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CANUDOS REVIVIDO Comentando a obra do Dr. Ruy Bruno Bacelar de Oliveira

A Guerra dos Caceteiros


Li com perplexidade e estupefação o livro “De Caldeirão a Pau de Colher: A Guerra dos Caceteiros”, do escritor baiano/conquistense - geólogo, geofísico pós-graduado nos Estados Unidos e no Japão, Doutor Ruy Bruno Bacelar de Oliveira.

Confesso que fui tomado por sentimentos vários, à medida que me aprofundava na leitura da envolvente narrativa do excelente escritor, que tem a seu crédito o grande trabalho que realizou sobre Canudos, de Antonio Conselheiro, no seu livro “Canudos - O Assassinato da Liberdade”.

Imagine, leitor, a população nordestina - faminta, sedenta de água, de educação, de assistência à saúde. Sem emprego, sem renda que lhe ofereçam as mínimas condições de sobrevivência, fazendo parte apenas da estatística nacional brasileira como integrante da população - vítima de total exclusão social.

Imagine esta população conhecendo o oásis de Caldeirão, a 17 km. do Crato, em pleno sertão cearense, cujas terras pertenciam ao Padre Cícero Romão Batista, muito bem administradas pelo beato José Lourenço e onde viviam cerca de 2000 pessoas em regime cooperativo!

Caldeirão, era auto-suficiente; lá não havia fome e a comunidade trabalhava na lavoura, obtendo comida farta para todos e ainda fabricava utensílios de couro.

Com a morte do Padre Cícero (20/07/1934), a Igreja Católica reclamou seus bens e aliou-se ao governo para destruir Caldeirão...

Em plena Ditadura Vargas (1936), o governo mandou destruir Caldeirão, a ferro e fogo.

O ataque noturno, fez em chamas cerca de 400 casas. Houve muitos mortos e feridos. O beato José Lourenço fugiu para a Chapada do Araripe - Ceará, onde foi novamente perseguido e atacado pelas milícias... com muitas mortes e a dispersão dos seguidores de José Lourenço e Severino Tavares...

Desta feita a Chapada do Araripe foi bombardeada por terra e pelo ar, por ordem do Ministro da Guerra. A população foi chacinada, houve mais de cem fuzilamentos, alguns dos “fanáticos” sangrados, dando-se aí a morte de Severino Tavares.

Mais tarde (1937), remanescentes de Caldeirão construíram outra comunidade em Pau de Colher, na Bahia, sob a liderança de Senhorinho, posteriormente de Quinzeiro, José Camillo e muito outros, cuja comunidade chegou a abrigar três mil pessoas.

Novamente, sob o argumento de que eram “fanáticos” que representavam perigo para a ordem pública, acusados de simpatizantes do comunismo, (1937/1938) foram chacinados, em nome da civilização, em vários ataques das forças do Exército e da Polícia pernambucana, comandada por Optato Gueiros... Com participação das Polícias do Piauí e da Bahia no cerco aos "fanáticos", cujas armas eram uma dúzia de espingardas e cacetes feitos de ipê.

Nestes episódios foram mortas centenas de pessoas, entre elas, homens, mulheres, crianças e anciãos... Mais de cem pessoas foram presas, dezenas de moças foram abandonadas em Casa Nova e adjacências, entregues à prostituição; muitas crianças foram dadas às famílias da região a título de adoção e algumas dezenas foram levadas para Salvador, confinadas na Escola Profissional para Menores...

O livro recorda a grande recessão causada pela destruição de 72 milhões de sacas de café - ordenada por Getúlio, vez que os EUA suspenderam a compra do café brasileiro fazendo os preços despencarem, trazendo desemprego em massa no sudeste (SP) obrigando os nordestinos a deixarem as fazendas de São Paulo, fazendo o penoso caminho de volta...

Lembra o autor que os destinos do país eram traçados no Rio de Janeiro, capital federal, mais precisamente na Rua do Ouvidor, nos cassinos e prostíbulos cariocas...

