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A indústria do Sexo - influencia sobre crianças e adolescentes

Este é um breve ensaio no qual objetivo expor, de forma resumida, alguns aspectos culturais que tem colocado em declínio a formação competente e satisfatória de crianças e adolescentes na sociedade moderna. Não é algo com pretensões acadêmicas ou um estudo irrefutável, embora me sirva de trabalhos importantes de estudiosos da área social e psicológica, antes, desejo propor uma reflexão para pais e professores, principalmente, e para outros atores sociais que gravitam ao redor de todos os aspectos de formação das crianças e adolescentes, sobretudo aqueles que dizem respeito á formação de sua identidade sexual, importante fator na formação de sua identidade pessoal e atuação social.  Eu abordo o estágio da terceira infância (6-12 anos de idade) e adolescência (12 ou 13 anos até 20 anos, aproximadamente), em relação á formação da identidade e ao entendimento de papéis sexuais com a exposição sexual precoce, cada vez mais preconizada em uma sociedade onde o consumo e a superficialidade nas relações pessoais e interpessoais são altamente valorizados e elevados a padrões comportamentais obrigatórios e satisfatórios.

A maioria dos pais não dá a seus filhos informações suficientes sobre sexo, e as crianças e adolescentes as obtém, ou são expostos á elas (e informações erradas), por meio de amigos e por meio de mídias, sobretudo a internet, que apresenta grande e variado repertório de informações sobre o assunto. Por exemplo, algumas meninas acreditam que não podem ficar grávidas durante seu primeiro intercurso, ou em certas posições, ou em certos períodos menstruais. Em uma pesquisa sobre quanto de informação sexual os pré adolescentes e adolescentes tem 31 por cento dos adolescentes, incluindo 28 por cento daqueles que eram sexualmente ativos, nunca tinham conversado com os pais sobre sexo, e 42 por cento relatavam sentir-se muito temerosos ou nervosos para tocar no assunto. Além disso, quase dois terços (64 por cento) nunca haviam discutido sobre métodos anticoncepcionais em casa (Louis Harris & Associates, 1986).
Isso é importante porque as crianças e adolescentes, principalmente as meninas, que tiveram informações adequadas sobre assuntos sexuais, tem maior probabilidade de usar preservativos de modo regular (Louis Harris & Associates, 1986; Luster & Small, 1994). Eles também são mais inclinados a adiar intimidades sexuais (Conger, 1988; Jaslow, 1982). As crianças e adolescentes que são educados desde cedo, pelos pais ou outros adultos e aqueles que conseguem informações sobre sexo em programas comunitários ou escolares, tem melhores chances de evitar a gravidez e outros riscos ligados á atividade sexual precoce.
Os aparelhos ideológicos da sociedade moderna, com destaque para a forte difusão da mídia, exercem influencias poderosas nas atitudes e comportamentos sexuais das crianças e adolescentes, sobretudo numa época em que as crianças passam muito tempo em frente á televisão ou no computador, sem nenhuma supervisão dos pais ou outros adultos quanto ao conteúdo acessado ou quanto ao programa que está sendo assistido. Infelizmente essa influencia que as crianças e adolescentes sofrem é negativa. A mídia apresenta uma visão distorcida dos papéis e das atividades sexuais, e do próprio corpo, que estão sempre associados á diversão, a excitação, ao perigo, desrespeito crasso ou a violência, mas os riscos de se enquadrarem em tais padrões e relações sexuais raramente são exibidos. A quantidade de comportamento sexual, na internet, filmes, jogos, nos programas de televisão, tem crescido cada vez mais, principalmente em programas de finais de semana onde muitas crianças e jovens estão assistindo televisão com suas famílias. Nas novelas, principalmente as novelas juvenis, os casais não casados fazem sexo com mais freqüência do que os casados, os contraceptivos quando mencionados, são apresentados de forma leviana e limitada, as meninas ou mulheres raramente ficam grávidas e as doenças sexualmente transmissíveis parecem não existir. E isso quando estes conteúdos são abordados, mas de forma estereotipada e segundo a visão de um determinado setor social.
