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POESIA: A TERAPIA DOS EXCLUÍDOS

Nestes redutos do território latino-americanista, a falta de liberdade e de opção caldeou a paixão nunca revelada. Comentários sempre feitos à socapa, à boca pequena, proibida a delação boquirrota sobre tal ou qual assunto. Era preciso muito cuidado com o que se falava. Agir significava pagar o preço da rebeldia.

Assim ocorreu com os primitivos donos da terra. Maias, astecas, incas, quíchuas, charruas, tamoios, guaranis: a pata do conquistador selou limites.

No continente brasileiro, o senhor europeu fez a pilhagem do pau-brasil, do ouro, das pedras preciosas, mulheres para procriar o selo das Cortes.  Tratou de catequizar o gentio e lhe roubar a alma. Deu aos filhos de Tupã novos deuses e mitos. Religaram a vida bíblica utilizando Pai, Filho e Espírito Santo, num apreciável novo mundo.

Com os negros de África, o sincretismo religioso fundiu Ogum com São Jorge. Santos e Orixás freqüentaram rituais nos terreiros e nos átrios das igrejas apostólicas.  Também nos bangüês e nas senzalas.

O temor, o medo, o costume da reverência ao falso agregaram-se ao atavismo das etnias brasílicas. A exclusão social se fez pelo poder material e pela exploração do espiritual.

Hoje, o Brasil é um rico país de mais de 180 milhões de habitantes. Rico em fetiches e fome de todos os tipos. Não há opções pra quem quer viver sonhando os estreitos limites de ser feliz.

A possível felicidade produzida pela utilização dos bens materiais restringe-se aos descendentes dos colonizadores e a de seus protegidos, cujas famílias continuaram poderosas, prósperas, e a uma pequena porcentagem que amealhou riqueza, quase sempre a burras furtadas ao contribuinte honesto e aos favores que a corrupção propõe aos seus costumeiros asseclas.

Resta ao pensador popular vazar a oralidade, produzir a literatura de cordel, alçar o canto do trovador ao som do violão ou da gaita, livrando-se dos arreios que os mais bem aquinhoados teimam em colocar sobre os que carregam o peso da faina diária nos campos e nas cidades.

A escolha dos caminhos do pensamento se dá pelo anonimato, quase sempre acompanhado de certo mistério, de uma mística incontida pelo irrevelado, certeza de que é possível encontrar outro caminho. Reconstrói-se tudo aquilo que é antagônico. Remonta-se o mundo pelo sonho.

Talvez, por isso, os europeus estranhem tanto que a maioria dos escritores brasileiros comece, desde tenra idade, a escrever poemas.

O pensamento infantil, no velho continente, traduz-se assim: começa-se, em casa, pela contação de historietas com algum enredo. Afinal, os pais estão acostumados aos relatos cotidianos em jornais, revistas, livros. Lêem bastante. A leitura faz parte dos hábitos caseiros. Portanto, inicia-se pela prosa, pela linguagem usual, a voz do cotidiano.

Conta-se o dia-a-dia, literalmente. Alguma coisa de fantasia dos séculos passados: contos de Grimm, Andersen e outros. Ricos e pobres convivem desde sempre, senhores e vassalos são realidades locais. Afinal, é necessário se ter em conta que os castelos rememoram a história popular. Estão ali, ao alcance dos pequenos, visíveis, alguns em ruínas. Realidade palpável, portanto. Não há necessidade de sonhar com reis e rainhas, nem ter medo de Frankenstein. O imaginário requer ausências, coisas quase impensáveis.

Os programas de televisão europeus, em geral, são muito mal elaborados, quase todos com muito pouca inventiva, criatividade. Poucas novelas televisionadas. Criatividade e enredos muito pobres. Daí advém o extraordinário sucesso das novelas brasileiras em Portugal e outros países, principalmente aqueles em que a língua nacional tem raízes neolatinas.

Por aqui, sul-americanamente, o temor das ações de governo, o terror das ditaduras e a falta de perspectivas de futuro estão introjetados no inconsciente coletivo.

Os nossos contos fantásticos, assentados na personificação do medo, fazem sucesso na Europa democrática. Lembram de Dom Pablo Neruda e Gabriela Mistral, nobéis de Literatura? Recordam García Márquez e os personagens de Macondo, no seu formidável Cem Anos de Solidão?

Ainda mais agora, com o Mercado Comum Europeu e sua moeda forte, a realidade não mete medo. Lá os direitos do nascituro estão assegurados. Viver bem não é exclusividade dos bem-nascidos. Haverá necessidade de sonhar o futuro? Ele está ali, ao alcance da mão, crescendo como a rosa socialista dos espanhóis ou os conchavos de direita e esquerda, na Alemanha reunificada. Às favas os guetos judeus e os restos do Muro de Berlim, tudo rende ou renderá divisas para a população.  Viva a indústria do Turismo!

