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Da Influência da Ação Correta na Solução de Futuros Problemas


A ação correta é executada  comumente por um impulso natural, se nela seu autor é movido por princípios éticos. Para ele, não há nenhum interesse oculto por trás da ação, sendo esta apenas fruto de sua postura frente às circunstâncias. Não estou falando aqui da caridade, que, se advinda de uma posição religiosa, pode ser um ato egoísta, pois visa uma recompensa no céu. Estou falando aqui de nossas ações cotidianas no relacionamento com outras pessoas.

Mas na época em que trabalhei como supervisor de uma operadora de telecomunicações (TELESP, atual VIVO) tive provas de que a ação correta pode ter conseqüências inesperadas, e elas são boas.

Na época aludida eu possuía uma casa que alugava, que me complementava os rendimentos. Certa vez ela foi alugada para um advogado pela imobiliária que administrava o aluguel. Esse advogado, talvez por uma característica inerente à sua profissão, testou-me em duas ocasiões na minha capacidade de atender a seus direitos como inquilino. Numa delas, num domingo chuvoso, ligou para a imobiliária reclamando sobre uma goteira num dos cômodos. Em pleno domingo, na chuva, tive que correr atrás de um pedreiro, com o qual fui até a casa solucionar o problema (este episódio, aliás, foi um dos fatores que me influenciaram na decisão mais tarde de vender a casa e evitar possuir casas de aluguel).

Na outra ocasião, o problema foi mais grave, no aspecto financeiro. O inquilino reclamou para a imobiliária que  andava percebendo alguns ruídos estranhos acima do forro, suspeitando que fossem estalos provocados por curtos-circuitos de fios. Alegava que a rede elétrica devia ser velha e precisava ser substituída. Como eu me formara recentemente em Engenharia Elétrica, resolvi testar meu aprendizado e elaborei um projeto para uma nova rede, contratei um eletricista e troquei toda a rede. Aproveitando a reforma, e atendendo ao pedido do inquilino, instalei alguns novos pontos com tomadas e interruptores, além de instalar uma caixa de distribuição no interior da casa, inexistente até então. Todo esse trabalho gerou um gasto significativo, que eu tinha consciência de que revertia para mim mesmo, pois era feito para melhoria de meu patrimônio. No entanto, havia também um ganho moral nisso, quando eu atendia plenamente e até em excesso ao pedido do inquilino.

Algum tempo depois desse episódio, encerrado o contrato de locação, soube que o inquilino advogado saíra e nunca mais o vi.

Mais ou menos uns dois anos depois, situava-me eu na posição de supervisor da área de fiscalização de contratos do setor de manutenção de rede externa da empresa, na minha região. Tinha sob minha supervisão uma empresa terceirizada a serviço da empresa telefônica.

Certo dia, o supervisor da terceirizada surgiu aflito solicitando-me socorro para um problema surgido na rua. Relatou ele que um assinante flagrara um trabalhador seu no poste usando a linha telefônica do assinante, através do terminal de conexão no cabo. Esse assinante, bastante inconformado, chamara até a polícia, que estava no local. Segundo o supervisor da terceirizada, o assinante desejava um representante da empresa de telecomunicações para resolver o impasse.

Antes de continuar com a história, vou explicar melhor essa questão do uso de linhas telefônicas de assinantes por parte de trabalhadores de linhas telefônicas. Naquela época estava ainda em estudo a implantação de um sistema em que seria reservada uma linha específica para comunicação entre o trabalhador de linhas e a central telefônica. Essa linha de comunicação era  necessária para recebimento e baixa dos serviços, além de servir para contato com o Distribuidor Geral na central, onde se realizava a interconexão entre a rede externa e a central. Como essa linha ainda não existia, os trabalhadores utilizavam indevidamente as linhas dos assinantes. Como as chamadas eram para linhas especiais franqueadas, isto é, livres de cobrança de pulsos, esse uso indevido não era percebido pelo assinante ou, se o era, era tolerado por não lhe causar prejuízos (hoje essa questão parece ter se resolvido com a vulgarização dos telefones celulares, usados largamente pelos trabalhadores). Entretanto, um problema espinhoso surgia quando algum trabalhador de má fé aproveitava-se da facilidade do acesso à linha do assinante e realizava ligações particulares por ela, o que, é claro, resultaria em prejuízo para o assinante.

Para quem tinha um mínimo de conhecimento para entender a possibilidade desse logro, qualquer trabalhador de linhas telefônicas aboletado em um poste em frente da sua casa seria um potencial suspeito para esse crime. O que ocorrera no caso é que o assinante reclamante conseguira, por acaso, ao pegar no aparelho, ouvir nele uma conversa do trabalhador e imediatamente suspeitara de má-fé do mesmo, chamando a polícia. O trabalhador já explicara para o assinante e seu supervisor que utilizara a linha apenas para uma comunicação com a central local, mas o assinante estava irredutível e desejava um representante da empresa responsável para dar explicações e justificativas para o problema.