Assim, não é de surpreender que crianças e adolescentes que obtém informações sobre papéis sexuais e sexo na televisão, que carecem de sistemas bem formados de valores, capacidade critica e forte influencia familiar, podem aceitar a ideia de intercurso antes e fora do casamento e com múltiplos parceiros e sem proteção contra gravidez e doenças. Além disso, a televisão tende a reforçar um duplo padrão estereotipado, no qual as mulheres, mas não os homens, superestimam a aparência, são fúteis e limitadas e fazem um uso imoral de seus próprios corpos. Os filmes e letras de músicas também se tornam cada vez mais sexualmente explícitos; vídeos musicais estão repletos de imagens sexuais, violência e abusos contra as mulheres, veja o exemplo da letra de uma música da cantora pop Nelly Furtado, o nome da música é Garota Promíscua (Promiscues Girl), que quer dizer garota vagabunda, prostituta, que se vale de seu corpo como única coisa que tenha algum significado ou serventia na vida prática, a letra diz, entre outras coisas: ‘sou uma garota promíscua, venha me pegar...estou com um garoto/namorado promiscuo’. Cabe assinalar que esta música e semelhantes a esta são muito conhecidas posto que são amplamente difundidas pela mídia e aceitas pelo público em geral. Fica patente que a exposição ao sexo e a sexualização precoce de crianças e adolescentes é algo que está presente em todas as mídias. O clipe desta música apresenta a cantora encenando poses sensuais e de caráter claramente sexual. Isso demonstra que a mídia constrói o corpo como um ponto de partida para a identidade, erotizando-o e reificando-o. A mensagem que se quer passar é, ‘você deve ser assim, vestir roupas sensuais, comportar-se sensualmente e até, sexualmente, para atrair os meninos ou homens, também deve ser sem caráter, dominador e violento’, como são geralmente retratados os papéis masculinos. Os pais, familiares e professores muitas vezes até compartilham com crianças e adolescentes esse tipo de entretenimento, e os incentivam a incorporar posturas e comportamentos que, não raro, eles mesmos corroboram como comuns, aceitáveis, ingênuos e inofensivos. Destarte, a criança e o adolescente irão crescer com um olhar enviesado, restrito, alienado pelo que pauta a mídia e os pais, pois estes últimos ainda os apóiam pela falta de supervisão e diálogo aberto com eles, ou por os abandonarem a própria sorte, o que mais acontece.
Francine Duquet, sexóloga francesa, que há vinte anos estuda a sexualização de meninos e, sobretudo, meninas, diz que há um crescente bombardeio de mensagens sexuais na televisão, na internet, nas ruas, nas revistas etc. Os adolescentes, até mesmo crianças, as recebem e incorporam como algo normal, sem nenhum caráter crítico ou julgamento de valor. Estas mensagens moldam seus comportamentos e tornam-se as bases para a formação de suas identidades pessoais e coletivas.
Do inicio da década de 20 até o final dos anos 70 vimos uma evolução nas atitudes e no comportamento sexual. Uma das mudanças foi a maior aprovação e tolerância com o sexo antes do casamento, principalmente num relacionamento de comprometimento. Outra é o declínio do duplo padrão: o código que dá aos homens maior liberdade sexual que as mulheres. Está onda de liberação está hoje em ascensão, e os adolescentes, e muitas vezes ainda nem o são completamente, aceitam mais a atividade sexual, estando bastante imersos no universo sexual, principalmente as meninas.
Em um estudo comparativo entre adolescentes de ambos os sexos, em idade escolar, foram apresentadas fotos de modelos femininos e masculinos. Em uma das fotos eles eram representados em campanhas publicitárias diversas e, em outra, os apresentavam em revistas pornográficas. Os adolescentes não souberam, na maior parte das figuras apresentadas, diferenciar o que não era de caráter sexualmente explícito daquilo que claramente o era.
