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“MEU QUERIDO CANIBAL”

Lilian Daianne Bezerra Mota
Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Centro de Pós-Graduação e Pesquisa Visconde de Cairu (CEPPEV)

- A IDENTIDADE BRASILEIRA -
Reflexo do passado, presente e futuro

“Não há um único documento de cultura que não seja também um documento de barbárie. E a mesma barbárie que o afeta, também afeta o processo de sua transmissão de mão em mão”. (WALTER, Benjamin).

INTRODUÇÃO

O Brasil é um país muito rico e diversificado, que possui um acentuado acervo histórico e cultural, além de uma memória tradicional que permite o deslumbramento de sua história. Esse acervo envolve uma gama de difusão de valores, transmitida através da narrativa cultural, para melhor entendermos a identidade do lugar e garantir a propagação da memória do país para as gerações futuras. Na verdade, a identidade trata-se de um processo de legitimação social e cultural de determinados elementos históricos que confere a um grupo, um sentimento coletivo de ser cidadão e fazer parte de uma nação. Apesar de uma diversidade cultural muito extensa, o país ainda preserva um legado cultural que favorece a sobrevivência de um povo.

Tive como prioridade o tema identidade, dentro do objeto de estudo “Meu Querido Canibal”, por saber a importância desse elemento em uma nação, tendo em vista que é muito difícil identificar essa questão no meio de uma heterogeneidade de componentes históricos, culturais e sociais tão ampla quanto existe no Brasil. A identidade é afirmada através de uma herança aderente a uma série de artefatos históricos que contribuíram para a construção da nacionalidade brasileira. Em “Meu Querido Canibal”, estes artefatos aparecem através de uma narrativa acerca do descobrimento do Brasil e dos acontecimentos após esse período.

Posiciono-me sobre essa temática através de referenciais teóricos e abordagem do objeto em pauta, que contribuíram para um novo olhar acerca do que podemos entender como identidade brasileira, sendo que esta teve como contribuição, inúmeras influências externas. Assim sinto-me apta a dizer que a identidade de um lugar não se processa de maneira individual e que falar de originalidade nesse contexto parece algo improvável. Como podemos definir o que é ser brasileiro em um país de tantos desiguais, preconceitos, diferenças, costumes e misturas diversas? Ou somos brasileiros por simplesmente termos nascido aqui? Essas são questões que tentarei responder ao decorrer do trabalho.

A IDENTIDADE BRASILEIRA – REFLEXO DO PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Qual o pressuposto que temos para definir quando se começou o processo identitário do Brasil? Obviamente, o território já era procedente de cultura antes que outros povos soubessem da sua existência. Contudo, o que marca a história e identidade do país, é o “descobrimento” dele por outros países como Portugal, através da expansão marítima. Anteriormente, a história dos índios apenas foi escrita por europeus e cada um deles possuía uma visão diferenciada. E nessa falta de registros acerca do período “pré-descobrimento”, é que nos vemos agora de mãos atadas acerca de fatos essenciais para a constituição de uma identidade própria. Em “Meu Querido Canibal”, percebemos como é importante a historiografia para a construção de um povo e isso reflete em nossa sociedade atual. “A gente fica a pensar se a história não será em grande parte um romance de historiadores” (MONTEIRO, 1992).

Nos fundamentos da sociedade ocidental, o colonizador tenta reproduzir sua dialética política, econômica, social e cultural no lugar que se apropria, afastando o nativo de continuar vivendo de acordo com os seus preceitos. Assim, a imagem refletida do conquistador passa a fazer parte de um lugar onde antes existia uma cultura própria, mas, ao mesmo tempo, diversificada devido às inúmeras tribos com diferentes costumes já existentes. Contudo, não se vive a cultura do outro em sua essência. Tendo a memória como instrumento de intensificação, o colonizado tem a possibilidade de dar continuação a sua cultura, mesmo existindo perdas significantes. Deste modo, o coração da cultura nativa sempre estará pulsando e o conceito de igualdade se dizimará. Muitas vezes não se vive nem uma cultura nem outra. Apenas oscila em meio a tantos devaneios e diferenças, impossibilitado de construir a sua própria identidade. “A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro” (GOMES, 1990).

Em “Meu Querido Canibal”, Antônio Torres mostra que essa inserção de uma outra cultura e a imposição à escravidão dos indígenas não foi de forma tão pacífica assim. A Confederação dos Tamoios foi uma maneira dos índios exigirem os seus direitos e maximizassem a voz para as injustiças existentes numa organização de resistência aos colonizadores. Torres se debruça em traçar um painel das primeiras décadas de história brasileira mergulhando em acontecimentos como a criação, auge e massacre da Confederação dos Tamoios, o arranjo social das comunidades tribais, o estilo de vida, as mentiras e trapaças dos conquistadores e a fundação da cidade do Rio de Janeiro.

