Otelo, Verdi - Óperas, guia para iniciantes.

Autoria – Verdi (Giuseppe Fortunino Francesco – 1813-1901 – Itália).
Libreto – Arrigo Boito.

Personagens
 
Otelo – General Mouro a serviço da República de Veneza. Interpretado por um Tenor.
Desdemôna – Dama veneziana e esposa de Otelo. Interpretada por uma Soprano.
Iago – o principal vilão. Militar veneziano e confidente de Otelo. Interpretado por um Barítono.
Lodovico – o Embaixador de Veneza. Interpretado por um Baixo.
Cássio – o Capitão das forças de Otelo. Interpretado por um Tenor.
Montano – oficial da guarnição, em Chipre. Interpretado por um Barítono.
Roderigo – cavaleiro veneziano. Interpretado por um Tenor.
Emilia – mulher de Iago e aia de Desdemôna. Interpretada por uma Mezzo Soprano.

Local e Época.
 
Chipre, meados do século XV.

Enredo
 
Ao subirem as cortinas para o início do primeiro ato, a plateia imerge no fabuloso cenário que reproduz uma bela praça fronteira ao mar de Chipre, apinhada de entusiasmados cidadãos que ali se aglomeram para saudar Otelo, que há pouco venceu a guerra contra os turcos.
Após um breve agradecimento do homenageado, a festa perde o caráter cerimonioso que mantinha e uma alegre descontração toma conta do povo, enquanto o General segue para o seu Palácio, ansioso em rever a sua amada esposa, Desdemôna.
Porém, o clima de euforia pela vitória e de alegria pelas conquistas não é partilhado pelo invejoso Iago, por não ter sido promovido por Otelo ao posto de lugar-tenente.
E tamanha é a sua ira e frustração que em seu pensamento só existe espaço para urdir a mais cruel vingança contra o escolhido, o jovem Cássio, e contra o próprio General, que o preteriu.
Imerso em ódio, ele dá início à sua funesta trama ao dizer a Roderigo – cuja paixão por Desdemôna é conhecida – que ele tenha um pouco de paciência, pois logo ela se cansará de Otelo e, então, ele terá reais chances de seduzi-la.
E ante a alegria do esperançoso admirador, ele prossegue com o seu plano maquiavélico. Fingindo-se amigo, diz-lhe que exercite, sim, a esperança, mas, também, que tenha cautela com o jovem Cássio, cuja recente promoção pode ser creditada a uma interferência da esposa do General a favor de um de seus amantes.
Com essa sórdida intriga, ele consegue atingir dois objetivos: indispor Roderigo contra Cássio e difamar a casta Desdemôna.
Porém, nesse momento, Cássio se aproxima da dupla e ambos agem como se nada tivesse havido. Convidam o recém-chegado para uma bebida e o novo lugar-tenente os acompanha em apenas uma taça, já que é abstêmio.
Iago, premeditadamente, ergue um brinde ao vinho, mas ao invés de exaltar as suas boas qualidades e seus bons efeitos, como a alegria, por exemplo; exalta os seus malefícios, como o entorpecimento da ética, a dominação que ele sujeita o viciado e os atos impensados que se comete sob os seus eflúvios.
Palavras sombrias, aziagas e que inflamam o ciúme de Roderigo que, em certo momento, não se contem e avança sobre Cássio, que tudo ignora acerca das mentiras contadas por Iago.
O combate entre ambos é violento e antes que descambe ainda mais, surge Montano, o antecessor de Otelo no governo de Chipre, e intervém. Porém, por um fatal acidente, Cássio o atinge com sua espada e ele falece imediatamente.
A confusão se estabelece e ouvir o alarido, Otelo chega rapidamente ao local do crime e, sem considerar qualquer circunstância atenuante, demove Cássio do cargo que há pouco o guindara.
Ao jovem nada resta fazer senão aceitar resignadamente o infortúnio de ter matado um inocente e de ter que arcar com as consequências.
Por outro lado, sem demonstrar, Iago rejubila-se com essa sua primeira conquista espúria. Sua vingança está em plena marcha.
Após alguns momentos, a situação volta à normalidade e pela primeira vez Desdemôna aparece para o público. Veio encontrar-se com o marido Otelo e ambos entoam o famoso Dueto “Giá Nella Notte Densa”, que encerra o primeiro ato.