É a partir da terceira infância que as crianças começam a se socializar, ou seja, adquirir valores, atitudes e comportamentos apoiados e fortemente estimulados pela cultura, processo que se expande e assume novas formas na adolescência. Quando isto acontece, elas começam a querer encaixar-se num padrão que muitas vezes é imposto pela mídia, não sendo realístico ou saudável para seu desenvolvimento humano. Tanto é visível isso que á comum ver crianças de ambos os sexos vestirem-se e comportarem-se como adultos; as meninas usam maquiagem, acessórios, roupas justas e curtas, cores vibrantes e chamativas e os meninos imitam o padrão masculino mais próximo ao qual tem acesso, tanto na vestimenta quanto no comportamento observado, para a maior parte deles a pornografia é o padrão. Eles transformam-se em mini adultos, numa espécie de mimetismo e, no caso das meninas, isso é ainda mais chocante porque na moda tem-se uma erotização das roupas infanto juvenis, principalmente femininas,  também das cores, há sutiãs com bojo, rendas e laços, em cores erotizadas para meninas de sete, oito anos de idade, demonstrando que a sexualidade já é trabalhada desde cedo hoje; as bonecas barbies vestem roupas exuberantes e tem corpo e aparência sexy, com lábios e olhos sempre pintados, nos intervalos entre um programa e outro na televisão as meninas e meninos são apresentados de maneira deformada, as meninas estão sempre maquiadas e limitadas a chamar a atenção e agradar seus pares e os meninos estão sempre envolvidos em competições e aventuras com comportamento dominador e atitudes estereotipadas privilegiadas. A menina não tem ainda um corpo de mulher, mas ela deve vestir-se sensualmente, comportar-se sexualmente, passar sexualidade para que possa ser rebaixada pelo sexo oposto. Além disso, as crianças e adolescentes amadurecem cedo demais. No entanto não é um amadurecimento sadio e fundamentado em múltiplas experiências, com a resolução de conflitos e problemas comuns aos estágios normais de desenvolvimento, mas é como se fossem solapadas etapas importantes na construção da percepção da realidade que os circunda e de seus papéis e atuações nesta realidade. Numa pesquisa do psicólogo James E. Marcia demonstrou-se que os adolescentes podem passar por um, ao menos, ou alternar, entre quatro estágios diferentes no desenvolvimento do ego (eu), ou estados de identidade, os quais parecem estar relacionados com certos aspectos da personalidade. A definição de Márcia de identidade é semelhante á de Erikson: ”Uma organização interna, autoconstruída e dinâmica de impulsos, habilidades crenças e história individual” (Marcia, 1980, pg.159). Por meio de entrevistas semi-estruturadas de 30 minutos, Marcia constatou quatro tipos de estágios de identidade: conquista de identidade (crise que leva ao comprometimento), pré fechamento (comprometimento sem crise), moratória (crise ainda sem haver comprometimento) e difusão de identidade (nenhum comprometimento, nenhuma crise). As quatro características diferem de acordo com a presença ou ausência de crise e comprometimento, os dois elementos que Erikson via como cruciais na formação da identidade. Marcia define crise como o período de tomada de decisões conscientes, e comprometimento como um investimento pessoal numa ocupação ou sistema de crenças (ideologia). As crianças e adolescentes hoje não são estimulados a raciocinarem por si mesmos, a tomar suas próprias decisões e tentar resolver sozinhas seus problemas e conflitos, vivenciando fases como a crise e o comprometimento com algo que lutaram para constituir. São induzidas a se adequarem a um determinado padrão difundido pela cultura em que vivem, por meio de sua família e todo seu entorno social. São obliteradas em sua capacidade crítica e analítica de sua existência, da existência do outro e da própria sociedade e seus pressupostos.
O autoconceito se desenvolve muito durante a terceira infância. O desenvolvimento cognitivo permite que as crianças em idade escolar formem sistemas representacionais que são mais equilibrados e realistas do que antes. A auto-estima liga os aspectos cognitivos, emocionais e sociais da personalidade. Segundo Erikson, a principal fonte de auto estima é a opinião da criança de sua própria competência produtiva, a ”virtude” que se desenvolve pela resolução da crise da terceira infancia: produtividade versus inferioridade. De acordo com uma pesquisa de Susan Harter, a auto-estima, ou valor próprio geral, fortemente ligado a identidade de si mesmo, depende tanto do quão competentes as crianças acham que são quanto do apoio social que elas recebem nesse sentido.
