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ARQUITETURA (ECLÉTICA) MONUMENTAL



Na História da Arte em geral, as análises formais não devem ser tão severas a ponto de condenar miscigenação de estilos, e particularmente no Brasil, as condições locais condicionadas pelas estruturas sociais e econômicas, acesso a informações e contribuição de correntes imigratórias com tradições culturais próprias, terminaram criando importantes obras arquitetônicas, classificadas como ecléticas.
O último quartel do século XIX nas capitais e o primeiro do século XX em outras cidades, ficou marcado na arquitetura por esse ecletismo brasileiro formado pela convivência do Neoclássico introduzido pela Missão Francesa de 1816 e Grandjean de Montigny, já despido da austeridade das fachadas principais com pórtico ladeado pela colunata avançada e frontões triangulares, e o aporte de “exotismos” do pitoresco, via de regra cópias de soluções européias menos formais.
Decorre daí a condenação, por importantes estudiosos da arquitetura brasileira, dessa coabitação em um mesmo espaço construtivo de soluções arquitetônicas diversas, fazendo vagar a fantasia ao superpor estilos como o barroco europeu com elementos Art Nouveau e Art Déco. O relativo atraso na transposição de estilos, acentuado pela distância dos grandes centros explica essa fusão de escolas na composição das fachadas, elemento determinante na estética arquitetônica.
O ecletismo na arquitetura é basicamente conciliação, criado por agentes que produziram uma linguagem plástica socialmente definida, dirigida para um estrato, e adquirindo significado simbólico para esse grupo social.
Para o transeunte que hoje passa pela Rua Nove de Março o edifício da Sociedade Harmonia Lyra chama de imediato a atenção, e para aqueles que têm conhecimento de história local, marcada pelas inúmeras associações assistenciais, esportivas, recreativas e culturais necessárias à sobrevivência dos imigrantes, pensa-se de chofre em uma construção de meados do século XIX. Construção imponente, marcadamente européia, é na verdade um excelente exemplo da arquitetura eclética em Joinville, não tão antiga quanto a fundação da Sociedade Harmonia em 1858, bem mais nova, “apenas” de 1930.
A história dessa sociedade está intimamente ligada desde sua fundação a espetáculos teatrais seguidos de bailes nos então chamados Salões, dos quais havia o Ravache, o Kuehne, o dos irmãos Berner, todos voltados para cultura e diversão. Paralelamente, a existência de duas Sociedades voltadas para a execução de peças musicais, o Musikquartett e a Musikverein, levaram em 1921 à fusão da Harmonie Gesellschaft com estes, originando-se daí o nome Harmonie-Lyra, tal como aparece na fachada. Assim, em 8 de novembro de 1922 a recente Sociedade Harmonie-Lyra adquiriu terreno para construção de sua sede social na Hafenstrasse (Rua do Porto, atual Nove de Março), em 27 de março de 1928 lançando a pedra fundamental. Um ano depois abriu concorrência pública para a construção, sendo vencedor o projeto do Eng. Dr. R. Muenz, alterado em 24 de março de 1929, ficando a construção a cargo de Max Miers. As obras foram realizadas em ritmo acelerado e no ano seguinte em 24 de maio houve a festa da cumeeira, em 13 de dezembro a entrega do prédio, no dia 25 o baile de gala, e finalmente, em 26 de dezembro de 1930 o primeiro concerto sinfônico.
O resultado visível hoje é um edifício formado por dois prédios unidos por pequeno corredor, criando comunicação entre a sede social onde funcionam o salão nobre, o restaurante e uma boate, sendo este bloco recuado em relação ao alinhamento do maior, que abriga o teatro. Apesar da diferença volumétrica entre os dois prédios e do tratamento ornamental diverso, há certa unidade visual pelas longas janelas e frontões presentes em ambos, sendo que originalmente, pelas colunas ladeando as respectivas entradas, havia maior identificação.
Analisando o “Projecto para Theatro e Casa de Reunião” de 14 de maio de 1929 do Eng. Dr. R. Muenz, vemos que a construção existente seguiu praticamente à risca o que havia sido proposto, com apenas duas alterações, o telhado da sede social avançava então até o prédio do teatro, ficando a entrada do chamado Salão Nobre no mesmo alinhamento do restante da construção, inclusive encimado por frontão. Na obra executada, essa entrada que hoje dá acesso ao restaurante está recuada, apenas se vislumbrando o frontão entre os telhados. Do lado esquerdo do edifício social houve também alteração na torre que dá acesso ao Salão Nobre, originalmente existindo uma porta de acesso frontal que foi deslocada para a lateral. Entretanto, a modificação maior na fachada e destoante do projeto original resulta de reforma havida em 1976, da qual trataremos adiante. Sabendo que a data original do projeto é de 14 de maio e o aprovado foi a 24 de maio percebemos que outra alteração quanto à fachada do edifício social foi a eliminação de balcões ao longo do primeiro piso, dos quatro pares de colunas ladeando a porta principal e nos dois blocos de janelas, reduzidas assim a um par na entrada, ainda presentes em 1951.