Atualmente, isso acontece em Brasília, onde senadores e deputados votam secretamente contra os interesses nacionais e nossos governantes vivem atrelados às ordens expressas do FMI - Fundo Monetário Internacional.

Havia à época da ditadura Vargas o “patrulhamento ideológico” e a corrupção da consciência, fatores persistentes nos nossos dias...

O beato José Lourenço, que nasceu em Serrania - Pernambuco, em 1872, faleceu de peste bubônica em 12 de fevereiro de 1946, o que nos leva a concluir que se afastara há anos, da sua labuta, desde o bombardeio e a destruição da Chapada do Araripe. Crimes, cometidos no governo Vargas, em nome da civilização e da religião...

Em relação a Vitória da Conquista, Ruy Bruno Bacelar de Oliveira conta que em 1932, seu pai, jornalista Bruno Bacelar, foi preso e transferido para a Casa de Detenção, em Salvador, por mera perseguição política. Retornando a Conquista, ameaçado de morte, exilou-se temporariamente em Minas Gerais. Voltando a Conquista, reinicia a publicação do seu jornal “Avante”, defendendo os mesmos princípios de antes, apoiado por intelectuais e parte da população. Em 3 de novembro de 1933 teve seu jornal incendiado juntamente com o livro “De Lenço Vermelho”, de sua autoria tendo o poeta Laudionor Brasil como parceiro. No dia seguinte, os chefes políticos mandaram soltar alguns bandidos que estavam presos da cadeia pública, que, liderados por conhecidos criminosos de aluguel, destruíram todas as máquinas gráficas do jornal, algumas delas, importadas. Em seguida, os mandantes do crime saíram de casa em casa recolhendo exemplares do livro “De Lenço Vermelho”, que foram também queimados em praça pública, enquanto a Justiça fazia vistas grossas...

Em síntese, o autor critica as nossas universidades, cujos grupos dominantes têm por objetivo único - o poder... Fala da omissão da sociedade e da incompetência do governo... Refere-se a indústria da religião - Deus e satã - a fé substituindo a ciência... Igrejas lotadas, jovens e velhos de bíblia nas mãos, encontram solução de todos os seus problemas!

Acrescento a esta síntese do livro de Ruy Bruno, as filas intermináveis nos hospitais, o desemprego, os políticos oportunistas e enganadores, a indústria da seca, a violência policial, a banalização do mal, o famigerado capital internacional, a sonegação pelos ricos, a concentração de terras, o país mergulhado em colapso moral e ético...  A falta de consciência patriótica, o interesse individual e grupal - posto sempre acima dos interesses coletivos, o sucateamento de grandes empresas estatais para posteriores doações a grupos multinacionais, como se a doença da "vaca louca" tivesse acometido os maus brasileiros - detentores do poder...

Guardadas as devidas proporções, a corrupção continua como nunca em Vitória da Conquista, na Bahia e no Brasil...

Na época de Getúlio Vargas, nordestinos eram confinados em fazendas - meros campos de concentração - totalmente desamparados e sem o direito de sair, onde morriam famintos e doentes!

Por falar nisso, você sabia que os americanos inventaram os campos de concentração para aprisionar imigrantes de outros países? E que este modelo foi copiado e adaptado por Hitler, na Alemanha nazista? E por Stalin, na União Soviética?

Você se lembra do número de jornalistas assassinados em Conquista e região nas décadas de 1980 e 1990? Lembra-se que neste período houve arrombamento e destruição de documentos nos jornais O RADAR e A TARDE, e que o Forum foi incendiado?

A  falta de memória é o grande alimento da impunidade...


Ricardo De Benedictis
Enviado por Ricardo De Benedictis em 16/08/2005
Reeditado em 03/02/2008
Código do texto: T42914
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo De Benedictis
Vitória da Conquista - Bahia - Brasil, 77 anos
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Ricardo De Benedictis