Paulo Coelho vende muito em todo o mundo. Sua matéria-prima é a auto-ajuda. Ele sabe que agora pode ajudar aos outros. Manipula seus dragões desde o tempo da ditadura de 64. Sua literatura tem a linguagem da esperança, trabalha por ela e com ela. Empolga e rutila os olhos dos “sem-futuro”.

Dizem que os latinos, em particular os sul-americanos, são espontâneos, inspirados pelo gênio da Beleza. Assim, cada um de nós já nasce poeta, vela-se o fato, fustiga-se a palavra, buscando, com ela, a transcendência. A metáfora, princesa da linguagem, está presente em nosso cotidiano.

Todo o mundo quer ser poeta. Todos teimam em escrever poemas. Não se aceita sequer que seja meio prosa, meio poesia, algo como poema em prosa, ou prosa poética. Poucos se aceitam escritores, quase todos se predizem poetas, malabaristas da palavra.

Revelar-se, irreveladamente. Máscaras difusas sobre o real. A matéria da vida transfigurada. Duro ofício pra quem não lê o seu irmão, aquele que chegou antes às Letras. Os consagrados, os já tornados clássicos em seu idioma. Feliz de nós, lusófonos, que temos a constatar Luiz Vaz de Camões e Fernando Pessoa. Cinco séculos os separam, mas cada um registrou a beleza poética de sua contemporaneidade histórica.

Estamos no Rio Grande, o estado brasileiro cujo povo é o que mais lê em todo o país. O rude e desafiante exercício com o gado nos campos pelos patrões e peões, cada um à sua moda e maneira, fomentou a riqueza material do charque e a época de ouro do século XIX, na metade sul do RS.

Também as lutas políticas assentadas nos bons ventos enciclopedistas de França e Itália, as guerrilhas e escaramuças pelas quais andamos nos forjando para construir Pátria, no decorrer dos últimos 250 anos, produziram hiatos de musicalidade e de leitura. O Hino Rio-Grandense tem na verve do poeta Chiquinho da Vovó, em meio à Guerra Farroupilha contra o Império, a sua letra: “Mas não basta pra ser livre/ ser forte, aguerrido e bravo/ povo que não tem virtude/ acaba por ser escravo”.

Há uma consciência, no Rio Grande, de que é preciso ser solidário, estar junto para construir o coletivo. Esta a nossa principal virtude: termos frente aos olhos aquele que precisa do amparo da mão amiga, da ajuda para o caminhar diário em busca da perenidade, nas Letras, reconstruindo a vida no poetar.

Em 2007, na capital, chegamos à 53ª Feira do Livro com a venda em 15 dias, de mais de 650.000 livros. Os dados estatísticos registram 5,6 livros/habitante/ano, enquanto a média nacional é da ordem de 3,8 livros/habitante/ano.

Como ancestralmente o sul-rio-grandense aprendeu que é necessário viver em comunidade, porque senão o “bicho pega”, o poeta e ativista literário Nelson Fachinelli – que faleceu em 26 de abril de 2006 – criou as casas espirituais da Poesia, para recolher a produção dos associados e de avulsos convidados para participar das publicações anuais cooperativadas. Enfim, propor voz e vez aos que de outra forma jamais teriam oportunidade.

Iniciou-se esta desafiante tarefa em julho de 1964, através da Casa do Poeta Rio-Grandense, que sempre foi tida e havida como a entidade-líder da Casa do Poeta Brasileiro – POEBRAS. O começo de tudo se deu concomitante ao movimento político-militar instaurado naquele ano no Brasil. Imaginem como foi difícil conciliar o exercício da palavra poética em tempos de fechamento das instituições democráticas.
 
Esta associação nacional está articulada em 73 (setenta e três) sedes municipais espalhadas em 19 (dezenove) Estados da Federação. Atualmente é a entidade líder do associativismo poético no Brasil, trabalhando e atuando como uma federação congraçadora do interesse dos seus órgãos autônomos e outras sociedades agregadas, regidos por estatuto próprio, inspirado no modelário do estatuto da POEBRAS Nacional.

Afinal, os brasileiros que pensam e agem na construção de um mundo melhor aceitaram o associativismo literário como totem do coletivismo. Registra-se na poética dessas Casas não apenas o sonho, mas a ânsia da construção de uma sociedade mais justa, mais humana.

Na prática associativa da Casa do Poeta Brasileiro, em todo o Brasil, SOLIDARISMO é palavra de ordem. Trabalha-se para o todo associativo, buscando-se o bem maior FELICIDADE para cada um, dentro do grupo.

Porque, num país onde a Saúde Pública é tão rarefeita, e está tão distante do bolso dos pobres, Poesia é a terapia dos excluídos.

No limiar deste ensaio – na intenção de ressaltar teleologicamente – como num fecho de teorema matemático, (o célebre C.Q.D.: como queríamos demonstrar) os enciclopedistas maçons do século XIX colocaram no pavilhão rio-grandense o dístico axiológico:

Liberdade, Igualdade, Humanidade!

– Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2006/2010.
http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/59787
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 15/10/2005
Reeditado em 05/05/2010
Código do texto: T59787
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
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Joaquim Moncks