Esse era o projeto modificado e em que havia unidade visual, contudo durante a gestão de Júlio Wetzel na presidência da sociedade, houve uma alteração que destruiu a composição. Realizada em 1976, a obra foi executada por A. Köhntopp & Cia e assinada por Affonso Köhntopp avançando três metros ao rés do chão, eliminando algumas paredes internas e criando a atual boate. O avanço da fachada eliminou as seis janelas que davam continuidade às linhas verticais com as superiores, criou um terraço com balaustrada no andar superior e eliminou as duas colunas que ladeavam a entrada, assim como o balcão sobre o pórtico. Para evitar uma frontaria extensa foram criados vazios rebaixados na forma de arcos cegos, e posteriormente, em data não registrada, a porta de entrada foi definitivamente eliminada, deslocando-a para a empena esquerda (lateral do edifício), originando-se assim uma série de arcos sem função.
Podemos também constatar através das fotografias de 1930 e do centenário de Joinville em 1951, que o par de colunas que ladeavam a entrada do teatro desapareceu, ficando apenas as três portas de acesso sob o pórtico e balcão.
Para o simples observador, o impacto visual além da decoração se dá pelo imponente telhado de quatro águas cortados, com abertura de mansardas salientes, indicando características germânicas bastante comuns no sul brasileiro, acrescido da lucarna ou trapeira, abertura junto à cumeeira possibilitando luz e ventilação.
Pensarmos nas características deste telhado, acrescido das grandes janelas em duas ordens e dos frontões coroando as duas fachadas, a da sede social e a do teatro, teremos então fortes indícios de um barroco bastante comedido do norte-alemão, possível na Renânia, Pomerânia e Vestfália.
Cogitamos como possível inspiração do arquiteto, a região de Hannover na Saxônia buscando frontões semelhantes, contudo lá o habitual é formado por curvas e contracurvas o que aqui não ocorre, uma vez que as empenas são retas descendentes encimadas por tímpanos triangulares, com o ápice cortado.
As duas ordens de janelas alongadas e de vergas retas, sobrepostas originalmente no edifício social, e as ainda mais alongadas no teatro, respiram ares do Neoclassicismo dos edifícios públicos europeus, buscando na repetição das linhas verticais a simplicidade geométrica, resgatada da ordem palladiana. Apesar dessa rigidez imposta pelas linhas, o arquiteto introduziu no edifício do teatro óculos ovais, na verdade olhos-de-boi barrocos, necessários para iluminação e ventilação do teto com abóbada de berço, que se internamente cria interessante alternância de luz e sombra nos nichos, sobrecarrega a fachada com elementos decorativos.
Lembramos ainda que neste edifício, no centro do telhado destaca-se uma camarinha circular, tal como pequeno torreão acrescido à cobertura, e que neste caso não tem qualquer função de aproveitamento de espaço, sendo somente um elemento estético para interromper visualmente a longa linha da cumeeira, acrescentando um toque de germanidade.
Desde o projeto original parece ter sido essa a preocupação do arquiteto, acrescentar ornamentação à fachada imprimindo suntuosidade ao conjunto, principiando pelas colunas externas ainda existentes no espaço de comunicação entre o prédio social e o teatro. Ali, onde era a entrada para o Salão Nobre, o restaurante e antigamente um dos acessos ao Stammtisch e local das exposições da Exposição de Flores e Artes (hoje boate), nota-se que o capitel dessas colunas de fuste bastante curto, é formado por duplas volutas jônicas entremeadas com folhas de acanto coríntias, inexistindo base, com implantação direta no pavimento.
No edifício da sede social o frontão ostenta o símbolo da sociedade, uma lira cercada por ramos de oliveira, e abaixo do nome Harmonie-Lyra três reservas com festões de frutas: maçãs, peras e uvas, cercadas por fitas criando escudetes. Esse motivo é um tema clássico decorativo usado desde os romanos, amplamente difundido na renascença, porém seu padrão aqui é o do art déco presente em papéis pintados das décadas 1910-1920, e utilizados pelos melhores arquitetos e decoradores da época pela divisão equilibrada entre forma e cor.
