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Raça e etnia

     Esses dois termos, “raça e etnia”, estão bem presentes no nosso cotidiano, em conversas, nos jornais e revistas que lemos e em inúmeros programas veiculados na televisão, mas, ainda assim, a grande maioria das pessoas não sabe exatamente quais são as diferenças existentes entre os conceitos de “raça” e “etnia”.
     Quando perguntamos a um grupo de pessoas se elas sabem qual é a diferença que existe entre esses dois termos, alguns coçam a cabeça em sinal de dúvida e, após uns instantes de hesitação, assumem que não sabem ao certo.
    Na verdade, o que acontece no caso da falta de conhecimento acerca dos conceitos de “raça” e “etnia” é comum há muitos outros termos e expressões do nosso dia-a-dia. Nós já nos acostumamos a usá-los tão frequentemente que não paramos para pensar se eles são iguais ou se há alguma diferença entre eles. Essa falta de análise dos conceitos de termos e expressões que usamos rotineiramente é fruto, em parte, da nossa correria diária que nos impede de refletirmos sobre o que ouvimos, lemos e falamos.
    Aqui nesse texto eu procuro apresentar quais são as diferenças entre os conceitos de “raça” e “etnia”, segundo alguns ramos do conhecimento científico.
    O conceito de “raça” foi utilizado (especialmente no passado, com princípios pseudocientíficos), para justificar diferenças entre grupos humanos e baseava-se na idéia equivocada de que existiriam “raças superiores” e “raças inferiores”. Atualmente, sabe-se que a humanidade possui uma “única raça”, formada apenas por exemplares da espécie “Homo sapiens”. Mas, ainda assim, tal conceito encontra muito presente no nosso dia-a-dia.
    A primeira classificação da espécie humana em “raças” foi feita pelo francês François Bernier (1620-1688 dC), através da publicação da obra "Nova divisão da Terra pelas diferentes espécies ou raças que a habitam”, em 1684.
    Essa obra pioneira deu espaço para que nos séculos seguintes, especialmente no séc. XIX, vários outros naturalistas publicassem estudos sobre as supostas “raças humanas”. Entre tais pesquisadores podemos citar: o alemão Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840), o barão francês Georges Cuvier (1769-1832), o inglês James Cowles Pritchard (1786-1848), o americano Charles Pickering (1805-1878) e o suíço Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873).
     Nesses trabalhos, as “raças humanas” distinguiam-se pela cor da pele, tipo facial (principalmente a forma dos lábios, olhos e nariz), perfil craniano, cor do cabelo (preto, castanho, loiro, ruivo) e textura dos pêlos (liso, ondulado, crespo, grosso, fino etc.). De modo geral, esses pesquisadores agrupavam os seres humanos em quatro grupos: brancos, negros, amarelos e índios (chamados de pele-vermelha). Mas tal classificação não se limitava apenas à aspectos físicos, pois eles considerava também que essas diferenças físicas refletiam diferenças no conceito de moral e na inteligência. Ou seja, os brancos estariam situados no “topo da pirâmide”, enquanto que os demais grupos estariam em posições inferiores.
     Naquela época o estudo dos tipos morfológicos humanos, extrapolou a área da biologia, chegando até a área do direito criminal, da psicologia e da psiquiatria. Um personagem que se destacou nesse ramo controverso trata-se do psiquiatra e criminalista italiano Cesare Lambroso (1835-1909), que apresentou uma série de teorias, hoje totalmente desacreditadas, que deram origem à antropologia criminal. Esse ramo do conhecimento está atualmente extinto, mas foi seguido naquela época por um grande número de pesquisadores e instituições.
     Cesare Lambroso dizia que diversas anomalias hereditárias, neurológicas ou psíquicas desempenhavam papel preponderante na formação da personalidade do delinqüente. Baseando-se nessas idéias, ele formulou a teoria do "criminoso nato", segundo a qual os criminosos poderiam ser identificados por determinados traços físicos (tamanho do crânio, tipo de orelha, formato do nariz, largura da testa, grossura dos lábios etc.). Todas essas idéias levaram anos para serem derrubadas e acabaram reforçando a idéia de “raças e culturas superiores”, em contraposição àquelas consideradas “inferiores e desprezíveis”.
     Vale lembrar que ao longo de todos esses séculos, desde a primeira obra do francês François Bernier, muitos países (Espanha, Portugal, Alemanha, Itália etc.) utilizaram tais princípios para justificar sistemas escravocratas e de dominação. E até mesmo nas duas grandes guerras mundiais esses princípios raciais foram utilizados para justificar atos contra grupos e povos, especialmente contra judeus, negros e ciganos.