A idéia de identidade vive atrelada a uma série de questões históricas, políticas, econômicas e sociais, vinculada a um contexto individual e coletivo, intitulada através da quebra de fronteiras que determina a constituição da nação. O Brasil, como qualquer outro Estado político, passou por inúmeras transformações advindas de um conjunto histórico amplo e diversificado, juntamente com a inserção de vários componentes de outras nações até determinar-se como nação unificada e centralizada, constituindo o que somos hoje. Essa nação, porém define-se como uma comunidade imaginária constituída da apropriação de uma única língua, religião, costumes e etnias, associando-se a um processo de homogeneização que contribui no desenvolvimento da identidade brasileira. Contudo, diversas tensões culturais e literárias tributaram no processo de identidade, sendo a antropofagia um dos maiores enfoques dessa dialética, ou seja, o processo de homogeneização citado não é tão inerente assim. A identidade apenas tentou ser restringida a uma delimitação de fronteiras, mas com alternâncias sob as demais culturas.

A antropofagia, muito trabalhada por Antônio Torres em “Meu Querido Canibal” e por Oswald de Andrade em “Manifesto Antropofágico”, forneceu subsídios na construção da nação Brasil. Através dela, o homem se liga a uma outra cultura e transforma a sua e a outra que foi ligada, em um processo de troca mútua e simbólica, constituindo uma quebra de paradigmas e ao mesmo tempo fluxo entre as culturas. Esse choque de culturas se transforma em uma experiência renovada, possibilitando que o “eu” se encontre com o “outro” e dialoguem seus conhecimentos numa ação transformadora e híbrida. A antropofagia representa a história da construção cultural e literária do país. Todavia, sabemos que esse processo foi imposto e ao mesmo tempo em que trouxe benefícios, acarretou uma infinidade de problemas para os nativos da Nova Terra, que foram privados de exercer a sua vontade e seguir os seus próprios princípios culturais. “Aqui também os mais velhos do lugar tiveram a sua história empurrada para debaixo do tapete asfáltico” (TORRES, 2005).

O movimento antropofágico brasileiro tinha como objetivo a ingestão da cultura do outro. Com base nisso, pode-se observar a importância das diversas influências externas pela qual o Brasil passou durante mais de 500 anos de história como: a cultura afro-descendente, européia e americana. Apesar da cultura indígena encontrada pelos portugueses já ser bastante diversificada devido às milhares de tribos que habitavam o país, o estrangeirismo foi fundamental para a heterogênea situação atual do mesmo. A diversidade, composta nessa experiência estrangeira, mesmo representando uma troca, pode acontecer através de uma força dominadora, acoplada a anseios lucrativos, proporcionando uma disparidade imposta e generalizada. Contudo, a troca em si, como ação conjunta de transformação, ponderando-se do outro como uma contribuição do meu ser, favorece a idéia de câmbio entre duas culturas. Apesar disso, a cultura do outro, hierarquicamente, é moldada e, muitas vezes, alterada.

Segundo Oswald de Andrade no Manifesto Antropofágico:

“Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. O movimento Antropófago. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz”.

Movimentos literários e artísticos procuram no discurso antropofágico a realização de uma linguagem e a composição identitária da cultura e da pátria. Assim, a antropofagia ainda é apreciada numa conjuntura cultural, sendo que muito disso foi retomado no ideário nacionalista do Tropicalismo e no Modernismo. Hoje, presenciamos a noção de estrangeirismo e nativismo ligados quando nos debruçamos sobre a arte e arquitetura barroca expostas nas ruas de cidades brasileiras, onde a contribuição européia, africana e indígena, aparece conectada, convergindo uma a outra numa perspectiva tributária de costumes. A hibridação cultural, aplicada pela Antropologia, possibilita o nosso olhar em torno de uma perspectiva antropofágica, viabilizando uma contemplação esporádica sobre a arte e a literatura dos movimentos culturais, além de uma afirmação identitária. É nesse contexto, que a assimilação e incorporação do outro se revela e nos possibilita entender a formação cultural do Brasil, através do processo de transculturação. A partir desse contexto, pode-se perceber a entrada da expressão cultural e da diferença.

A desconstrução do contexto hegemônico se faz quando outros signos identitários, construindo um discurso cultural e possibilitando o multi-culturalismo, se ligam à idéia de cotidiano e sociedade diversificada. Contudo, o conceito de identidade cultural ainda continua disperso e apesar da singularidade de cada membro da sociedade, ela ainda se estabelece no plural. A necessidade de designar uma originalidade brasileira, através de uma cultura única na composição nacional, pode existir, mas não é passível de acontecer em nenhum Estado político. O passado já foi traçado, e moldá-lo de uma outra maneira é uma missão impossível. A cogitação de uma ruptura com a história escrita e com o passado cronológico é uma concepção utópica e imaginária, assim como a linha do Equador. O conceito de identidade igualitária esperada na sociedade ocidental é uma dialética ambígua e deturpada, pois a pluralidade é fato e o hibridismo é uma constante em nossas vidas. As diferenças culturais e sociais nas regiões brasileiras são reflexos de um legado histórico oriundo dos diferentes povos que colonizaram o país.