No frontão entre os edifícios correspondente ao acesso do salão nobre aparece outra figura ornamental, que embora se afaste um pouco do geometrismo clássico do art déco pelas folhas estilizadas corresponde ao gênero: é um vaso com folhas artificiais de oliveira, evocando a tradição grega como símbolo de paz e vitória consagradas a Palas Athena.
Igualmente de caráter art déco são as duplas volutas que envolvem os óculos arquitetônicos na fachada do teatro, com a adição de mascarões ocupando grosso modo o papel de chaves de arco ou ainda ágrafes, sem outro papel que não o decorativo. Ainda na entrada do teatro, duas reservas enquadram ramos de folhagens de hera, um atributo das bacantes e símbolo da amizade. Com suas folhas alternadas formam desenho geométrico característico do art déco, que neste caso específico tem origem direta no modelo Neogrego de K.F. Schinkel (1781-1841) cujos desenhos influenciaram a escola do norte da Alemanha, onde forma e conteúdo sintetizam harmonia vital. Essa preocupação decorativa levou a encimar as seis pilastras, que separam os conjuntos de janelas na fachada, com capitéis formados por volutas jônicas nas extremidades e folhagens na área plana.
O ponto alto na decoração que normalmente atrai a atenção dos passantes são os quatro mascarões nas quinas do edifício do teatro, concebidos pelo escultor Fritz Alt (1902-1968) não como na tradição clássica das máscaras teatrais da comédia e tragédia, porém como glorificação dos poetas coroados de louros. Considero um momento importante em sua obra, simples porque realizada em cimento, como na decoração em estuque de toda a fachada dos dois prédios. Esses mascarões correspondem à modernidade da escola germânica dos anos vinte/trinta, exaltando um ideal de força e beleza viril, posteriormente associado ao momento político de glorificação do corpo no ideário fascista. Fritz Alt deve ter se inspirado em Ignatius Taschner e talvez em Arno Breker, introduzindo de forma equilibrada o verdadeiro e o belo, em um momento clássico que corresponde a valores de sobriedade, e ao moderno, na exaltação de um caráter étnico, aqui o germânico. O artista teve papel preponderante na execução da decoração de toda a fachada da Sociedade Harmonia Lyra, não sabemos até que ponto na discussão inicial do projeto com o arquiteto R. Muenz, uma vez que a maioria dos elementos decorativos já consta no projeto de 1929. De qualquer maneira a existência de uma placa-homenagem de sua autoria, executada em cimento patinado e colocada na entrada do teatro, aos moldes do art déco, com duas figuras masculinas sustentando a lira e duas femininas erguendo tochas simbólicas dos caminhos da iluminação dos espíritos, aponta para a presença efetiva do artista. Parece-nos bastante plausível que a indicação de Fritz Alt para a obra se deva à aproximação com Adolpho Trinks, igualmente participante do Stammtisch da Lyra, e membro influente desde a formação da sociedade.
Finalmente, concluímos que a majestosidade proposta pelo arquiteto R. Muenz para o edifício da Sociedade Harmonia-Lyra nos conduz a defini-lo como monumental, uma vez que para o bem comum deveria ser grandioso. Poderíamos questioná-lo, se do ponto de vista social, como uma expressão hierárquica de poder de um grupo, socialmente organizado e neste caso de uma etnia, caberia essa afirmação em detrimento dos demais. Por outro lado, inúmeras vezes os espetáculos eram públicos, de caráter assistencial e abertos a outras sociedades, não ficando restritos a uma classe social, daí ser discutível até onde iria o impacto psicológico do edifício como manipulação política.
Esteticamente, corresponde a uma obra arquitetônica colocada no topo da hierarquia das obras cívicas, como símbolo de seus ideais, buscas e ações, construindo uma herança para futuras gerações, nas palavras de Siegfried Giedion, historiador e crítico de arquitetura.
Como construção, embora eclética, aonde encontramos elementos neoclássicos, barrocos, art déco e até do modernismo nas esculturas da fachada, existe uma integridade na obra, forma e conteúdo traduzindo uma afirmação de um grupo socialmente organizado, coerência interna entre princípios e valores de uma sociedade burguesa formada nos moldes do século XIX e ainda vigente na primeira metade do século seguinte. Arquitetura monumental, perpetuando na memória e paredes objetivo máximo, o da harmonia entre os homens.



Walter de Queiroz Guerreiro, Prof. M.A.
Historiógrafo e membro da Associação Brasileira e
Internacional de Críticos de Arte (ABCA/AICA).

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Walter de Queiroz Guerreiro
Enviado por Walter de Queiroz Guerreiro em 27/03/2012
Reeditado em 15/04/2012
Código do texto: T3578357

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Walter de Queiroz Guerreiro
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