     Franz Boas (1858-1942), considerado um dos pais da antropologia cultural, foi um dos primeiros pesquisadores a questionar os conceitos de “raça superior” e “raça inferior”. Ele dizia que “cada cultura constitui unidade formada por um conjunto de elementos inter-relacionados e só através do estudo de cada um desses elementos pode-se compreender o todo”. Dessa forma, ele concluía que não existem “culturas superiores” ou “culturas inferiores”, pois todas constituem fenômenos específicos e originais.
    E Franz Boas foi seguido por vários outros pesquisadores que combateram as idéias equivocadas que dividiam a humanidade em raças e culturas, ditas, “superiores e inferiores”, entre os quais: o inglês Ashley Montagu (1905-) e os americanos Richard C. Lewontin (1941-) e Stephen Jay Gould (1941-).
     Nessa questão, vale destacar ainda o papel do francês Claude Lévi Strauss (1908-), que com o método estruturalista na análise de diferentes culturas deu valiosa contribuição à antropologia social. Os estudos de Lévi Strauss causaram grande repercussão, pois lançavam por terra o mito segundo o qual todas as sociedades seriam etapas de um processo de evolução único que culminaria na atual sociedade ocidental. Ele, em seus estudos sobre índios brasileiros, mostrou que cada cultura é única e por isso mesmo deve ser reconhecida e valorizada.
     Mas, ao final de tudo isso, após essa longa apresentação acerca da polêmica e de todos os males trazidos até nós desde a criação do conceito de “raças humanas”, é preciso agora conceituar o termo “etnia”.
     Atualmente, o termo “etnia”, recomendado por biólogos e antropólogos, está associado às características de cada grupo humano. Entre as diversas características usadas para definir um grupo étnico, três dessas são mais comumente utilizadas: (1) aspectos morfológicos do corpo, advindos de herança genética (estatura, cor da pele, cor dos olhos, cor e tipo de cabelo, formato do crânio, quantidade de pêlo no corpo etc.), (2) Diferenças entre as línguas (Português, Espanhol, Inglês, Russo, Mandarim etc.) e os regionalismos lingüísticos (sotaque, diferenças entre palavras e expressões etc.) e (3) aspectos culturais (religião, costumes, tipo de roupa, culinária etc.).
     O Brasil é considerada uma nação extremamente diversa em etnias. Aqui em nosso território podemos encontrar mais de 220 povos indígenas e um grande número de comunidades tradicionais (quilombolas, ribeirinhos amazônicos, seringueiros, castanheiros, pantaneiros, caiçaras, pescadores artesanais do São Francisco, jangadeiros do Nordeste, etc.), todas consideradas minorias étnicas, culturalmente distintas da nossa “sociedade nacional”, conhecida como sociedade urbana-industrial.
     Para saber mais sobre as diferenças entre nós, os índios e os grupos tradicionais leia o ensaio “comunidades tradicionais e povos indígenas” (publicado no Jornal Chico, n. 24, de 01 de dezembro de 2006).
     Ao final, quero lembrar que os erros do passado devem ser evitados, e cada um de nós deve usar essas informações para que juntos possamos construir um mundo sem divisões, quer sejam étnicas, de gênero, de nacionalidade, ou de qualquer outro tipo.
     Quero lembrar ainda que, independente de aceitarmos ou não, cada pessoa possui direitos inalienáveis, ou seja, direitos que são imutáveis e não podem ser tirados, negados ou transferidos a qualquer outra pessoa. Tais direitos, como o direito à vida, liberdade de expressão e de escolha religiosa, liberdade pela opção sexual, entre tantos outros, não podem ser cerceados, pois eles não estão vinculados a nenhuma característica física ou cultural, mas estão sim ligados à nossa essência humana – que é uma só para todos.

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Publicado no Jornal Chico, edição n. 27, p. 05, de 01/02/2007. Gurupi – Estado do Tocantins.

Giovanni Salera Júnior
E-mail: salerajunior@yahoo.com.br

Curriculum Vitae: http://lattes.cnpq.br/9410800331827187

Maiores informações em: http://recantodasletras.com.br/autores/salerajunior
Giovanni Salera Júnior
Enviado por Giovanni Salera Júnior em 03/02/2007
Reeditado em 31/12/2011
Código do texto: T368594
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Giovanni Salera Júnior
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