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O segundo ato tem como cenário o luxuoso Palácio de Otelo.
Flanando pelos salões, Iago saboreia a vitória há pouco conquistada, mas ainda não está totalmente satisfeito, pois o que ele quer é a ruína total de Cássio; e para atingir esse sórdido objetivo, decide fingir-se solidário e amigo do mesmo.
Mostra-se solicito e preocupado com o rebaixamento “do amigo” e maquiavelicamente aconselha-o a pedir que Desdemôna interceda por ele junto ao marido.
Ingenuamente Cássio acredita em sua amizade e em suas boas intenções e ao ver que a bela esposa do General caminha pelo jardim, não hesita em pedir-lhe auxílio.
Entrementes, feliz por ver que a sua vitima caiu em sua armadilha, Iago proclama o célebre “Credo Maligno”, a genial criação do libretista Boito que inexiste no original de Shakespeare. Esse ponto, aliás, é um dos ápices da parceira entre ele e Verdi.
Enquanto isso, Otelo observa o diálogo entre Cássio e a sua esposa e logo em seguida é abordado pelo pérfido intrigante, que não perde a oportunidade para semear o germe da desconfiança e do ciúme em seu coração.
Exasperado, Otelo, exige, então, que ele lhe dê informações mais precisas e substanciais sobre um eventual relacionamento adúltero de sua mulher com o ex lugar-tenente; e não apenas vagas e maldosas insinuações.
Ardilosamente Iago desconversa alegando falsamente ser um amigo fiel do decaído Cássio.
É a vez de o General cair em sua armadilha, o que lhe aumenta o ciúme e o ódio pelo suposto “amante” de sua esposa.
Contudo, ao ver que a sua amada Desdemôna está cercada por mulheres e crianças do povo, que lhe cobrem de afeto e respeito, ele percebe o quão injusto é lançar qualquer desconfiança sobre um Ser humano tão puro e toda a sua ira se volta contra o infame Iago.
Todavia, a semente plantada em seu peito não foi totalmente extinta e logo a sua desconfiança reacende ao ouvir o apelo que a mulher lhe faz em favor do jovem destituído.
Sem nada dizer, sente uma fúria imensa apossar-se de sua pessoa. A transpiração abundante e os gestos bruscos que faz, indicam a Desdemôna que algo está acontecendo e carinhosamente ela saca de um lenço finamente bordado e tenta secar-lhe a testa, mas ele a repele com um gesto brusco e joga a fina peça no chão.
É o bastante para que ela rompa em sentido pranto, pouco adiantando o consolo que Emilia, sua aia e esposa de Iago, tenta lhe fazer, após recolher do solo o lenço atirado.
Enquanto isso, Otelo entoa a ária “Ora e Per Sempre Addio”, com a qual diz que Desdemôna já nada lhe significa e que renuncia aos votos que fizera às “santas memórias, às glórias militares e às honrarias de seu posto e patente”.
Iago tenta acalmar-lhe, mas nada é suficiente para lhe devolver a serenidade e, após um curto hiato, a sua ira volta-se novamente contra o intrigante, de quem passa a exigir provas definitivas da traição de sua esposa, sob a pena de cair sobre ele todo o peso de seu ódio.
Iago não pode subestimar tamanho perigo e percebe que precisa agir de modo rápido e efetivo. É, então, que pede à sua mulher, Emilia, que lhe entregue o lenço de Desdemôna, que foi jogado ao solo por Otelo.
Em posse da delicada peça, volta à presença do General e diz ter encontrado aquele lenço de Desdemôna em casa de Cássio; sendo que nessa ocasião, também, ouviu-o murmurar, enquanto dormia, o nome da esposa do General.
Para o perturbado Governador de Veneza é o bastante. Sim, aquela é a “prova cabal” de que a sua esposa é uma reles adúltera.
A desrazão impede-lhe de conjecturar alguma outra explicação, como, por exemplo, se tudo aquilo não seria uma mera armação de Iago, pois, a rigor, apenas a sua palavra é que sustinha a hipotética traição. Nada ilumina o seu pensamento, já despojado de qualquer lucidez. Existe em sua alma apenas o desejo de se vingar brutalmente.
Iago, observando o “estado de espírito” do Mouro de Veneza, coloca-se servilmente à sua disposição para a prática da terrível desforra e ambos ajoelham e juram aos Céus que “não descansarão enquanto não punirem os malditos traidores do sagrado matrimônio”.
E assim o segundo ato é finalizado.

