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A ROUPA E O SOM DAS PALAVRAS

Continuando a conversar sobre poesia, poemas e poetas, vou fazer uma tentativa de instigação, de provocação dialética, mesmo que tenha o escritor apenas 22 anos, muito jovem, portanto.

Necessário se levar em conta um dado muito significativo: o poeta tem mais de 10 anos de lavratura poética, de letramento em Poesia. Tal está a demonstrar que não é novato na inventiva.

No meu modo de ver, só se pode publicar um poema datado da infância intelectual e emotiva, se houver material poético para um livro individual, porque se está a remeter ao passado.

Assim como vários autores já o fizeram, denominando os livros como: Versos da Infância e Adolescência; Pueris; Perdidos e Achados; na Mala da Infância; Tiradas da Juventude, Tardias, etc.

A rigor, aplica-se aquela velha regra da sabedoria popular. Tudo tem o seu tempo. Ultrapassado, foi-se a oportunidade. Perdeu-se de montar o cavalo que passava encilhado. Não publicado o poema no livro de sua contemporaneidade, este fica solitário no caminho.

Poemas de vários períodos comprometem o autor. Muitos rejeitaram os primeiros versos, os albores literários. Destes, alguns rasgaram e queimaram livros até em praça pública.

São incontáveis os casos de poetas que renegaram o seu primeiro livro. Outros carregaram o fardo do diletantismo durante toda a vida. Os críticos não perdoaram o cochilo da autocrítica.

O mundo mudou muito nos últimos trinta anos. A rudeza da eventual e escassa análise é a regra.

Não te exponhas em livro desconexo, sem unidade. O critério da temporalidade é importante. Já vão 10 anos de tua inauguração pessoal.

Lido e ruminado, o texto "O Pivete" tem o espiritual dos 12 anos. É muito precoce a experiência do observador, que relata temário social utilizando o ferramental poesia, e tenta tirar em versos brancos a necessária proposta de sugestionalidade, uma das características da Poesia.

Demonstra-se, por ele, a visão solidarista de seu autor, em tudo comprometido com a humanidade, não apenas com a sua individualidade circunstancial.

Foge o poema daquele mero confessionário íntimo, que é a regra para os jovens (e para a maioria dos não tão jovens), cantando o “eu o tu” do amar e/ou a sensação gozosa da paixão.

O confessionário intimista não visualiza o leitor, por possessão do sentimento ainda não maturado, e, por não ter isto com clareza, o autor exclui aquele que o lê, não permitindo ao pólo passivo que este se aposse do texto.

Porque esta é a tônica: o poema não é mais do poeta depois de publicado, é de quem o lê. Só assim ele cumpre a sua finalidade, internalizando-se no leitor, que o incorporará, mais tarde, pela repetição, ao inconsciente coletivo.

Enfim, o autor que permanece aferrado ao poema, em sua possessão furiosa, querendo loas, ainda não é poeta, não sabe que é dos olhos e da boca do outro que nasce o seu existir, a sua alcunha de “poeta”.

É no leitor que aflora esta descoberta. É a este que cabe descobrir que está diante de uma figura diferente, um escritor muito peculiar, com um traço de viver e de escrita incomum.

É na cabeça do leitor que nasce o reconhecimento de que está diante de um poeta.

Normalmente cheio de manias, portador de uma auto-estima pronunciada, sempre a querer elogios. Talvez, com este proceder tente aplacar a insegurança psicológica que caracteriza a maioria dos poetas, mesmo os de sucesso.

Na estrutura formal do poema citado há ausência de metáforas, portanto, beira o panfletário, mas tudo se credita e é esperável aos doze anos. O final é gongórico, retórico, forte: "E a sociedade o humilha".

Porque sei mexer com o emocional de apreço pela forma, e por ser de tua própria fonte de criação, peço escusas por antecipação.

Por ser todo ele lavrado em linguagem diferenciada da poesia, teria de o classificar, quanto à forma, como poema em prosa ou prosa poética, eis que composto de linguagem usual durante toda a exposição. O que não denigre em nada a criação. Mera questão de classificação.

O autodefinido poema em exame não contém versos com poesia e, sim, versos coloquiais, palavras ainda não travestidas pela metáfora.

Na poesia, a palavra usa o seu vestido de festa, diferente do usual, daquele que se utiliza no uso diário, na faina do cotidiano. É indumentária para um baile de gala.

Quando se lê um poema fica no ar um certo mistério, constata-se uma coisa diferente no que se está a ler ou recitar; palavras que induzem a dois ou mais significados, ampliando o sentido, a profundidade da palavra. É o que se chama, tecnicamente, o conotativo e o denotativo.

Mas não te deixes preocupar, a Poesia leva tempo pra ser detectada pelo autor. A gente deseja que a Beleza se antecipe aos olhos, ou se projete para além deles. O mundo é tão duro que sempre desejamos o mimo, o fruto das musas do antigo e do moderno: a Beleza.

"O Pivete" foi premiado tal como está, em concurso literário, segundo me informas. E reunia mérito, por certo, para tal premiação, principalmente tendo em vista a idade do autor.

Ainda mais que não se sabe a qualidade do conjunto de poemas que os avaliadores do concurso tiveram para a escolha. Quanto à quantidade: se um bom número de textos ou não. Se o destacaram, é porque estava bem trajado.

Verdade é que serviu de estímulo pessoal e o recordarás para sempre: foi o teu primeiro poema.

Ao crítico literário não cabe dizer o que é bom ou não, e, sim, provocar no autor do texto examinado a necessidade de ler aos outros.

Se o autor se disser poeta, deverá ler prioritariamente Poesia; se prosador, conhecer o que escreveram os clássicos e fruir os autores da contemporaneidade. Ele obterá, desta forma, o antigo e o novo como parâmetros.

É forçoso que ele descubra que o crescimento pessoal, na poética, só virá a ocorrer se o criador literário consumir poemas de temário similar, e, pelo conhecimento assimilado, fazer o comparativo e fixar o seu estilo, pela continuidade do ato de escrever.

Algo como vestir e tirar a roupa dos fonemas e das palavras, e dançar ao som da música que elas sugerem, mesmo que a orquestra não seja a mesma.

É a cadência deste ritmo que vai intuir ao poeta as diferenças fundamentais entre os gêneros Poesia e Prosa. Também servirá para classificar a prosa poética.

Estes aportes são tatuagens espirituais que o escriba carregará pra todo o sempre. E nem adianta tentar remover a pele.

– Do livro DICAS SOBRE POESIA, 2006.
http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/62839
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 24/10/2005
Reeditado em 15/11/2010
Código do texto: T62839
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2581 textos (709754 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 19:51)
Joaquim Moncks