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PUTAS ASSASSINAS

                                    PUTAS ASSASSINAS

Esse é o nome do conto que empresta o título ao livro que reúne uma coletânea de ótimos contos desse não menos ótimo escritor chileno Roberto Bolaño, infelizmente morto com apenas 50 anos de idade. Os demais contos, alguns bem complexos mas todos perfeitamente inteligíveis, são O Olho Silva, Gómez Palacio, Últimos entardeceres na terra, Dias de 1978, Vagabundo na França e na Bélgica, Prefiguração de Lalo Cura, O retorno, Buba, Dentista, Fotos, Carnê de baile e Encontro com Enrique Lihn, de um livro publicado no Brasil em 2010.
Como se sabe, Roberto Bolaño foi considerado pelos seus pares como o maior nome da literatura sul-americana de sua geração. Ganhou prêmio e sua vida foi “errante”, no sentido de ter morado em vários países. Sendo seguidor das idéias de Salvador Allende, algumas de suas histórias deixam claro seu inconformismo com a ditadura de Augusto Pinochet, época que parou o Chile por alguns anos. Felizmente os chilenos, muito mais do que os brasileiros e com outras condições também, perceberam a importância de se retomar o país como pátria e nação e investiram pesado na educação, tornando-se, provavelmente, o povo mais educado da América do Sul.
  Estive em Santiago em janeiro de 2010 e fiquei bem impressionado (e com inveja!) pela limpeza da cidade e pela educação do povo, motoristas dando prioridade aos pedestres, ausências de cheiros provocados por atos próprios de banheiros e latrinas, inclusive no centro da cidade, povo alegre. Que os habitantes desse lindo país encarnem essa mudança pós-ditadura e se consolidem como nação, com seus cidadãos agindo com o equilíbrio absolutamente necessário de direitos e deveres. E é de se ressaltar também a ausência do forte machismo que caracterizava todas as nações sulamericanas, com a conseqüente valorização da mulher, tendo já sido eleita uma presidenta, como na Argentina e agora no Brasil.
                Como tenho feito neste Recanto, comento o livro mas não seu enredo, no caso aqui enredos dos vários contos. Dou uma pincelada apenas no conto-título, para aguçar a curiosidade e provocar a leitura dessas histórias.
                Putas assassinas de fato é um conto que conta mais nas sugestões do que na narração. É um fluxo de pensamento impressionante nas minúcias de seus detalhes de uma puta assassina, com sugestões e nunca afirmações do porquê ela “executaria” (ou “executou”) um ato de extrema crueldade.
                É, de fato, um conto interativo. O leitor atua tanto quanto o autor e vai formando conclusões sobre o porquê do ato dessa personagem forte e extremamente revoltada. O que a leva a agir como agia, o que sua “vítima” fez para merecer essa condição. Tudo você, caro leitor, tem de intuir e o curioso é que você acaba intuindo mesmo e chegando às causas, até com detalhes, para que ela “perpetuasse” seu brutal gesto. Ou melhor, você acha que as causas são essas que você intuiu. E essa dúvida perdurará, como a velha história se Capitu traiu ou não Bentinho, em Dom Casmurro.
                 Estou colocando os verbos entre “aspas” porque, à semelhança do livro “Angústia”, de Graciliano Ramos, é preciso tentar penetrar a mente dos narradores (Luís da Silva, de “Angústia”, e da puta, em “Putas Assassinas”) e descobrir os motivos da revolta deles. Em Angústia possivelmente não é o fato de ser traído pela noiva que leva o protagonista a seu ato, mas algo que você deve buscar ao longo da vida dele, desde a infância. Aqui, neste conto forte, você, como já afirmei, necessariamente terá de intuir o que a leva a seu ato e o que a vítima fez para ser a escolhida.
                  Já falei demais! Vá lá. Leia a história e as histórias desse livro e perceberá que o grande privilegiado é você mesmo. Ler é sempre um privilégio de quem lê. E esse privilégio é democraticamente aberto a todos. Boa leitura.
Prof. Leo Ricino
Maio de 2011

Leo Ricino
Enviado por Leo Ricino em 08/05/2011
Código do texto: T2956848

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Sobre o autor
Leo Ricino
São Paulo - São Paulo - Brasil, 68 anos
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