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O terceiro ato é ambientado na réplica de um dos luxuosos salões do Palácio de Governo de Chipre.
Após alguns acordes solenes, um Arauto anuncia que em breve aportará uma Galera trazendo o Sr. Lodovico, Embaixador de Veneza.
Para Otelo, aquela noticia pouco interessa, já que a sua atenção está obsessivamente voltada para a suposta traição de que seria vitima. Apenas esse espinhoso assunto ocupa-lhe a mente. Nada mais importa e ele continua pressionando Iago por mais provas do mau ato de Desdemôna e Cássio.
Iago não se faz de rogado ao lhe prometer mais e, também, não titubeia em valer-se de novas farsas para continuar enganando ao General, a quem odeia intensamente, em virtude de tê-lo preterido na promoção a lugar-tenente.
Sua vingança será dupla.
E com essas reflexões rancorosas, a primeira cena é encerrada.
A segunda cena inicia-se com Otelo torturando emocionalmente a pobre Desdemôna. Ao lançar-lhe indiretas desconcertantes e grosseiras, ele tem a esperança de que ela se confunda e termine por admitir o seu erro.
Porém, a pobre esposa, com a ingenuidade dos inocentes, limita-se a responder as suas perguntas de modo irretorquível, em flagrante sugestão de sua inocência, como bem se atesta, quando em meio ao cataclismo, ela volta a pedir que ele reconduza o jovem Cássio ao posto de lugar-tenente.
Pedido inoportuno, certamente, mas feito apenas por quem se sabe inocente. Porém, esse apelo desmancha o castelo de confiança que ela vinha construindo no peito do ciumento marido e ele volta a crer em sua infidelidade.
Transtornado, ele exige que ela busque o lenço que ele lhe dera tempos atrás (o mesmo que ele atirou ao solo) e ela, sem imaginar que Iago o usara para montar a sua farsa, dirigi-se ao seu quarto para apanhá-lo.
Nisso, Iago volta à cena e diz a Otelo que se oculte e escute o diálogo que terá com Cássio, pois, então, todas as suas dúvidas serão sanadas.
Pouco depois, Cássio chega e Iago logo lhe pede o lenço que ele traz no gibão. Ingênuo, Cássio o entrega, sem desconfiar que aquela peça que encontrou por acaso (deixado em seu quarto pelo intrigante) será uma das provas que o incriminarão. Em seguida, Iago pergunta-lhe, em voz baixa e de modo malicioso, sobre uma jovem da cidade, chamada Bianca. Inocentemente, Cássio fala sobre ela de modo licencioso e divertido.
De deu esconderijo, Otelo observa a cena, mas como não escutou a explicação de Cássio, passa a crer que o lenço lhe foi dado por Desdemôna. E, por não ouvir o nome de Bianca, acredita que ele fala de sua esposa.
Dessa sorte, o discurso debochado e mais a posse do lenço, convencem-no cabalmente da culpa de Cássio e de Desdemôna. Um tremendo engano a que Iago o induziu e que terá consequências funestas.
Já não lhe é possível duvidar e a amargura que sente só não supera o ódio que lhe assalta e que lhe exige uma cruel vingança.
Nesse ínterim, o toque dos clarins anuncia a chegada de Lodovico, o embaixador de Veneza, que é recebido com grandes honras pelo cerimonial. Logo depois, o embaixador anuncia que Otelo é chamado em Veneza e que Cássio será o novo governador de Chipre.
A custa, Otelo manteve a serenidade durante a cerimônia, mas o seu coração arde de ódio, amargura e ciúme. Por outro lado, Desdemôna sente-se imensamente infeliz pelas suspeitas e pelo tratamento que o marido agora lhe dispensa. O seu semblante é apenas uma máscara de dor.
Otelo, todavia, vê nesse sofrimento da esposa, apenas a tristeza que ela está sentindo por ter que se separar do amante em breve e isso o enfurece cada vez mais, fazendo com que perca o resto de civilidade que ainda conservava e a insulte e maltrate na presença de qualquer um, como, por exemplo, na cena que a insulta com ferocidade e a joga no chão aos gritos de “Silêncio, demônio”.
Esta cena, aliás, costuma causar um grande impacto na plateia, que visivelmente repudia aquela atitude covarde, chauvinista e grosseira.
Jogada ao solo, humilhada, Desdemôna é amparada por Emilia, a sua aia fiel, e segue para os seus aposentos. Os outros a seguem na retirada e em cena ficam apenas Iago e Otelo, que não suportando a tremenda excitação e desgosto a que vem sendo submetido, perde os sentidos e cai pesadamente ao solo.
Ali caído, inerte, Otelo já não é mais nada e, por isso, quando Iago escuta que a multidão saúda o General chamando-o de “Leão de Veneza”, ele diz com o mais profundo desprezo: “Ecco Il Leone (ai está o leão)”. 
Satisfaz-lhe o ego corrompido ver a fragilidade e a ruína daquele que o preteriu. É a sua vingança final.
E assim o terceiro ato se encerra.