Já na adolescência, um dos grandes paradoxos é o conflito entre o anseio de afirmação de identidade única e um irresistível desejo de ser exatamente como os padrões que lhes atraem, seja em amigos ou amigas, seja em imagens articuladas pela mídia. Qualquer coisa que os distinga pode ser algo perturbador, por isso eles são muito suscetíveis as pressões familiares e do inteiro circulo social no qual estão inseridos. Algumas pesquisas constataram que os meninos de amadurecimento precoce são mais equilibrados, tranqüilos, afáveis, populares entre os amigos e propensos a serem líderes, além de menos impulsivos do que aqueles que amadurecem tardiamente. Outros estudos mostram que há ainda, uma grande preocupação em serem estimados, há também a presença de maior cautela e limitação por regras e rotinas. Alguns estudos demonstraram que aqueles que amadurecem mais cedo mantém a dianteira no desempenho cognitivo durante o final da adolescência e da idade adulta (R. T. Gross & Duke, 1980; M. C. Jones, 1957; Tanner, 1978). Constatou-se que os jovens com amadurecimento tardio sentiam-se mais inadequados, rejeitados e dominados; eram mais dependentes, agressivos e inseguros, rebelavam-se mais contra os pais; e tinham pior opinião de si mesmos (Mussen & Jones, 1957; Peskin, 1967, 1973; Siegel, 1982). Ao que parece existem vantagens e desvantagens em ambas as situações. Os meninos, diferente das meninas, gostam de amadurecer mais cedo, e aqueles que o fazem parecem realmente melhorar sua auto-estima (Alasker, 1992; Clausen, 1975). Contudo, um jovem com amadurecimento precoce ás vezes tem, e terá muitos problemas para corresponder às expectativas dos outros de que deveria agir de forma tão madura quanto aparenta, mas isso não será possível já que não se vivenciou estágios anteriores importantes de desenvolvimento competente de uma identidade pessoal e própria.
As meninas que amadurecem cedo tendem a ser menos sociáveis, expressivas e equilibradas, mais introvertidas; e mais negativas em relação a menarca (M. C. Jones, 1958; Livson & Peskin, 1980; Ruble & Brooks-Gunn, 1982; Stubbs et al., 1989). Algumas pesquisas sugerem que elas são inclinadas a ter imagem corporal e auto-estima piores que meninas de maturação mais tardia (Alasker, 1992; Simmons, Blyth, Van Cleave & Bush, 1979). Entretanto, outra pesquisa constatou que o nível de maturação por si só não afeta a identidade e um de seus importantes aspectos, a auto-estima, a qual depende mais do contexto geral do ambiente em torno da menina (Brooks-Gunn, 1988). Uma menina que amadurece mais cedo, por exemplo, pode sentir-se menos atraente se suas novas curvas e aparencia entram em choque com os padrões culturais da sociedade em que vive (Crockett & Petersen, 1987). As meninas que amadurecem cedo também podem reagir ás preocupações dos outros com sua sexualidade. Pais, professores e outros adultos de seu entorno social e familiar, ás vezes supõem que as meninas de aparência madura são sexualmente ativas e podem tratá-las de modo mais rígido ou desaprovador. Outros adolescentes podem exercer pressões sobre ela com as quais não está preparada para lidar. Ela pode ‘ficar’ com meninos e rapazes mais velhos e ver-se diante de demandas sexuais e comportamentais apropriadas para sua aparência, mas não para sua idade e formação.
As imagens que vemos nas diversas mídias não são realísticas na medida em que sexualizam a aparência, sobretudo física, por meio de fortes apelos sexuais. Essas imagens geralmente sugerem o consumismo, como forma elevada de realização pessoal e humana, e desejo por sempre agradar os garotos ou dominar o maior numero de garotas, no caso dos meninos.  Então, para impressionar, dominar ou servir, no caso das meninas, as crianças e adolescentes cada vez mais incorporam comportamentos estereotipados e neutralizados pelo próprio consentimento dos familiares e demais membros de seu meio social.
O feminismo dos anos 60 foi redefinido por mães e filhas através das mensagens da mídia e da sociedade de consumo, passando de uma luta pela emancipação das mulheres em áreas tradicionalmente masculinas e acesso a educação, para um conceito de poder feminino, onde este é apenas o poder de comprar e de ser tão sexy quanto seu parceiro queira. Ser sexy aparece como o único poder real das meninas e mulheres, o que as limita muito, pois não podem nem dispor de tempo para fazerem algo por si mesmas, algo que realmente as faça crescer humanamente, atribuindo significado único as suas vidas e as faça construir uma identidade satisfatória que as habilitará a vivenciar com competência as experiências da vida adulta.