Foi assim que o supervisor da terceirizada veio a mim pedir socorro, solicitando-me que intercedesse na questão. Portanto, senti que a coisa não seria fácil de resolver e, um pouco apreensivo, dirigimo-nos os dois até o local, que era próximo à central.

Ao chegar ao local, para minha surpresa, notei que o ranzinza assinante, que, exaltado, ainda explicava o ocorrido à polícia, enquanto o trabalhador ficava encolhido num canto como se fosse um terrível criminoso apanhado em flagrante, era o próprio inquilino advogado, com quem me relacionara uns dois anos antes.

Assim como eu, ele pareceu surpreso ao me ver, mas não manifestou reconhecimento. Logo recompôs-se e explicou-me o porquê de sua indignação, embora lhe notasse certo abrandamento no tom de voz.

Depois de ouvi-lo paciente e respeitosamente, expliquei-lhe, talvez redundantemente, o motivo do trabalhador de linhas ter utilizado sua linha e que isso não lhe traria prejuízos. Disse-lhe que eu entendia sua compreensível suspeita de que o trabalhador tivesse usado sua linha para ligações particulares. Depois de rápida confabulação com o supervisor da terceirizada, fiz-lhe uma proposta simples. Disse-lhe que se na sua próxima conta telefônica viesse discriminada alguma ligação estranha naquele dia específico, eu lhe garantiria a devolução do valor cobrado por parte da empresa terceirizada.

Não muito confiante na minha estratégia, esperei por alguma réplica contundente a respeito de garantias sobre minha promessa. Porém, para minha surpresa, ele ponderou por um rápido instante e, logo em seguida, disse que estava satisfeito, agradeceu e dispensou os policiais, que pareceram aliviados com a rápida solução, agradeceu-nos também e entrou em sua casa, encerrando o imbróglio.

Não me esquecerei da expressão de alívio que vi na cara do trabalhador, que, até aquele momento, comportara-se como um condenado à morte. O seu supervisor disse-lhe algumas palavras de advertência, dispensou-o e voltamos os dois para a central.

Por que um caso que prometia ser árduo na sua solução resolvera-se com tanta facilidade, com o reclamante dando-se por satisfeito com minha palavra? Não sou ingênuo de imaginar que eu tenha tido uma eficiência exemplar na exposição de meus argumentos, visto que eu próprio tinha dúvidas sobre a estratégia adotada.

Pensei então naqueles dois episódios ocorridos quando aquele assinante fora meu inquilino exigente e ponderei que seria mais razoável supor que meu comportamento neles, atendendo-lhe de forma respeitosa e indo além de suas expectativas, incutiu-lhe na mente que, em quaisquer circunstâncias, poderia confiar em mim.

Seu comportamento diante do caso do telefone, portanto, fora apenas um reflexo do seu grau de confiança em mim. É provável que, se nos dois episódios anteriores eu tivesse tido um comportamento de proprietário arrogante e mesquinho, insensível a seus apelos, seu comportamento no caso do telefone fosse bem diferente, talvez com ímpetos de revidar os maus-tratos anteriores, dificultando ao máximo uma solução para o caso.

Portanto, esse episódio provou que a ação correta pode produzir bons resultados, como a ação incorreta pode produzir maus resultados. Alguém poderá dizer, com razão, que o que aconteceu foi apenas fruto da sorte ou notável coincidência, que nem tudo ocorre desta forma. Tudo bem, mas da mesma forma que tomamos vitaminas, nos cuidamos com a alimentação ou praticamos exercícios para reforçarmos nosso sistema imunológico contra futuras ameaças biológicas ao nosso organismo, através de ações corretas estamos nos preparando para futuras situações de perigo. Deixando de lado as explicações religiosas, comumente baseadas em dicotomias místicas (céu/inferno, recompensa/punição, causa/efeito), não sabemos realmente no que nossas ações resultarão no nosso destino eterno. Pode ser que fazer o bem ou fazer o mal nessa vida seja irrelevante para nosso futuro pós-vida, seja lá o que isso queira dizer na nossa precária percepção. Mas, enquanto vivemos, enquanto passamos algo desnorteados ou perplexos por essa dádiva misteriosa chamada vida, é razoável supor que desejemos desfrutá-la sem que passemos por dissabores perfeitamente evitáveis.
 
Paulo Tadao Nagata
Enviado por Paulo Tadao Nagata em 20/11/2006
Reeditado em 08/11/2015
Código do texto: T296311
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Paulo Tadao Nagata
Marília - São Paulo - Brasil
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