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O quarto ato começa a ser encenado na representação dos aposentos de Desdemôna.
Emilia, após ultimar os preparativos para o sono de sua patroa, prepara-se para sair quando escuta o choro de sua patroa.
As acusações que Otelo lhe fez, a sua própria desconfiança e o fim de sua história de amor despedaçam-lhe a alma; e tendo apenas Emilia como amiga fiel, abre-lhe o coração, enquanto entoa a melancolia ária chamada “Salce, salce”, que a acompanha desde a infância. Mais que a morte do corpo, que pressente estar próxima, o seu pranto é mais pela morte da alma a que foi condenada e, por isso, o seu cantar é repleto de tons de lamento e tristeza.
Arrasada, Emilia deixa o quarto e Desdemôna reza uma “Ave Maria” e se deixa no leito, inerte e silenciosa.
Pouco depois, percebe-se um vulto na penumbra do aposento e logo se adivinha ser Otelo que se aproxima vagarosamente do leito, onde, por instantes, fixa o semblante da mulher que tanto amou e que, agora, tanto odeia.
Curva-se, em seguida, e a beija por três vezes, repetindo uma cena do primeiro ato. Também a música se repete, mas, dessa vez, permeada de sinistros tons.
Ao receber o terceiro beijo, Desdemôna desperta e ouve a voz decidida de Otelo ordenando que se prepare para morrer, pois eis que é chegada a hora de pagar por sua traição.
Em vão ela faz a última defesa de sua inocência, mas, sem piedade, Otelo joga-se sobre ela e a sufoca. Cumpriu-se a tenebrosa ameaça.
Emilia, pressentindo a tragédia, volta ao quarto de Desdemôna e logo que abre a porta depara-se com o lúgubre espetáculo: sua amada patroa está morta!
Em choque recua e sai em disparada, gritando para todo o Palácio que Desdemôna fora assassinada pelo cruel Otelo.
Logo a acodem e todos, inclusive Iago, dirigem-se para o local do crime.
Otelo tenta justificar-se com a suposta traição, da qual tem como “prova irrefutável” o lenço que Iago sustentara estar com Cássio.
Porém, ao ver a peça, Emilia compreende o motivo de seu marido ter exigido que ela lha entregasse e, com isso, não demora em deduzir o resto do sórdido plano engendrado e executado por ele.
E tão logo termina de montar mentalmente as patifarias cometidas pelo esposo, fremente de decepção e de ódio, acusa-o de ser o verdadeiro culpado pela tragédia acontecida.
Iago ainda tenta fugir, mas os guardas o capturam e logo ele será sentenciado.
Noutro canto da cena, Otelo sente todo o peso que só o remorso pode acarretar. Então, após curvar-se sobre o corpo da inocente Desdemôna, crava o punhal em seu próprio peito.
E junto com a sua vida, encerra-se a Ópera.
 
Histórico
 
Como fazer com que um indivíduo já septuagenário, bilionário e mundialmente famoso, especialmente após a sua última composição, a célebre AÍDA, volte a se interessar por novos projetos e trabalhos?
Foi, justamente, esse, o enorme desafio a que se lançaram o Editor Giulio Ricordi e o Maestro Franco Faccio, na tentativa de convencer ao grande Giuseppe Verdi a compor uma nova Ópera.
Missão quase impossível, diga-se, mas que, por fim, coroou-se de êxito graças à persistência de ambos e, sobretudo, a sedução que o tema base exerceu sobre o velho compositor.
Afinal, um texto de Shakespeare dispensa apresentações e quando se trata, dentre outras, de uma obra-prima como “Otelo, o Mouro de Veneza” o fascínio se torna irresistível.
Ademais, outro fator teve importância crucial: o libreto escrito pelo talentosíssimo poeta e músico Arrigo Boito, que, como poucos, compreendia a intrincada relação entre a palavra e a música. Talento, aliás, que o fez ser compositor de várias óperas que ainda hoje são obras de referência.
Assim, essa soma de fatores, fez com que Verdi abandonasse o seu “dolce fair nient”, na enorme fazenda que adquirira no sul de sua amada Itália e fosse, paulatinamente, interessando-se pela proposta.
Após tomar conhecimento da genial criação de Boito, o “Monólogo – O Credo de Iago”, a sua resposta afirmativa não tardou, pois essa maligna personagem o fascinou de tal modo, que ele chegou a pensar em colocar o seu nome como título da obra.
Pôs-se, então, a trabalhar vigorosamente e em Fevereiro de 1887 deu-se a estreia no Teatro Alla Scalla, de Milão, com ótima recepção de público e de Crítica. Sucesso que se mantém intocado nas várias apresentações que ainda hoje se sucedem por todo o mundo.
Otelo é a mais dramática das óperas de Verdi e ao recontar a trágica história de amor e de ciúme, em meio à guerra turco-veneziana do século XV, também reconta a grandeza e a vileza dos sentimentos humanos, independente das circunstâncias da historia.


São Paulo, 21 de Agosto de 2015.
Lettré, l´art et la Culture. Rio de Janeiro, inverno de 2015.