Uma diretora de uma escola de ensino fundamental constatou que, realmente, as crianças estão apresentando cada vez mais comportamentos inapropriados para suas idades, comportamentos e atitudes que, muitas vezes, são vistos em casa, assimilados dos próprios familiares. Em grande parte são comportamentos eróticos ou sexualizados e depreciativos em relação ao sexo oposto, tanto no caso de meninos quanto de meninas. Eles são lançados em um universo no qual não dominam ainda todos os códigos e nem tem condições para isso. Vestem-se, falam e agem como adultos.
As meninas (e em menor grau os meninos) muitas vezes se sentem pressionadas a se entregar em atividades para as quais não se sentem preparadas. A pressão social era o principal motivo mencionado por 53 por cento das meninas e 50 por cento dos meninos, quando indagados do motivo para não esperarem até serem mais velhos para se envolver em sexo. Também muitas vezes, as meninas que começaram a ter relações sexuais precoces  foram coagidas a faze-lo. (AGI, 1994).
Outro fenômeno é a forte ideia de celebridade, um forte apelo para se imitar e se destacar como as celebridades da música, novelas etc. São promovidos concursos e reality shows onde meninos e meninas imitam suas celebridades preferidas. As meninas estão preocupadas em ser sedutoras, em serem cobiçadas, em terem namorados; os meninos mais populares são, também, aqueles que se prestam a encantar e seduzir, os que não estão nestes quadros passam a questionar suas identidades e papéis.
A auto-estima é um aspecto importante da identidade e a mídia procura explorar isso pela padronização da imagem, da aparência ou beleza estética e de um comportamento socialmente aceitável e esperado. Entrevistas com 99 meninas da pré escola até o final do ensino médio sugerem que a confiança das meninas em si mesmas e em suas observações do ambiente permanecem bastante elevadas até a idade de 11 ou 12 anos. Até então elas tendem a ser perceptivas em relacionamentos e assertivas em relação à expressão de sentimentos. Entretanto, quando adolescentes, elas muitas vezes aceitam noções estereotipadas de como se comportar, vestir-se e reprimem seus verdadeiros sentimentos e características para se encaixarem em um determinado padrão que lhes foi apresentado como o melhor, e serem aceitas. (L. M. Brown & Gillian, 1990).
Ver a si mesmo como um ser sexual, adaptar-se as excitações sexuais e formar ligações afetivas são todos parte da formação da identidade sexual, e da própria identidade de ser do individuo. Sabemos que é um processo controlado biologicamente, mas sua expressão é em parte culturalmente definida. As crianças e jovens são lançadas num universo sexual, e até orgástico, precocemente e, obviamente, não vão saber lidar com isso, nem física nem psicologicamente, não estão preparados. As  meninas são incentivadas a superinvestirem na sua imagem e não no desenvolvimento de uma identidade própria que fundamentará a forma como encaram a si mesmas, seus objetivos, expectativas e seu ser social, isso as afetará muito na vida adulta. Os garotos são incentivados a serem manipuladores, detentores da força e do poder, usar as mulheres como objetos para afirmar essas características, escondendo quem realmente, ou como, gostariam de ser.
Outro aspecto é que esta erotização da infância e da juventude dá grande margem ao aumento de abusos sexuais de crianças e adolescentes, bem como a pratica da pedofilia, na medida em que meninos e meninas são constantemente sexualizados e incentivados e assumirem uma postura tal. Na internet há grande quantidade de materiais pornográficos com menores disponíveis, em vídeos eróticos e sites que podem ser acessados por qualquer um, inclusive por crianças que já passam a assimilar e incorporar o que vêem como normal e, pior, como um padrão a ser seguido. Esses conteúdos não são fiscalizados e chegam a ferir a dignidade humana, sobretudo dessas crianças e jovens que estão em processo de constituição de sua identidade.
