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Os Kafkas de Hoje e seus Terríveis Inimigos

Situações corriqueiras me fazem pensar numa questão que aflige e sempre afligiu uma certo grupo de incompreendidos.
 
Vejo o tempo todo gente comum condenando gente comum por injustiças cometidas contra gente por eles mesmos considerada incomum. Nossos colegas, pais de família e professores universitários de hoje condenam a igreja católica que um dia quis cremar Galileu por este crer que a terra era redonda; depreciam Hitler e todos os "idiotas" que ousaram seguir preceitos "absurdos" sobre raças superiores e um Reich de mil anos; cospem no nome de Judas e daqueles sacerdotes judeus e autoridades romanas que condenaram Jesus à crucificação. Torcem o nariz para os pais caretas de Cazuza, os "monstros" da ditadura militar, a burguesia preconceituosa que encarceirou Oscar Wilde, os intelectuais medíocres que não compreendiam a genialidade transcendental de Nietzche, os "entendidos" de arte que não valorizaram Van Gogh quando ele era vivo, os que mantiveram Kafka enclausurado nas rede absurdas dos senso comum de seu tempo e os que "pisavam no rosto da vontade humana" durante o sombrio 1984, de George Orwell.

Os agentes normalóides do senso comum atual adoram depreciar seus antecessores e pensar que agiriam contrariamente a eles se ocupassem seus lugares enquanto viviam. Estes inimigos potenciais de Nietzches, Kafkas e Dostoievskys abarrotam as próprias estantes com os trabalhos destes gênios, almejam apropriar-se de suas idéias, suas personas, seu legado e unicidade, pensam-se extensões presentes de sua transcendentalidade enquanto exercem justamente um papel contrário durante seu tempo, encarnando os mesmos poderes reacionários contra o qual estes ícones se opunham para castrar e descreditar seus sucessores atuais, impedindo-os de emergir à relevância pública. Os agentes do senso comum só sabem defender ideiais estabelecidos, usar Nietzche, Faucault ou Jesus da mesma forma que os católicos do tempo de Galileu usavam Aristóteles contra ele. Muitos destes hipocritas se aliariam ideologicamente à Hitler sem pestanejar com o mesmo afinco e certeza com que hoje o condenam de boca cheia; crucificariam Jesus e libertariam Barrabás como fizeram seus "inimigos ideológicos" do passado, estivessem ao lado deles na história.
 
Para cada representante da vontade de transcender que atinge notoriedade ou grande relevância pública (e eles não precisam ser gênios como Nietzche, Lennon ou Mozart, aliás, a maioria não é, embora represente genuinamente as reais forças da revitalização da liberdade e criatividade humanas), há dezenas ou centenas de semelhantes que jamais conseguirão abandonar seus cárceres psico-sociais para exercer aquele poder transformador que possuem. Entender a obra de um gênio é menos importante do que colaborar ou praticar aquele mesmo papel de abrir portas que a ele se atribue. E a maioria esmagadora das pessoas que conheço sabe apenas fechá-las, até porque aprendeu a viver desse modo. Fechá-las para si e para outros, impedindo que terceiros consigam abrí-las. Portanto, é bem provável que você tenha candidatos a gênios ou abridores de portas a sua volta, é bem possível que você, inconscientemente, os esteja ajudando a castrar, ou talvez você mesmo esteja sendo castrado enquanto lê este texto.
 
Ler, defender e idolatrar abridores de portas do passado é mais fácil do que colaborar com os abridores de portas do presente, e seu bisneto careta de amanhã poderá estar depreciando sua caretice enrustida atual só para poder legitimar a dele. É o que a maioria das pessoas sempre fez.


Luiz Mendes Junior é escritor e seus textos também podem ser achados no blog http://www.noticiasdofront3.blogspot.com

Luiz Mendes Junior
Enviado por Luiz Mendes Junior em 06/09/2007
Reeditado em 13/03/2009
Código do texto: T640628

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Sobre o autor
Luiz Mendes Junior
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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