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Macunaíma: linguagem e dissimulação

                         Macunaíma: linguagem e dissimulação

      A obra Macunaíma – o herói sem nenhum caráter – do escritor modernista Mário de Andrade, apresenta um herói selvagem brasileiro, que se transforma inúmeras vezes: de criança feia vira príncipe encantado, depois imperador do Mato Virgem, depois malandro na cidade de São Paulo, até transformar-se na constelação da Ursa Maior. Uma espécie de busca simbólica do caráter nacional.
     Mário de Andrade, através do personagem Macunaíma, herói mitológico da Amazônia, faz uma montagem dos mais diversos fragmentos, combinando lendas indígenas com anedotas da história brasileira. Reunindo a vida cotidiana das cidades do sul com os costumes do nordeste e norte. O herói pode, num mesmo capítulo, estar na cidade Macota de São Paulo, viajar para o rio Uraricoera, encontrar o minhocão Oibê, asssombração, e fugir dele disparado, correndo para o Sergipe, pela Bahia, por Campinas e por Santo Antônio do Mato Grosso, encontrando personagens reais e lendárias da história do Brasil.
     A narrativa é surpreendentemente inovadora, em estrutura, linguagem, enredo e caracterização dos personagens. A linguagem é a mais significativa inovação da obra de Mário de Andrade, pois através dela, o autor cria um instrumento capaz da construção da identidade do seu herói brasileiro. A combinação de vocábulos extraídos dos mais variados falares do Brasil,  se transforma numa poderosa força de expressão, capaz de transmitir o humor debochado e o lirismo sutil e vivaz que encantam o leitor.
     A principal inovação da obra Macunaíma é, sem dúvida, a linguagem, pois, nela reside a originalidade e a liberdade que resultam em uma narrativa polêmica e atual.
    Este trabalho tem como objetivo analisar a linguagem pretensamente culta de Macunaíma na carta a seu povo, e mostrar  a dissimulação no uso da língua do emissor, mostrando ainda a atualidade da prática nos discursos  dos políticos brasileiros contemporâneos.
    O destaque do uso da linguagem como parte da identidade de Macunaíma , está explicita no capítulo IX – Carta Pras Icamiabas – onde o uso  da linguagem utilizada  no decorrer da narrativa se diferencia do restante da obra, por apresentar a tentativa de uma língua culta, cujo exercício tem um resultado irônico e satírico.
        A carta de Macunaíma às Icamiabas, tem como objetivo o pedido do herói a seu povo,  de dinheiro para custear sua permanência na cidade de São Paulo. Na correspondência, o analfabeto Macunaíma perde sua noção de silvícola, e no uso desastrado de uma língua pretensamente culta, incorpora um falso letrado.A dissimulação se torna um dos aspectos mais marcantes no uso da linguagem, o que reforça no herói, a total ausência de caráter.
      O uso da língua culta de forma dissimulada sempre fez e fará parte da nossa cultura, com a finalidade de manipulação  e tem se  perpetuado ao longo da nossa história de selvagens a civilizados,  nos discursos pré-fabricados de nossos políticos.
   Analisando-se a ridícula linguagem culta usada pelo herói Macunaíma na carta, percebemos  a dissimulação através do uso de expressões e vocábulos.
   
  “Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.”(p.95)

    O emissor, dirige-se às Icamiabas como súditas, estabelecendo uma relação de subserviência e obediência  de seu povo para com ele, o que garantiria o pronto atendimento de seu pedido de dinheiro sem questionamentos, pois, súditos obedecem seus superiores.   O termo “amazonas”, completamente novo para as Icamiabas, é justificado em tom lisonjeiro e pedante. O herói revestido de falso sábio explica de forma bajuladora, o neologismo ao seu povo:

  “Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates de erudição, porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heróicas e mais conspícuas, tocadas por esta platina respeitável de tradição e da pureza antiga.”(p.95)

    Nota-se que o herói se coloca como imperador das Icamiabas quando justifica o novo vocábulo, reforçando a idéia de sua superioridade em   relação a elas, no uso de um palavrório propositadamente incompreensível. Comparável com a capacidade inesgotável que têm nossos homens públicos na criação de neologismos em seus discursos e entrevistas, deixando a maioria do povo brasileiro à margem de qualquer entendimento, causando intencionalmente, o distanciamento entre a sociedade e seus representantes.
    Ao relatar a perda do amuleto, a muiraquitã, Macunaíma reforça o vocabulário falsamente culto com estrangeirismo e justificativas cansativas e desnecessárias.

