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O Retrato




I - O sinônimo de Gênesis

A paz amarga, feita pelo silêncio em obrigação era rainha naquele lar. Haviam horas certas para tudo, porque tudo que fizessem, que alguém daquele recinto recomendasse, era certo. E a certeza de mais um dia perfeito constituía-se nas coisas simples, supérfluas e banais da vida. Eram todos calmos, ouvia-se de quartos distantes em noites profundas a respiração de cada habitante. Ninguém levantava durante madrugada, ninguém deitava-se sem conferir todas as portas e janelas da humilde casas de dois andares, construída pelo esforço do pai de família. Sem herança de pais ou avós. Gotas de seu suor estavam simbolicamente nos tijolos daquela residência. Os passos da vida transcorriam perfeitamente. O filho caçula, e a filha mais velha na escola, tirando ótimas notas, boletins recheados de orgulho. A esposa em casa fazendo os quitutes adorados, o jantar e almoço nutritivo e caprichado. O marido em seu escritório como executivo, colocando pão na mesa e guardando em partes seu salário para a faculdade dos filhos.

II – O êxodo

Ela, que sempre cuidava tão bem da casa, fazendo o possível e o impossível para que nada faltasse, limpando a estante sobre a lareira notou que algo não havia ali, como em todas as boas famílias teria de haver um porta-retrato com uma foto de todos da família juntos. Haviam sim, vários (caros) com a formatura dos filhos, a graduação do pai quando mais jovem, o casamento, aniversários e coisas afins, mas todos juntos não existia. Eram separados nas imagens eternas expostas ao resto do mundo em sua casa... Isso era inadmissível! Trancou tudo, certificou-se duas vezes de tudo bem fechado para os ladrões não terem chance e saiu com bastante dinheiro em mãos para comprar um porta retratos e colocar a foto de todos juntos naquele espaço... Tão vazio. A foto já existia, tinha vergonha de si mesma por não haver realizado antes. Comprou, grande de vidro transparente com detalhes em dourado, o embrulhou em jornal para possíveis acidentes e voltou para casa. Estava satisfeita, parou bom tempo a olhar a figura dos quatro imóveis sorrindo, em único abraço... Juntos! Todos juntos! Terminou de lustrar os demais móveis, alguns carentes de porta-retratos, mas isso era dispensável.

III – O dilúvio

Os filhos chegaram e o almoço estava pronto, servido em porções individuais nos lugares certos na mesa da sala de jantar. Sentaram-se, o marido chegou em seguida, sentou-se. O almoço foi esplendido. De guardanapos de linhos, e nenhuma palavra: conversar não podia, o almoço, era sagrado, a paz era feita assim. Após a sobremesa, ela os levou para conhecerem o mais novo representante de natureza morta da sala de estar.
A filha não gostou:” Já havia tanta decoração naquela estante, o porta-retrato novo deveria ficar em outro lugar”. O filho também não gostou: “Este porta-retrato deve ficar na sala de jantar, num lugar mais íntimo, afinal somos nós, e nós quem precisamos vê-lo”. O marido tampouco: “ Mas você agiu muito incorretamente não nos convidando para escolher o porta-retrato juntos, deveria esperar e íamos todos juntos, fazer algo de comum acordo”. Ela pôs-se a chorar, ninguém sentou pena, ela era egoísta, os filhos não suportavam este comportamento de cheia de si, e ao mesmo tempo vítima eterna. Ela e o marido discutiram, ela em pranto por uma besteira daquelas, ele ficou muito bravo, não era a primeira vez que acontecia, e era tão ridículo, também já não suportava mais aquela perfeição. Carregavam máscaras, eram quem não queriam ser, era fachada sua família. Queria viver... Mas como com eles não poderia como queria, subiu: “Fiquem todos aí, já volto, ninguém sai. Ninguém saiu e ele voltou com uma arma oculta na roupa, carregada de munição. Muito rápido atirou na esposa que nem gemeu, e ficou no sofá o manchando de sangue, póstumo ao exaspero dos filhos, atirou neles, matando-os no tapete persa importado, presente de matrimônio. E quando cachorro já latiam na vizinhança, passarinhos voavam assustados, ele mesmo gritou desesperado e apertou o gatilho quando o revólver estava em sua cabeça: matou-se também! Agora sim, tudo era perfeito.
Douglas Tedesco
Enviado por Douglas Tedesco em 11/09/2007
Código do texto: T647654
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Sobre o autor
Douglas Tedesco
Tijucas - Santa Catarina - Brasil
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Douglas Tedesco