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Confissões de uma mulher de 36 anos

Já fiz amor debaixo de céu estrelado.
Já chorei por amor, já fiz alguém chorar por amor, já achei o amor horrível.
Já cortei o cabelo joãozinho, já pintei de preto, já me vesti de punk, já tomei todas numa noite e não sabia nem voltar prá casa.
Já tingi o meu cabelo em casa e ele ficou laranja.
Já aprendi a tocar dois instrumentos, já fiz serenata, já recebi serenata.
Nunca quis ser freira.
Nunca fumei baseado, mas já cheirei lança-perfume.
Adorei quando consegui cantar o pneu do carro pela primeira vez, porque nunca achei que conseguiria...
Nunca vi alma penada, mas já senti coisas estranhas.
Já senti presenças diferentes nos lugares, e já tive medo de pessoas más.
Nunca mergulhei em Abrolhos.
Nunca conheci Fernando de Noronha.
Nunca transei com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, embora já tenha pensado nisso.
Já tomei banho de esguicho num posto de gasolina, num sábado à tarde, por querer, e depois de bem grandinha.
Já roubei chocolate nas Lojas Americanas.
Já subi num palco para cantar, para falar em público, já toquei em festa de político, em festa de rodeio, em casamento, e em roda de amigos, e em pagode na casa da dona Maria.
Já me senti muito caipira, e já me senti totalmente metropolitana.
Já me senti ridícula.
Já me senti linda, popozuda, maravilhosa, e também já me senti horrível, gorda, desajeitada.
Nunca pulei de asa-delta, nem de pára-quedas.
Já tive um caso com segurança de boate.
Já me descabelei num show do Roupa Nova.
Já usei aparelho nos dentes.
Tenho todos os dentes do siso.
Nunca fiz tatuagens, mas morro de vontade.
Nunca comi carne de cobra, ova de bacalhau, escargot ou bicho estranho.
Já matei aula prá namorar.
Nunca apanhei de homem, nem de mulher, mas já me meti em briga, para defender uma amiga.
Nunca usei véu e grinalda.
Já tive poema feito só prá mim.
Já ganhei concurso de miss universitária em mil novecentos e guaraná com rolha.
Já ganhei concurso de música popular brasileira.
Já ganhei placa na faculdade por atividades culturais.
Nunca tomei daime.
Nunca fui em programa de auditório.
Já agi com segundas, terceiras e quartas intenções.
Já nadei no mar sem roupa.
Já tive ataque de riso no meio do velório.
Já julguei as pessoas de forma errada, e já fui julgada também.
Já desmaiei uma vez.
Já tive vontade de matar alguém, mas fiquei só na vontade.
Já fui traída.
Já traí.
Nunca bati na cara de alguém.
Já tenho ex-marido.
Nunca surtei de pirar total.
Já conheci Portugal, França, Espanha, uma parte dos EUA.
Já morei em São Paulo, Ourinhos, Curitiba, Jacarezinho, Santa Cruz do Rio Pardo, e agora Brasília.
Nunca dirigi um caminhão.
Nunca saltei de bungee jump.
Já dirigi moto.
Já fiz teatro.
Já beijei boca de estrangeiro num metrô.
Já fiquei grávida.
Já frequentei hotéis de muitas estrelas e de estrela nenhuma.
Já fiquei sem um puto no bolso nem prá comer.
Já fui detida pela imigração dos EUA, por um erro da empresa aérea e não foi nada divertido.
Já fiquei muitas horas sem dormir.
Já fiz xixi nas calças de tanto rir.
Já chorei muito e já pensei em não viver mais, mas sempre no final achava que valia a pena estar viva.
Já coloquei piercing no umbigo e depois tirei.
Já pixei muro.
Nunca tive vontade de desistir, nem vontade (VERDADEIRA) de morrer.
cibele aguiar
Enviado por cibele aguiar em 21/09/2006
Código do texto: T246063
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Sobre a autora
cibele aguiar
Santa Cruz do Rio Pardo - São Paulo - Brasil, 47 anos
26 textos (1324 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 16:16)
cibele aguiar