  “Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais temerosa desdita pesou sobre nós. Por uma bela noite dos idos de maio do ano translato, perdíamos a muiraquitã; que outrem grafara muiraquitãe, alguns doutos, ciosos de etmologias esdrúxulas, ortografam muyrakitan e até mesmo muraquéitã, não sorriais! Haveis de saber que este vocábulo, tão familiar às vossas trompas de Eustáquio, é quase desconhecido por aqui.”(p.95)

     A explicação descabida e ornamentada  de termos eruditos e científicos, gera a inadequação da linguagem usada com as Icamiabas, transparecendo pedantismo e superioridade. Os estrangeirismo e os termos científicos são comumente, usados pelos nossos governantes, na tentativa de impressionar o povo, justificar medidas econômicas, que fogem da compreensão e da realidade do brasileiro comum. Ainda hoje esse discurso dissimulado tem em seu cerne o propósito de distanciamento e manipulação.
   O herói, de selvagem a letrado, usa expressões como: “cinco sóis”, “idos de maio”,”ano translato”, termos que dão o discurso um tom poético e camomiano,  que certamente têm o objetivo de impressionar e causar comoção. Tal qual as campanhas políticas brasileiras, que  estão repletas de discursos poéticos e utópicos, cujo objetivo, é   impressionar e comover  a grande massa do eleitorado brasileiro.
    Macunaíma discorre sobre a língua portuguesa, também chamada de lusitana e cita os homens das letras, como Rui Barbosa e outros, deflagrando uma intimidade com o meio letrado paulista. Esse tipo de argumento deflagra o quanto inserido ao contexto  sábio e civilizado o herói se encontra. A íntima relação com a intelectualidade paulistana lhe confere status e influência O tráfico de influência que campeia no meio político brasileiro ainda hoje patrocina vantagens e imunidades aos amigos do poder.
   O herói justifica o pedido de dinheiro que faz às Icamiabas como um profundo conhecedor do mercado financeiro:
 
  “Porque súbditas dilectas, é incontestável que Nós, Imperator vosso, nos achamos em precária condição. O tesouro que daí trouxemos, foi-nos de mister converte-lo na     moeda
corrente do país; e tal conversão nos há dificultado o mantenimento devido às oscilações do Câmbio e baixa do cacau.”(p.97)

    A expressão: “moeda corrente do país”,confere ao herói um conhecimento profundo da economia do país, conhecimento este, que  lhe serve de  dissimulação para justificar sua condição precária. A dimensão  do mercado financeiro em relação ao cacau é reforçada pelo uso da inicial maiúscula no  vocábulo “Câmbio”.O mercado financeiro ainda é usado constantemente, por nossos governantes para aterrorizar o cidadão, justificando os sacrifícios aos quais  o submetem a cada novo plano econômico.
  A ausência de caráter do herói fica ainda mais  explícita,  quando ele discorre sobre as mulheres paulistanas  em relação às Icamiabas:

  “Sabereis mais que as donas de cá não se derribam a pauladas, nem brincam por brincar, gratuitamente, senão que à chuvas de vil metal, repuxos brasonados de champagne, e uns monstros comestíveis, a que, vulgarmente dão o nome de lagostas.”(p.97)

    O emissor estabelece as diferenças entre as mulheres de sua tribo e as paulistanas, atribuindo, às últimas, requinte e superioridade. O argumento que descreve hábitos e costumes do mundo civilizado, tem a intenção de justificar o pedido de dinheiro para patrocinar orgias ao imperador, inserido numa civilização inimaginável por seu povo.
  A dissimulação através da linguagem, repleta de argumentos tolos e ininteligíveis tem o propósito claro de manipulação . O pedantismo, as hipercorreções ridículas, as explicações exaustivas e o palavrório inútil e inadequado, tem como finalidade impressionar as Icamiabas, para que atendam seu pedido de dinheiro.  A dissimulação de que o herói é capaz, parágrafo após parágrafo, culmina no final da carta, quando ele sugere o acatamento de seu pedido com obediência:

  “Recebei a benção do vosso imperador e mais saúde e fraternidade. Acatai com respeito e obediência estas mal traçadas linhas; e, principalmente, não vos esqueçais das alviçaras e das polonesas, de que muito hemos mister. Ci guarde as Vossas Excias.Macunaíma Imperator.”(p.108)

   O tratamento, “vossas excias”, explicita uma clara lisonja final, que contribuirá para que as Icamiabas sintam-se valorizadas por seu imperador, homem importante , detentor de um vasto conhecimento e totalmente, inserido num mundo civilizado, o que o faz merecedor da obediência incondicional.

   A Carta pras Icamiabas, capítulo IX da obra: Macunaíma- o herói sem nenhum caráter, mostra-se ironicamente atual, revelando o poder de dissimulação implícito no uso de uma falsa linguagem culta, que serve como um instrumento poderoso de manipulação, que tem se perpetuado ao longo do tempo, e das históricas manipulações políticas, das quais o povo brasileiro tem sido vítima ao longo de sua história.
Lislopes
Enviado por Lislopes em 10/08/2007
Código do texto: T601295

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Sobre a autora
Lislopes
Passo Fundo - Rio Grande do Sul - Brasil, 52 anos
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