Por muitos anos, os índios, os negros, os mestiços e outras etnias consideradas diferentes, foram tratados dessa forma. Isso originou eventos como o Movimento Negro, a resistência dos sem-terras, o genocídio no Amazonas, o imperialismo midiático e a imposição da língua inglesa no mercado de trabalho brasileiro, constituindo o autoritarismo dentro de fatos históricos e econômicos, devido ao processo de domínio externo que houve no passado. Esse desmembramento na identidade nacional é conseqüência complicada da herança histórica.

A dependência cultural é uma forma de apropriação de produções artísticas e do pensamento de um determinado lugar. A formação identitária da cultura brasileira ainda não foi legitimada, pois muitos buscam uma originalidade e autenticidade dentro desse parâmetro. E mesmo tendo um vínculo único chamado nacionalidade, não há espaço para unicidade e essência dentro desse patamar identitário. É uma repleta inviabilidade o discurso de homogeneização cultural. Através desse discurso da originalidade da identidade brasileira, podemos ter um novo olhar intelectual e cultural apenas sobre o passado imaginário dos nativos indígenas no período anterior ao descobrimento, possibilitando um diálogo após a incorporação dos legados afro-europeus e a consciência da condição histórica. As expressões populares que conhecemos hoje são reflexos do fomento pós-descobrimento.

Mas enfim, qual é a identidade do Brasil afinal? Os brasileiros para serem chamados dessa forma foram determinados pela legitimação de uma língua, demarcação de território e costumes semelhantes. Por que falar mal da nudez de hoje, se desde muitos séculos os povos indígenas já viviam nus? Como não falar de imperialismo americano, se fomos submetidos a esse governo desde a vinda dos portugueses? Por que não falar de preconceito, se índios e negros foram escravizados e tratados como diferentes e hoje ainda são olhados com desconfiança e vistos como marginalizados? Hoje podemos ver como os acontecimentos passados interagem com o nosso presente e como fomos criados em cima de estereótipos.

Edificar uma nação implica no desenvolvimento de uma identidade nacional, traçada dentro de fronteiras geográficas, culturais e étnicas. A construção da nacionalidade brasileira implica até nossos dias quando nos deparamos com acontecimentos como os 500 de “descobrimento” do Brasil e não sabemos se é motivo de comemoração ou não. E sempre a pergunta “Quem somos?” surge em meio aos discursos. Particularmente, o que nos diferencia das demais nações é o tempo que nos dirige e determina que vivemos há apenas 506 anos e que antes disso a nossa narrativa não existia.  Apesar do pouco tempo que foi determinado, muito se foi feito para que o Brasil tivesse uma memória e patrimônio que nos possibilita dizer que possuímos identidade. Evidentemente, a literatura é uma intensa instituição que contribui para a acepção imaginária e cultural de sociedade e produção de valores que legitima a nossa cultura, e determina que grupos sociais diferentes participem de um conjunto identitário. É através dela que identidades culturais e nacionais são configuradas e narrativas passam a dar sentido aos nossos modelos de vida atual e anseio de pertencimento à pátria, sem submeter-se bruscamente a aspiração estrangeira.

Atualmente, mais uma vez estamos passando por um processo de ultrapassar barreiras e permitir que o outro faça parte de nós através das relações internacionais e parcerias entre empresas e multinacionais. Beneficiando ou não, as relações externas sempre existirão e nem países como os Estados Unidos seriam capazes de viver sem conexão alguma com outro país. O que eu vejo nisso tudo, é que o Brasil é um lugar de raças, mitos, preconceitos e heterogeneidade, mas acima de tudo, ainda tem um povo que mesmo sofrendo ainda torce (futebol), mesmo com fome ainda brinca (Carnaval), mesmo sendo discriminado, luta (Movimento Negro), mesmo sendo dependente, não se aliena. Memória, mito, história e identidade são essenciais para a existência social, mas só pertencendo a um lugar, sendo o seu ou não de origem, é que somos munidos de alma, de pertencimento. Sem isso, somos apenas seres vagantes, “sem êra nem bêra”, frutos do acaso, o que não acredito. Orgulho de pertencer a um lugar é ter identidade. Existir é ter identidade. A altivez promissora dessa terra é que somos bem aventurados de correr entre os tiros de bala e uma guerra civil, viver em meio ao tráfico de drogas, ser discriminado ao entrar num restaurante ou uma universidade, ser mordido pelas cobras políticas e midiáticas, ser barrado por crianças nas sinaleiras, por uma série de desempregados e analfabetos, assistir a vida da maneira mais cruel e ainda assim ter forças para levantar em meio a tanto lixo, morbidez e ganância, acordar alagado pela chuva e dizer: “a vida continua” e “a esperança é a última que morre”. E como disse Torres, “ninguém estava preocupado em construir um país, mas em enriquecer rapidamente, a qualquer preço.” E o povo ainda vive, tendo ou não, identidade.

REFERÊNCIAS

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Lilian Daianne Bezerra Mota
Enviado por Lilian Daianne Bezerra Mota em 16/05/2007
Código do texto: T489680

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