A indústria da pornografia investe mais de 57 bilhões de dólares por ano em seus conteúdos que estão hoje em todas as mídias, sejam elas impressas ou virtuais. É um mercado que já não é mais marginal, mas que é tão importante quanto à indústria alimentícia ou qualquer outra de manutenção das condições básicas de vida. Os códigos pornográficos infiltram-se em tudo e os meios de comunicação, como fortes agentes de socialização, quando não os únicos no caso de muitos lares de crianças e adolescentes, passam a mensagem de que isso é padrão, é normal. As crianças e adolescentes não tem pontos de referencia e, não raro, nem os próprios pais os tiveram ou tem.
Estes comportamentos sexualizados não são inatos nas crianças e depois nos adolescentes e adultos, antes, eles são realmente estimulados pelas regras ditadas pela cultura, onde cumpre forte papel a mídia, desde bem cedo e, mais cedo ainda quando muitos pais e outros adultos envolvidos na formação das crianças e adolescentes não estão atentos a estes aspectos. Em um teste com a faixa etária de 4 á 6 anos de idade as pesquisadoras apresentaram a um grupo de crianças imagens publicitárias de anúncios de lingerie em um modelo feminino que estava com a parte de cima coberta apenas com a mão. Perguntou-se a essas crianças se elas achavam correta uma representação daquele tipo, elas foram categóricas em dizer que não e passaram então a cobrir, com lápis de cor ou colagens, aquela parte exposta no corpo da modelo, pintaram até mesmo os pés, que também estavam descobertos. E então mandaram essas imagens para a agencia publicitária que as havia produzido, com os dizeres: ”É assim que queremos ver as pessoas”, ou seja, como deveriam ser, livres de estereótipos pejorativos e limitantes, puramente sexualizados. Capazes de criarem suas próprias identidades e satisfazerem-se nas suas múltiplas experiências durante a vida.
Essa sexualização precoce de crianças e jovens é uma forma de violência simbólica e física, também econômica, social e política na medida em que os governantes não intervem de forma efetiva nestes excessos.
Precisamos ensinar nossas crianças e adolescentes a terem um espírito crítico para avaliarem o ambiente em que vivem, o que acatar e o que descartar, o que é manipulação por parte da sociedade, da mídia, como podem reagir, lembrar-lhes sempre de que são pessoas e não objetos, não imagens para serem contempladas, de que são capazes e devem construir sua própria identidade e, nos lembrar também, de que, como pais, familiares, educadores e outros adultos deste entorno de formação, somos responsáveis pela criação de seres humanos, adultos, que queremos que se saiam melhor do que nós, que possam assimilar princípios e atitudes que os faça entender que se é único e que se tem muitas potencialidades e serem descobertas e desenvolvidas. Estimular uma consciência coletiva nos nossos filhos, nos nossos alunos, de que todos tem um papel a cumprir, mas este papel oferece muitas possibilidades de atuação pessoal e social, de que não precisamos ser exatamente como o que se coloca como bonito, perfeito ou desejável. Precisamos, ainda, trabalhar o conceito de relações igualitárias, onde ambos os sexos podem enxergar-se de forma não estereotipada, mas com dignidade, respeito e compreensão mútuos. Faze-los entender que, independente do sexo e outras características, somos todos seres humanos e esperamos vivenciar, da melhor forma possível, todas as nossas experiências pessoais e sociais, sem sermos marginalizados caso não sigamos ou nos adeqüemos a um padrão imposto de postura e de comportamento socialmente aceitáveis. Por isso é importante assinalar aqui ainda o importante papel da educação formal das crianças e jovens, seja no âmbito escolar e social, mas, principalmente, familiar, no sentido de serem educadas para pensarem por si mesmas e não simplesmente reproduzirem comportamentos estereotipados e estimulados pela sociedade e todo seu aparato. Investir no poder social de mudança, desde a família, desde casa, poderá nos conduzir aos ditames da dignidade humana, aliás, estabelecidos constitucionalmente, até em leis específicas para crianças e jovens, que asseguram também a estes o seu direito de serem tratados e vistos dignamente. Neste ponto cito o importante educador Paulo Freire a respeito da educação crítica para transformar e emancipar a sociedade: ”Daí a ênfase que dou (...) não propriamente a análise de métodos e técnicas em si mesmos, mas ao caráter político da educação de que decorre a impossibilidade de sua neutralidade.” (Ação cultural para a liberdade, 1976).
Campanário
Enviado por Campanário em 22/02/2012
Código do texto: T3512878

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Campanário
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