os havia unidos, Fernando e Aurélia, quase se rederam ao amor que ardia ente ambos:

“Veio, porém, a valsa e ele subjugado pela beleza da mulher, e por sua prodigiosa fascinação, esqueceu todos os protestos de dignidade, só viveu na adoração do seu ídolo, a que não conseguiria arrancar sua apostasia.” (S .p. 286)

“Comprei-o”, era a frase que de quando em quando lembrava, e como já havia traçado o objetivo de recuperar sua liberdade, havia chegado o grande dia:

“Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel. A senhora pagou-me cem contos de réis, oitenta em cheque do Banco do Brasil que lhe restituo intacto e vinte em dinheiro... Não é isto?” (S. p. 300)

Para restabelecer sua liberdade que fora por ele vendida, Fernando devolve a Aurélia o valor como prova de sua regeneração da “doença mercantilista”, que envolvia as relações sociais daquela época. Recupera desta forma, sua dignidade de homem.

Fernando era ambicioso e Aurélia não era uma carrasca. O destino que os dois se deram foi uma fatalidade da vida. O luxo, foi o condutor de Fernando para tal comportamento e quanto a Aurélia sua vida dura e difícil endurecera o coração que a levou praticar a vingança contra Fernando.

Acredito que foram corrompidos pela sociedade a qual viviam, aqui se pode representar a “teoria do bom selvagem”, de que o homem é bom por natureza, mas a sociedade é que lhe corrompe, como já dizia Rousseau.

“A sociedade no seio a qual me eduquei, fez de mim um homem a sua feição, o luxo dourava-me os vícios e eu não via através da fascinação o materialismo a que eles me arrastaram, habituei-me a considerar a riqueza como a primeira força viva da existência e os exemplos ensinavam-me que o casamento era o meio legítimo de adquiri-la... Não me defendo se deveria resistir e lutar nada justificaria a abdicação da dignidade.” (S. p. 301)

Ao redimir-se, Fernando culpa, em parte, a sociedade em que nasceu pela conduta que teve. Mostra-se, depois da lição dada por Aurélia, restituído e possivelmente, imunizado desse mal que lhe assolou rebaixando-o a coisa possuída. Este discurso de Fernando emocionou Aurélia, que vê diante de si o ideal de homem que amava “humilha-se” e declara seu verdadeiro amor, reconciliando-se ao final do romance.

Dante Moreira fala que Alencar é muito mais moderno do que Machado ou Eça, pois os personagens de Alencar dependem da interação com os outros e oscilam de acordo com ela. Enquanto Bosi não considera Alencar como realista, mas “preciso como qualquer prosador do fim do século”, e com um tom romântico. Outros críticos o consideram muito mais realista pela descrição e pela quantidade de detalhes que ele dá ao relatar os modos, os saraus, os móveis, as pessoas, etc.

“Aurélia que se dirigia ao seu toucador, sentou-se a uma escrivaninha de araribá guarnecido de relevos de bronze dourado (...)” (S. p. 162)

“Era uma expressão fria, pausada, inflexível que jaspeava sua beleza, dando-lhe quase a gelidez da estátua. Mas no lampejo de seus olhos pardos brilhavam as irradiações da inteligência.” (S. p. 163)

Como uma história romântica, esta não poderia ser diferente, não poderia ter um final injusto e infeliz para ambos. Fernando renovado mostrou quanto o ser humano pode ser desvalorizado por valorizar demais o dinheiro. Apesar da época, Aurélia foi dona de si em todas as suas ações, mostrou-se superior aos homens e “maltratando”, um deles, mostrou-os a necessidade de se avaliarem por suas qualidades e até defeitos, mas nunca pelo dinheiro.

A importância, portanto de Alencar para a nossa literatura é grande. Através de suas obras temos e a descrição da vida brasileira do século XIX, assim como costumes, moda, etc. Por isso, o duplo valor das obras como documentos e como obras de arte.























BIBLIOGRAFIA

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MASSAUD, Móises. História da Literatura Brasileira. SP. Cultrix, 1965.
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BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. Ed. Cultrix. SP.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. 9ª ed. RJ. Bertrand Brasil. 1995.
 







   
 






 


 

 


 

   






 











 
 









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Enviado por Ana Angelica de Souza Pinto em 13/09/2006
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