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As crianças e os jacarés

     É impressionante como nosso gosto e interesse pela natureza são condicionados pelo aprendizado e experiências cotidianas da infância. Alguns animais, tais como o mico-leão-dourado, a arara-azul e o urso panda, são instintivamente atraentes e queridos. Outros, como cobras, crocodilos ou jacarés, freqüentemente evocam fortes sentimentos de medo.
     Em um levantamento recente realizado no segundo semestre de 2005 pelos Fiscais Ambientais do NATURATINS (Instituto Natureza do Tocantins) com crianças de Gurupi, verificou-se que os jacarés estão entre os animais com mais associações negativas. Tais animais são sempre retratados como repulsivos e muito perigosos.
     Vale ressaltar que nenhuma criança entrevistada conhece alguém que já foi agredido ou importunado por jacarés. Na verdade, nenhuma delas jamais viu sequer qualquer jacaré pessoalmente. Mas apesar disso todas elas apresentam uma opinião unânime acerca desses bichos. Isso chamou bastante a atenção dos Fiscais, que procuraram apontar as principais fontes de origem das idéias que estariam influenciando a percepção e valores dessas crianças.
     Existem inúmeros elementos de nossa cultura que alimentam a opinião de crianças e adultos acerca dos jacarés e crocodilos. O livro mais lido em todo o mundo – A Bíblia Sagrada – apresenta os crocodilos como  animais poderosos e horripilantes (ver Jó 41: 1-34). A imagem dos crocodilos e jacarés também tem sofrido nas mãos dos escritores em grande número de obras literárias recentes. A estória das aventuras de Peter Pan na Terra do Nunca é bastante conhecida pelas crianças do mundo todo, e nela vemos a representação de um crocodilo que persegue ferozmente o Capitão Gancho a ponto de devorar sua mão direita. Vale lembrar que o Capitão Gancho tem esse nome por possuir no local da mão devorada pelo crocodilo um gancho de metal.
     O crescimento da industria de filmes e vídeo tem proporcionado muito pouco para mudar a opinião pública acerca desses animais. Alguns dos mais populares filmes das ultimas décadas têm apresentado os crocodilos e jacarés como verdadeiros assassinos. Entre esses podemos incluir vários filmes de 007 - James Bond, assim como os filmes Crocodilo Dundee I e II, e mais recentemente o filme Pânico no Lago – que mostra um crocodilo gigante criado por uma velhinha que aterroriza e devora pessoas em um lago.
     Até no folclore brasileiro vemos uma imagem negativa a respeito desses répteis. A famosa estória do Sítio do pica-pau-amarelo apresenta a feiticeira Cuca - uma personagem perversa que persegue a bondosa Emília e tem a forma de um jacaré e vive no pântano frio e assombrado.
     Tais estórias repassam valores que se fixam fortemente no inconsciente das pessoas, reforçando a idéia que esses animais são extremamente perigosos e prejudiciais ao ser humano. Esse aspecto é extremamente negativo e torna difícil a aquisição de recursos financeiros para subsidiar pesquisas e atividades voltadas para a conservação desses animais. São raríssimas as referências que informam que esses animais estão entre os mais antigos vertebrados existentes no nosso planeta.
     Eles estão presentes na Terra desde a época dos dinossauros e vale lembrar que atualmente existem apenas 23 espécies de crocodilos e jacarés, sendo que dessas, 17 espécies correm o risco de serem extintas. Entre as principais ameaças têm-se a caça predatória e a alteração dos seus habitats com a construção de usinas hidrelétricas, implantação de projetos de irrigação e poluição das águas.
     Tentando reverter esse quadro, existe um grupo de pesquisadores da UFT (Universidade Federal do Tocantins) que tem pesquisado esses animais. Esse grupo de pesquisa é coordenando pela Drª Bióloga Adriana Malvasio e tem coletado dados nos rios de nosso Estado, levantando informações sobre as 3 espécies de jacarés que podem ser encontradas aqui. Duas dessas espécies são bastante conhecidas: o jacaré-açu (Melanosuchus niger) que é o  maior jacaré da América do Sul, podendo alcançar mais de 5 metros de comprimento e pesar mais de 400kg. Ele tem uma coloração preta e coloca até 60 ovos por ninhada. O outro jacaré também bastante conhecido é o jacaré-tinga (Caiman crocodilus) que é menor que o jacaré-açu, pode ter aproximadamente 2 metros de comprimento. Ele tem uma coloração amarelada e coloca um número menor de ovos por ninhada, somente cerca de 25 ovos.  A terceira espécie que é praticamente desconhecida pela maioria da população tocantinense é o jacaré-paguá (Paleosuchus palpebrosus), que é a menor espécie de jacaré do mundo e possui uma coloração marrom. Esse animal também é conhecido como jacaré-anão, pois não cresce muito, tendo geralmente apenas 120 centímetros de comprimento. Ele muitas vezes é confundido pelas pessoas com um jacaré-tinga ou com um jacaré-açu jovem, o que o torna tão pouco conhecido.
     Um aspecto bastante curioso sobre esses animais é que eles constroem seus ninhos nas margens de lagos e rios, juntando um monte de folhas, galhos, raízes e terra. Eles colocam os ovos, geralmente, no mês de dezembro e os filhotes nascem cerca de 60 a 90 dias após.
     Os jacarés têm um cuidado com os ovos e filhotes muito semelhante ao das aves. A fêmea fica durante todo o período de incubação dos ovos bem próxima do ninho e quando os filhotes estão nascendo ela os retira do ninho e fica com eles até terem mais de um ano de vida. Entre os répteis, esse tipo de comportamento é único. Em geral os lagartos, cobras e tartarugas não realizam nenhum tipo de cuidado com os ovos e filhotes.
     A divulgação dessas informações é importante para esclarecer às pessoas que esses animais também têm um papel importante na natureza e com isso podemos desmistificar a imagem errônea de que esses animais são prejudiciais ao homem.

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Publicado no Jornal Chico, edição n. 16, p. 05, de 16/06/2006. Gurupi – Estado do Tocantins.

Publicado no Jornal Mesa de Bar News, edição n. 300, p. 07, de 06/03/2009. Gurupi – Estado do Tocantins.

Giovanni Salera Júnior
E-mail: salerajunior@yahoo.com.br

Curriculum Vitae: http://lattes.cnpq.br/9410800331827187

Maiores informações em: http://recantodasletras.com.br/autores/salerajunior
Giovanni Salera Júnior
Enviado por Giovanni Salera Júnior em 01/11/2006
Reeditado em 30/12/2011
Código do texto: T279254
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Giovanni Salera Júnior
Palmas - Tocantins - Brasil
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Giovanni Salera Júnior