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DIVAGANDO PELA CONSCIÊNCIA


O sim pelo não. O não pelo sim. Assim eu prefiro: tudo subvertido. Para o senso comum, que não entende as entrelinhas, mais pareço uma aberração. Minhas idéias e concepções a despeito da sociedade em que vivo não coincidem com as de pessoas que vivem uma vida ao sabor do acaso – não tão acaso assim – da decisão alheia sobre o que é certo ou errado. Eu prefiro caminhar com minhas pernas, guiadas por minhas escolhas pessoais, agüentando firme a conseqüência de minha opção. Fujo do caminho tradicional, abrindo a golpes de facão uma nova trilha em meio a consciência da humanidade. Ignoro os caminhos deixados no chão. Essas trilhas são seguras de mais pra mim. Aliás, eu prefiro caminhos sem chão, sem noção de espaço, sem noção de tempo. Odeio a pressa sem sentido da cidade.

Onde as pessoas geralmente encontram a certeza eu só vejo dúvida. O que as torna feliz, me entedia. Onde normalmente procuram proteção eu sinto solidão. Suas respostas surgem como fonte dos meus maiores questionamentos. Mas essa vontade que as pessoas têm de ser mais do mesmo, de seguir tradições, também não é problema, apesar de não servir como solução para os meus problemas. A escolha de parâmetros para a vida deve ser pessoal e não cabe a ninguém julgar tais preferências. Deve-se viver e deixar viver. Ser e deixar ser. Esse é o fato que me impulsiona a buscar o diferente, o não convencional e os conseqüentes desafios que suscitam. Com a liberdade que todos podem usufruir.

Quando descubro novas alamedas, por mais tortuosos que pareçam esses caminhos, eu me sinto mais íntimo de mim mesmo. Algo auto-afirmativo, às vezes doloroso, mas sempre recompensador. As diferenças entre eu e os outros fortalecem o meu eu. É como se eu estivesse lapidando minha alma, manufaturando um diamante do mais alto valor. Não esse valor monetário que estimula a concorrência ambiciosa, fetichista dos gananciosos miseráveis. Trata-se de um outro valor, muito mais significativo e enriquecedor, escondido nas pequenas coisas da vida, na satisfação dos gostos pessoais. Como aquela que sinto ao admirar as verdadeiras obras de arte, expressões tão claras da alma humana. Cada nova abstração, cada sensação, cada interpretação, cada descoberta afinal.

São milhões e milhões de opções espalhadas em cada alma ao redor do planeta e, apesar dos códigos comuns da linguagem humana, cada alma é uma. E só uma. Cada ser humano é um universo isolado dentro de si. Por outro lado o contato social direto possibilita novas descobertas com a transmissão de impressões e concepções, que cada indivíduo acumula dentro de si, adaptando-as a seu próprio entendimento e logo as retransmitindo com um novo formato. Entender e aceitar essas diferenças e o que elas somam a nossa alma é o fator essencial do espírito coletivo e social humano. A chave de uma vida mais justa para todos. E esse reconhecimento é que possibilita a criação de laços entre grupos. E a formação de grupos é primordial para a busca do espaço a que todos têm direito desde seu nascimento.

Contudo, vejo que a verdade não está na palavra, instrumento de interligação entre indivíduos. A verdade está no corpo biológico, nas vísceras. As palavras causam medo, geralmente mentem, distorcem e não são suficientes para refletir toda a substância da alma, dos sentimentos. Eu prefiro as mensagens misteriosas escondidas atrás das pupilas, esses buracos negros, caminhos intransponíveis para dentro desses diferentes universos. O calor do corpo. O odor. As vibrações do coração, ora lentos e sensíveis, ora arrebatadores. Assim como a respiração, o ar que toma os pulmões e volta pra atmosfera, a sensação de pertencer a natureza. A massa trêmula de prazer, de medo, de alegria. A ansiedade que esmaga o estômago. O âmago. As entranhas. Nas reações naturais do corpo está a verdade do ser, que ao mesmo tempo carrega o mistério maior, a pulga atrás da orelha da razão humana. E não há como desvendar esse mistério gerador da incerteza, tão boa de sentir. Geradora dos mitos! As reflexões despertadas pela dúvida sobre a dádiva.

Nasce a confusão mental provocada pelas idéias racionais humanas e suas mais variadas concepções, desde as mais autoritárias, fascistas, que tentam impor verdades padronizadas até as mais libertadoras e tolerantes. A viagem do pensamento bombardeado por disputas ideológicas, imagens, sons, lembranças, esperanças, propagandas. Não há como existir paz no meio de tantas perspectivas bloqueadas pela concentração do conhecimento, a manutenção da ignorância. O saber parece não ter força para pular os muros das Universidades (Universidades?). O pensamento não deve ser limitado, delimitado, padronizado.

As alternativas pessoais, que não têm como objetivo prejudicar os semelhantes, mas apenas a própria satisfação e o prazer, não podem ser classificados como certo ou errado. Falta reflexão sobre o conhecimento e as possibilidades revolucionárias esmagadas pela ignorância dos falsos intelectuais, pop stars que vivem no interior da Academia, necessitados de reconhecimento inútil. Falsos comunistas, falsos socialistas, falsos liberais! As ideologias que sustentam essas utopias aparentam ser as maiores mentiras já inventadas pela razão humana em nome e a serviço da busca e manutenção do poder. Ninguém pode mais que ninguém! Na verdade uns mentem mais que outros, apoiados por suas próprias verdades ignorantes e miseráveis.

Os homens ainda vão entender que não são mais que manifestações da vida da terra. Que todo o alimento vem da terra. Que tudo que ingerimos volta pra terra. Que todos os seres vivos vem da terra e voltarão pra terra. Mesmo que as mãos e as habilidades humanas modifiquem quase tudo que tocam, tudo vem da terra. Essa que nos cospe e depois nos suga. Da terra nos alimentamos e dela somos o alimento. A energia não pára em nós. A energia passa por nós. Por isso, ainda serão os homens capazes de entender que não há necessidade de escravidão, de trapaça, de mentira. O verdadeiro conhecimento que liberta deve estar disponível a todos, sem exceção.
Leonardo André
Enviado por Leonardo André em 28/06/2005
Código do texto: T28719
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Sobre o autor
Leonardo André
São Paulo - São Paulo - Brasil
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