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2 Filhos de Francisco - A Farsa

Ainda é incerto se os americanos que decidem o Oscar apreciarão a cinebiografia autopromocional de Zezé di Camargo e Luciano. 2 Filhos de Francisco exalta a conquista com base no esforço individual, o que é bem a cara dos Estados Unidos. Por outro lado, o pessoal de Hollywood pode torcer o nariz diante do eticamente questionável pai-herói que utilizou métodos, a meu ver, condenáveis, para obrigar os filhos a seguirem a carreira artística.

Do ponto de vista técnico, o filme dirigido por Breno Silveira tem todas as credenciais para levar a estatueta de melhor filme estrangeiro. É bem realizado em vários aspectos, desde o roteiro à trilha sonora. Há na película inclusive uma seqüência que se pode classificar de antológica - do momento em que a família deixa a fazenda Sítio Novo, na região do município goiano de Pirenópolis, até a descoberta de uma lâmpada elétrica na casinha que passaram a ocupar na periferia de Goiânia. Mas o filme também tem muitos cacoetes e um pastiche sutil de Eles não Usam Black Tie, numa cena em que Helena, a mãe, interpretada por Dirá Paes, cata feijões como exorcismo para as desgraças em série que se abatem sobre a família.

As interpretações não chegam a ser magníficas, mas são bem convincentes – especialmente no caso das crianças. Ângelo Antônio no papel de Francisco bem que poderia ter ficado mais relaxado. Quem conhece a linguagem (corporal, inclusive) dos habitantes do Sudeste/Centro-Oeste, sabe que faltou a ele um pouco mais de autenticidade, mas é bem provável que os norte-americanos nem notem. O ator parece não ter assumido o lado negativo subjacente ao personagem e perdeu-se no esforço de atender à expectativa de chancelar a imagem pretendida para Francisco: a do bom pai que pelo torto faz direito.

Se 2 Filhos de Francisco é bem realizado e pode, com seu sucesso e eventual premiação, ajudar o cinema brasileiro, qual é o seu pecado? O conteúdo, a despeito da suposta fidedignidade aos fatos e de emocionar o espectador em muitas passagens.

O pecado do filme é a louvação de um sistema terrivelmente injusto para com o povo brasileiro, obrigado aos maiores sacrifícios e humilhações na batalha por um lugar ao sol. E Francisco queria para os filhos mais do que um lugar ao sol. Ele os queria sob as luzes frenéticas do show biz.

Para atingir esse objetivo torna-se implacável, tirânico, cruel, forçando os dois mais velhos a aprenderem música, mesmo à custa de ovos crus despejados goela abaixo. Chega ao ponto de entregá-los a um empresário desconhecido e mau caráter. Em resumo, legitima a brutalidade do sistema, que aposta em soluções individuais contra a sensata oferta de oportunidades semelhantes a todos. É verdade que ele também consegue do prefeito a construção de uma escola, mas esse é somente um episódio dentro de um enredo todo voltado para a obsessão por sucesso e riqueza. Até porque, pelo que o filme mostra, os meninos logo têm de abandonar a escola para se dedicarem aos shows, o que evidencia a crença raza que Francisco tinha na educação como caminho para a integração social.

Ao louvar a atitude do pai, taxado de “louco’ pelos conhecidos, Zezé di Camargo e Luciano corroboram a tese de que a saída individual é a única possível, que o melhor é não contestar e jogar dentro das regras do jogo. No final, a bordo de um off-road, e trajando roupas e óculos modernosos, os dois voltam a Sítio Novo para constatar que valeu (e muito!) a pena. É...Tudo vale a pena quando sua pickup não é pequena.

O verdadeiro e surpreendente herói dessa história não é o teimoso Francisco, nem Zezé (Mirosmar) e Luciano (Welson), com suas vozes esganiçadas e suas canções melosas. É Emival, irmão e primeiro par de Zezé. Arredio às imposições do pai, e mais lúcido quanto aos disparates daquela aventura, Emival se rebela em sua timidez; quer apenas ser uma criança, jogar bola. Por desobedecer o empresário é punido, apanha. Zezé, o primogênito, deixa-se imbuir da arrogância de Francisco, que representa a ideologia do sistema econômico, embora pobre. E é justamente o mais fraco que morre num acidente de carro durante a segunda turnê da dupla. O pai atribui a morte a uma fatalidade, mas fica claro que Emival, interpretado pelo garoto Marcos Henrique, foi a vítima fatal por estar fragilizado dentro daquele esquema de sucesso a todo custo.

Zezé di Camargo e Luciano, como se sabe, lideraram os showmícios da campanha de Luis Inácio Lula da Silva a presidente. Não acredito que tenha sido mera circunstância. O Lula da campanha de 2002 negou a luta coletiva do início de sua carreira em troca de uma aposta na imagem do homem pobre que ascendeu pelos seus méritos pessoais. O PT dos caciques e os breganejos estiveram juntos em 2002 porque fazem parte do mesmo caldo de pobreza cultural e ideológica que mantém o Brasil no atraso, do ponto de vista social e político, enquanto o povo recebe nos megashows a compensação emocional pelo grande fracasso do projeto Brasil.

E esse fracasso consuma-se de forma paradoxal, como alguém já disse: O Brasil vai ficando rico, mas continua cada vez mais subdesenvolvido. Igualmente paradoxal é que, num lance de mestres, a Conspiração Filmes, a ZCL Produções (de Zezé e Luciano) e a Columbia TriStar do Brasil, colocaram a serviço da farsa ideológica do filme um elenco de talentos e sobrenomes, que não só garantiu a excelência técnica da película, mas lhe deu o título de nobreza que a dupla precisava obter da intelectualidade e da MPB tradicional: Caetano Veloso e Moreno Veloso, na trilha sonora; Pedro Buarque de Holanda, na produção; Carolina Kotscho, no roteiro; e Vicente Kubrusly, na edição.

Felizmente 2 Filhos de Francisco prestará, ainda que a longo prazo, um serviço à causa da construção de uma nova consciência. Nem um indivíduo crítico ou de esquerda teria arquitetado um libelo tão forte contra esse estado de coisas, justamente em razão das marcas que seu viés ideológico deixaria no filme. Pareceria sempre a crítica de um outsider. Em 2 Filhos de Francisco, a exposição franca da saga dos Camargo deixa patente o absurdo das regras do jogo, quando o objetivo era apenas a celebração do triunfo. (Nos links abaixo, a ficha técnica do filme e o perfil da Conspiração Filmes):

http://www.sonypictures.com.br/hotsites/cinema/401/elenco.htm

http://www.conspira.com.br/
Nelson Oliveira
Enviado por Nelson Oliveira em 18/10/2005
Código do texto: T60875
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Sobre o autor
Nelson Oliveira
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 55 anos
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Nelson Oliveira